Coluna Parabólica, por Rodrigo Mattar: Carta ao Zampa
Você faz uma falta tremenda, Zampa. Estamos órfãos de textos maravilhosos que nem os seus, do seu humor sarcástico, suas tiradas que tiravam muita gente do sério
Como vão as coisas aí em cima, Zampa?
Aquele vazio que você deixou quando partiu desta para melhor, em 13 de julho do ano passado, ainda não foi preenchido. E duvido que seja. Você faz uma puta falta no terreno dos mortais, cara.
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Mas, pensando bem, você está descansado e, com certeza, feliz. Provavelmente, rindo um bocado com seus amigos aí em cima, com o Gunnar Nilsson, o Ronnie Peterson, o José Carlos Pace e, quem sabe até, o Gilles Villeneuve. Disseram pra mim, inclusive, que você – com esse espírito moleque e sacana que você sempre teve, contou uma história daquelas bem cabeludas para São Pedro quando você chegou no reino dos céus e, só para dizer ao que vinha, passou a mão na bunda de um anjo, daqueles de asas enormes nas costas, halo e cabelo encaracolado, que nem aqueles dos filmes. E deu aquele risinho sem-vergonha, malicioso.
Diz aí, Zampa… os papos devem ser ótimos e as corridas, maravilhosas, não é não? O grid celestial está espetacular, com Graham Hill, Ayrton Senna, Jack Brabham e tantos outros grandes campeões. Acredito que a narração seja do velho Barão, do Wilson Fittipaldi. E que vez ou outra você dá uns pitacos nas transmissões dessas corridas eternas nas pistas salpicadas de estrelas.
Vou te dizer uma coisa, Zampa: foi bom você ter partido. Esse ano tá “osso”. Muita gente boa indo embora. Outro dia mesmo, o Luciano do Valle se juntou a vocês. Já se encontrou com Bolacha? Manda um abraço pra ele e diga, com todas as letras, que ele escapou de boa e não precisou gastar a voz na Copa do Mundo no vexame que a seleção brasileira perpetrou diante da Alemanha, no Mineirão.
Aliás, por falar em Copa, o seu, o meu, o nosso Rio de Janeiro, Zampa, foi invadido por uma horda de argentinos como nunca se viu. Se te conheço bem, certamente você desferiria um rosário de piadas – algumas delas repletas de epítetos – contra aquele bando de marmanjos que, feito disco arranhado, gritavam pelas ruas, bares e estádios que “Maradona es más grande que Pelé”. Esses mesmos marmanjos que não sabiam onde enfiar a cara depois que a seleção deles foi vice para a Alemanha.

Voltando ao nosso métier, Zampa, não temos tido um ano dos mais felizes. Se o Ameriquinho nunca te mandou uma carta para avisar, te digo que o Hélio Castroneves perdeu por pentelhésimos a corrida de Indianápolis pro Ryan Hunter-Reay. Na F1, o Felipe Massa tá cortando um dobrado contra o Valtteri Bottas. O finlandês, como quase todos do país dele que chegaram à categoria máxima, é bom. Zampa, o cara já conseguiu dois pódios! Consecutivos! E você não sabe a maior: chamaram o nórdico de “frangote”. Pois o “frangote” é 5º colocado no campeonato com 73 pontos. O Massa está apenas em décimo, com 30.
É, mestre, o bom jornalismo caminha irreversivelmente para o fundo do poço.
Você faz uma falta tremenda, Zampa. Estamos órfãos de textos maravilhosos que nem os seus, do seu humor sarcástico, suas tiradas que tiravam muita gente do sério. Porra, cara… você não imagina o quanto fiquei feliz ao saber pelo Claudio Paes Leme, numa conversa telefônica assim que eu fui avisado pelo Miltão Alves que você tinha desistido de continuar aqui entre a gente, que você ficou indignado com a minha demissão do SporTV e, por consequência, das Organizações Globo em 2012. O Claudio contou, rindo, e eu fiquei imaginando você, de lá de São José do Rio Preto, vociferando pelo telefone.
“Porra, Claudio, fizeram uma baita sacanagem com o turco”.
Você, Zampa, me chamava de ‘turco filho da puta’ porque – sabedor da minha origem libanesa – cutucava o dedo na ferida. Na minha e na do Amir Nasr, outro a quem você dedicava a mesma zoação. No fim das contas, a gente sabia que, apesar de tudo, a provocação era puro carinho.
É com o mesmo carinho, mesmo sabendo que você ironizaria chamando a mim ou a qualquer outro de pederasta – e olha que você conheceu vários por aí nos autódromos, não é mesmo? – por conta desse tipo de manifestação, que te dedico esta carta e a coluna dessa semana.
Foi a melhor forma que encontrei para homenagear sua figura inesquecível, que deixou saudade em todos nós que te admirávamos.
Com um abraço enorme,
Turco FDP.
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