A Odisseia de André Suguita: o sonho
A partir do momento que eu tiver que prestar contas para alguém, acho que perde para mim um pouco do charme. Eu quero que seja sempre o meu hobby

“Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir”
Amyr Klink
*em depoimento a JULIANA TESSER
Eu sempre quis participar do Dakar. Sempre sonhei em participar do Dakar, mas eu tinha total conhecimento da dificuldade, do ponto de vista logístico e do ponto de vista técnico. Eu estava começando e era um negócio que estava muito longe do meu alcance. Mas aí eu fui participando de provas aqui no Brasil, fiz o Sertões e tudo mais, fui ficando mais à vontade. Até que, no ano passado, falei: ‘Não. Deixa eu ir, vai’.
Tinha acabado de ter a minha filhinha – ela vai fazer dois anos agora – e pensei: ‘Se não for agora, depois eu não vou mais’. Acabei decidindo ir mais por uma questão de, realmente, me sentir preparado. Eu me sentia razoavelmente preparado para participar do rali, já tinha alguma experiência, e também por um momento de vida que acabou me levando a participar da edição deste ano.

André Suguita foi ao Dakar para realizar um sonho de infância (Foto: José Mário Dias)
Imaginava o Dakar como uma versão mais longa do Rali dos Sertões, em que já participei cinco vezes de quadriciclo e uma vez de UTV. Já estava súper acostumado. Para quem assiste de fora e acompanha, como eu sempre acompanhei pela internet, pelos meios de comunicação, a gente sempre ouve falar nessa história de que é o rali mais difícil do mundo. O Rali dos Sertões é o segundo mais difícil, o segundo mais longo, então eu falei: ‘Ah, poxa, a diferença entre o primeiro e o segundo não deve ser grande’. Ledo engano… O Rali Dakar, na minha visão — e eu até acabei conversando bastante sobre isso com o próprio Du Sachs, que participou do Dakar este ano como navegador do Ricardo Leal —, é, sem brincadeira, umas dez vezes mais complicado que o Rali dos Sertões. É um outro nível de dificuldade que eu não imaginava. Pensava que seria mais difícil, mas não tão difícil assim.
Admito que acabei pecando muito na minha preparação. Por ter essa confiança de que não seria um bicho de sete cabeças, confesso que eu não fiz nada. Eu não tinha um personal trainer. Hoje, se você me colocar para correr 5 km em uma esteira, eu acho que eu não consigo. E a própria parte da preparação do quadriciclo, foi um negócio totalmente de última hora.
Eu tinha planejado ir com um quadriciclo que estou acostumado a correr aqui no Brasil, um da KTM, que corro com ele desde 2009. Neste Rali dos Sertões, eu acabei fundindo três motores dele nos três últimos dias do rali. Aí resolvi comprar um Renegade, da Can-AM, lá na Argentina, porque o modelo que é homologado para participar do rali não vende aqui no Brasil, e eu fui ver quadriciclo pela primeira vez lá, no dia da largada. Foi tudo meio que… não diria que foi às pressas, porque a gente tomou essa decisão uns três meses antes, então deu tempo suficiente de montar um quadriciclo, mas não foi ideal. Foi longe do que deveria ter sido uma preparação para um rali deste porte. Antes do Dakar, acho que eu devo ter andado umas quatro ou cinco horas com esse quadriciclo. Foi uma experiência nova para mim em vários aspectos. Eu confesso e admito que eu deixei a desejar. E foi, absolutamente, culpa minha, talvez até em grande parte por ter subestimado o grau de dificuldade da prova.
Não tinha nenhuma meta em termos de resultado. Até porque, com este quadriciclo — muito confiável e excelente —, não tem como competir de igual para igual com o quadriciclos 4×2. Os 4×2 são muito mais rápidos, mais leves e mais ágeis. O meu objetivo único e exclusivo, digamos assim, era terminar. E aí, automaticamente, terminar já seria um grande feito do ponto de vista prático, porque seria o primeiro brasileiro a terminar com um quadriciclo.

André Suguita tem 34 anos e trabalha no mercado financeiro (Foto: Victor Eleutério)
Sempre corri sem patrocinador. Faço questão de manter a estrutura no sentido esportivo amador. Eu não sou um cara que tem a capacidade técnica de obter nenhum resultado expressivo e, a partir do momento que eu tiver que prestar contas para alguém, acho que perde para mim um pouco do charme. Eu quero que seja sempre o meu hobby.
Isso começou para mim como uma brincadeira lá no meu sítio em São Roque. Com 12 anos de idade, o meu pai comprou um quadriciclo. E todo dia em que participo de uma prova, eu continuo aquele mesmo cara de 12 anos de idade que quer fazer aquilo para se divertir. Eu nunca tive nenhum ímpeto competitivo, e isso é fato. Obviamente, se você está em uma competição, sente aquela vontade de chegar na frente de um, ultrapassar, mas isso para mim é parte da brincadeira. Você ultrapassar um piloto é um movimento técnico. Você tem de ter a técnica suficiente para passá-lo, mas não significa para mim que eu sou melhor ou pior do que ele. A questão esportiva nesse sentido competitivo é absolutamente secundária. Eu faço questão de não ter um patrocínio. E apesar de ser um hobby caro, graças a Deus, pelo meu trabalho, que é o que realmente importa para mim, tenho condições de participar. É um custo elevado, mas eu consegui montar uma estrutura, acho, bem adequada para o que eu precisava. Não teve nenhum desperdício, mas também não fui em uma estrutura simplesmente para estar lá. Foi uma estrutura que foi planejada com o intuito de completar.
Se eu tiver que repetir, eu não faria nada diferente do que a gente fez. Não ficou faltando nada para mim como piloto.
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