Magnussen volta à F1 como Steve McQueen e corre para apagar ‘inferno na torre’ da Haas

Kevin Magnussen chegou como cavalaria da Haas e nem sequer parecia que tinha ficado um ano fora da Fórmula 1

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Caso o leitor não tenha feito uma conexão imediata entre os elementos oferecidos no título desta análise, trata-se de uma analogia ao filme ‘Inferno na Torre’. Os mais velhos ou mais ligados ao cinema, porém, entenderam a comparação rapidamente. Mas o que tem a ver com Kevin Magnussen e a participação na Fórmula 1 2022?

O longa, lançado em 1974, foi uma verdadeira inovação da época no que se entendia por efeitos especiais no cinema — quase um planeta diferente do que é possível fazer hoje, perto de 50 anos depois. A sinopse era basicamente a descoberta do engenheiro responsável pelo projeto do maior prédio do mundo, na noite da inauguração do local, de que as condições de seguranças não foram seguidas durante as obras. É aí que o desastre começa a se desenrolar.

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O engenheiro, no caso, é vivido por Paul Newman. O elenco era estrelado de estrelas jovens, como Faye Dunaway e Richard Chamberlain, bem como veteranos já à época, como o histórico Fred Astaire, que até recebeu uma indicação ao Oscar e venceu Globo de Ouro e Bafta pela atuação. Do outro lado do elenco estava o chefe dos bombeiros que vem à torre para tentar salvar o máximo de vidas possíveis: um personagem interpretado por Steve McQueen.

E, sim, é verdade que Magnussen, como McQueen ‘The King of Cool — algo como rei dos descolados’, tem cabelo e barba completamente loiros e queixo retangular. Não é uma comparação estética, embora essa parte também não atrapalhe. Mas, como McQueen em ‘Inferno na Torre’, Magnussen foi chamado às pressas pela Haas com o evento já em andamento.

Chegou para a segunda sessão de testes de pré-temporada após o inferno na torre meio estadunidense e meio russa da Haas, assumindo o lugar de Nikita Mazepin. A invasão da Rússia à Ucrânia foi o que começou o fogo. Por toda ligação dos Mazepin com o governo russo, a Haas soube logo que teria de cortar ligação e assim fez.

Um alívio por saber que não teria de continuar abrigando um piloto ruim e que causava problemas internos e públicos, mas também um drama, uma vez que havia a certeza de um processo de rebote dos Mazepin e que a Haas teria de chamar alguém que não participara do projeto dos novos carros da F1. Para encurtar a necessidade das partes se entenderem, foi atrás de um bombeiro que conhecia bem. Magnussen, afinal, defendeu a equipe entre 2017 e 2020.

Kevin Magnussen lidera duelo interno na Haas contra Schumacher na temporada 2022 da F1 (Foto: Haas F1 Team)

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O cenário estava posto. Magnussen chegava para ser McQueen: o bombeiro de quem se esperava não só a presença, mas o brilho. Afinal, o outro piloto era um jovem que começava apenas a segunda temporada na F1. Com uma tecnologia totalmente nova em curso, desenvolver o carro seria necessidade de primeira hora.

O dinamarquês já tinha deixado de lado a vida na F1. Admitia que não esperava voltar e fora morar nos Estados Unidos, onde se acertara para correr de endurance com Cadillac e Ganassi, depois com a Peugeot, e sonhava até numa vaguinha de titular na Indy. O chamado de Guenther Steiner foi quase um sonho.

“Falei muitas coisas sobre ano passado ter sido um dos melhores da minha vida. Fiquei animado de voltar a lutar por pole-position e vitória em todos os fins de semana, mas só existe uma Fórmula 1. Nada é como a Fórmula 1”, falou Kevin.

“Se não houvesse um regulamento técnico novo e a Haas continuasse onde estava ano passado ou se as regras de 2021 fossem continuar por mais alguns anos, eu certamente teria duvidado. Mas, no fim das contas, enxerguei como oportunidade. Não havia garantias”, lembrou.

“Guenther [Steiner, chefe da Haas] não me prometeu nada, mas explicou o que tinham feito e como haviam se concentrado nos últimos dois anos. Quando saí, em 2020, estava claro que o plano era esse. Então, fiquei entusiasmado e pensei que poderia ser algo positivo”, seguiu.

Kevin Magnussen está feliz por ter voltado (Foto: Haas F1 Team)

Durante o período fora, aprendeu bastante sobre a F1 e enxergou uma nova cara na categoria onde esteve por tanto tempo.

“Ainda preciso me beliscar. Ser piloto de F1 é uma coisa muito grande. É uma dessas coisas que só comecei a me tocar no ano passado, quando não fazia mais parte. Quando vê de fora, a gente se dá conta da quantidade de gente que acompanha a F1, que fala dela em casa durante os fins de semana de corrida”, disse.

“Comecei a dar importância a esse aspecto e de como era bom fazer parte dela. Ao voltar ao circuito, passei a apreciar muito mais. Agora presto atenção a quantos espectadores estão nas arquibancadas e de como é grande”, afirmou.

Logo de cara, liderou teste de pré-temporada e deu a entender que a Haas ao menos não começaria o ano enterrada na última colocação. Mas era mais que isso. Magnussen teve desempenho invejável na abertura da temporada, o GP do Bahrein, largou em sétimo e terminou na quinta colocação. O quinto posto garante dez pontos: a Haas marcara apenas três pontos nos dois anos anteriores completos.

O piloto voltou a somar pontos com o nono lugar na Arábia Saudita, segunda corrida, e no GP da Emília-Romanha, onde também foi nono e ainda amealhou o último ponto da corrida sprint, com o oitavo lugar. Após cinco corridas de seca, voltou a entrar na conta na Inglaterra e Áustria. Apenas nestas duas últimas provas é que o companheiro, Mick Schumacher, conseguiu pontuar também.

Rivalidade? Não é o objetivo. Talvez fosse difícil imaginar esse tipo de negativa na primeira passagem na F1, mas o novo Magnussen, essa figura mais grata do que nunca por estar ali, quer outra coisa.

“Ao meu ver, se ele for mais rápido, temos de trabalhar como equipe, e eu não vou bloqueá-lo e prejudicar o time num todo”, garantiu Magnussen após abrir a porta para o companheiro em Silverstone. “Estou aqui para ajudar a equipe. Não vim aqui para ganhar o Mundial agora, essa não é a minha posição. Espero que um dia aconteça, mas, por enquanto, sou um jogador da equipe”, acrescentou.

A conta, após 13 corridas, é de 22 a 12 pró-Magnussen, que ocupa o 11º lugar do Mundial de Pilotos. A Haas está em sétimo entre os Construtores. O dinamarquês fez o suficiente para, até o momento, estar na frente de Daniel Ricciardo, um piloto da muito mais poderosa McLaren.

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Os resultados são muito importantes, mas lembremos da analogia que está no coração deste texto. Sem os Mazepin, a Haas está na tampa das possibilidades no que diz respeito ao dinheiro. Até havia alguma grana para criar o conceito do carro, mas os russos saíram logo na sequência. Desenvolver sem dinheiro é uma tarefa árdua e, para tanto, é indispensável ter ao menos um piloto que faça isso muito bem.

Os ajustes finos valeram muito. Os pontos na primeira parte do campeonato também não eram casuais: mostravam um senso de urgência de quem sabia que haveria um pedaço do ano em que as rivais teriam atualizado muito, enquanto a Haas ainda estaria com aquelas ideias iniciais.

As cinco corridas de zero ponto eram inevitáveis e mostravam a realidade de um time que afundava até apresentar desenvolvimento. Que veio, ainda que menos profundo que nas demais garagens. É difícil saber se a Haas vai resistir nas nove corridas restantes, mas, com 34 pontos, tem chances reais de escapar ao menos das últimas duas posições do Mundial de Construtores. É fundamental para o que vem de bonificação da FIA e para vender o próprio peixe a patrocinadores futuros.

Neste momento, a Haas controlou o fogo. Muito disso é graças ao bombeiro Kevin Magnussen.

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