Na Garagem: Senna vence e parte para título #1 na F1: o outro 1º de maio em Ímola
A pista de Ímola e a data de hoje, 1º de maio, estão condenadas a uma conexão eterna entre si e de ambas com a morte de Ayrton Senna. Mas história do tricampeão por lá é mais antiga: e teve momento de glória há exatos 35 anos
Há certas datas e locais que estão intimamente conectados a um evento e não existe maneira de dissociar de um momento dentro da história. Nesta data, 1º de maio, somada ao Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, uma memória torna-se automática: a morte de Ayrton Senna. Exatamente 29 anos atrás, Senna, Ímola e o 1º de maio se encontraram de maneira trágica, no desfecho de um fim de semana cataclísmico para a Fórmula 1. Mas data, local e personagem já haviam se encontrado anos antes.
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Era a mesma Ímola, para o mesmo GP de San Marino, mas seis anos antes: 1988. O aniversário de 35 anos, nesta segunda-feira, é para marcar um dia que também está estampado no rol de grandes momentos da carreira de Senna. Aquele domingo, no norte da Itália, serviu de comprovação do que há muito se falava e de quem tanto se esperava: Ayrton seria um desafiante à altura de Alain Prost.
O GP de San Marino representava a segunda etapa daquele campeonato, e Senna começava a tentar se provar como a escolha certa de uma McLaren que buscava acabar com o vácuo pós-aposentadoria de Niki Lauda ao lado de Prost. Somente a segunda corrida de um ano que vira a McLaren assumir comando de mala e cuia. Na estreia, no Brasil, Senna fora pole, mas terminou desclassificado da corrida após problemas; Prost venceu. Agora, em Ímola, o brasileiro voltara a cravar a pole.
A história de Senna dera voltas até chegar à McLaren. Da pequena Toleman, em 1984, aos três anos numa Lotus que já não era mais o poderoso esquadrão de outros tempos. Fora terceiro colocado no campeonato de 1987, quando conquistou o primeiro pódio na pista: um segundo lugar. Mas agora o patamar era diferente e o objetivo também havia mudado. O título estava às vistas, mas havia um Prost no caminho.

Senna fizera a pole com 0s7 de frente para o Alain, e a McLaren sobrava como poucas vezes se havia visto. Na largada de 1º de maio, Prost caiu para sexto: o carro tinha problemas e travava naquele pré e pós-largada, ainda cedo. Ayrton escapou sem olhar para trás. Em oito voltas, Prost era segundo colocado novamente, mas já distante. O combustível era uma questão importante em Ímola e, mesmo com o carro rápido e a desvantagem contra um rival que administrava o equipamento, Prost sabia que não podia atacar da maneira que precisava ou, então, arriscaria abandonar a prova com pane seca.
Enquanto isso, Senna tinha o controle nas mãos e, apesar de afirmar mais tarde que chegou a sentir cheio de queimado no carro e que a alavanca de troca de câmbio afrouxou, jamais foi ameaçado. Uma vitória tranquila que abriria o caminho para mais sete nas 14 etapas restantes. Com oito vitórias, Senna se tornou o piloto com maior número de triunfos numa mesma temporada até àquela altura – Prost venceu sete das outras oito, e a McLaren só perdeu uma única prova. Assim, no final de 1988, Senna se tornava campeão mundial de F1, o terceiro da história do Brasil, e começava a escalada do tricampeonato.
“Pela primeira vez desde que estou na F1, senti que dispunha de um carro para ganhar e que me permitia controlar o ritmo da corrida, sem ser obrigado a estratégias diferentes como, por exemplo, ser o único a não mudar de pneus para ficar em vantagem”, afirmou logo após a corrida, em aspa curada pelo site Forix.
“Nas primeiras dez voltas, senti fumaça e cheirou a queimado, mas cheguei ao final da corrida sem saber o que aconteceu. Depois, a alavanca da caixa de câmbio ficou mole e imprecisa, o que me levou a redobrar de atenção para não falhar qualquer passagem de marcha. Foi então que pensei na possibilidade de se repetir o incidente da largada do Rio e que eu não poderia terminar a corrida se a alavanca se partisse. Além disso, o consumo foi sempre um fator limitativo. Tanto eu como o Alain apenas andamos aquilo que pudemos, de acordo com as indicações que tínhamos sobre o consumo de combustível”, pontuou.

“Os carros mais lentos também apresentaram uma dificuldade considerável. Cheguei tocar na traseira de um deles na saída da última curva, felizmente sem consequências para a frente do meu carro. A competição entre nós [Senna e Prost] é saudável, e isso vai nos ajudar a fazer evoluir o carro da McLaren”, finalizou. A competição foi se tornando menos saudável com o passar do tempo, mas essa era a realidade daquele momento.
Foi em Ímola, num 1º de maio, que Senna venceu a primeira corrida pela McLaren, primeira dele no 1988 que terminaria com o nome estabelecido no Olimpo dos pilotos eternos do esporte do Brasil. Como campeão mundial, enfim.
Lugares, datas e personagens podem, sim, tornar-se símbolos inseparáveis uns dos outros. E, algumas vezes, a conexão entre todos os pontos é de consternação. Mas quando se explora e estuda alguma história, seja ela qual for, é fundamental entender que sempre há alguma contextualização e que a linha do tempo não começa e nem termina num mesmo ponto, imutável e congelado.
O 1º de maio de 1994 será sempre a fotografia mais desoladora de uma história bela: a que Senna dividiu com a Fórmula 1 e com a legião de fãs apaixonados que construiu e deixou, para gerações além de si próprio, por aí. Se Ayrton é ídolo de quem sequer andava mundo afora em 1994, como pode dizer que a história acabou? Pode parecer um desamparo lógico, mas a história como conhecemos não caminha da forma que o olho humano detecta.

A história pode ser contada como estrutura cronológica, mas não é assim que ela vive. A história não caminha linearmente, minuto ao lado de minuto, um dia certo após o anterior. Ou, melhor dizendo, ela não caminha linearmente apenas. É cronológica e também não é e, desta maneira, oferece o ambiente anárquico perfeito para que prosperem os ritos civilizatórios de pertencimento e orgulho como exemplos de algo que não se viveu, mas que se sente. De que outro modo tanta gente que não viveu Senna louvaria Senna? E se a história de Ayrton, Ímola e 1º de maio como encruzilhadas do mesmo conto acabou em 1994, então como é que o busto do piloto na pista italiana vive homenageado, comemorado e chorado com as dores da honra de fãs tão distantes na cronologia da história narrada?
Local da agrura mais dolorida, a pista e o dia se mostraram também estabelecimento das homenagens mais carinhosas, ano após ano, lembrança após lembrança. A história de Senna será sempre ligada àquele dia, infelizmente, mas será também sempre ligada às homenagens e ao reconhecimento, aqui e lá, hoje, amanhã e depois.
Se a história não tem e não terá um fim, porque é impossível terminar com o que não tem fronteiras, ela teve um começo oficial. Em 1988, quando o campeão mundial Senna começou a ser construído na carreira daquele faminto e brilhante piloto da McLaren.
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