Mercedes anima com início forte, mas decepções do passado justificam desconfiança

Nos últimos anos, a Mercedes viveu um eterno "agora vai" — que nunca foi. Vivendo uma montanha-russa desde 2022, as Flechas de Prata chegaram com força e capitalizando resultados em 2025, mas o passado recente indica que ainda é cedo demais para se animar

Equipe que mais despencou com a mudança de regulamento da Fórmula 1 em 2022, a Mercedes começou a temporada 2025 de maneira diferente. O desânimo dos últimos anos, quase sempre após a primeira classificação — ou até algum dos treinos livres — do campeonato, deu lugar ao entusiasmo e até à ideia de que o time conseguiu se tornar a segunda força do grid, atrás apenas da McLaren.

Capitalizando em todas as chances que teve até aqui, George Russell foi ao pódio nas duas etapas da temporada, Austrália e China, sempre em terceiro. À frente, apenas as dominantes McLaren e um Max Verstappen que se recusa a aceitar a realidade do próprio carro. Andrea Kimi Antonelli oscila bem mais, é verdade, mas está em seu primeiro ano na F1. Com o forte início, será que o time finalmente se encontrou?

E é exatamente aí que reside o problema. Essa mesma pergunta já foi feita inúmeras vezes desde 2022. Na primeira temporada após o retorno do efeito solo, ficou claro que o time não entendeu o regulamento; na segunda, a manutenção de um ‘zeropod’ claramente equivocado foi apenas a ponta do iceberg em um ano ainda mais decepcionante.

Em 2024, o início da temporada novamente mostrou que o carro não brigaria pelo título, mas a estagnação da Red Bull permitiu que a Mercedes fosse se aproximando aos poucos. A questão é que McLaren e Ferrari também cresceram (bem mais do que as Flechas de Prata, inclusive) e tomaram o protagonismo, principalmente o time inglês — que ergueu o troféu do Mundial de Construtores.

Em duas corridas, Russell fez dois pódios. Na sprint da China, ficou em quarto (Foto: AFP)

Para 2025, a situação parece diferente. É bem verdade que apenas duas corridas foram disputadas, e 2024 deixou uma lição muito clara: tudo pode mudar até o fim do ano. Em uma temporada extremamente longa, com 24 etapas e seis corridas sprint, a ordem de forças não vai permanecer a mesma do início ao fim — e a esquadra alemã pode capitalizar em cima disso.

A grande questão, novamente, é o “pode“. Nos últimos anos, a Mercedes se tornou uma das maiores montanhas-russas da F1, justamente por não saber onde está — e, muitas vezes, nem como chegou lá. Grandes desempenhos viraram pó de um fim de semana para o outro, deixando nada além de um rastro de dúvidas, decepções e a certeza de que a compreensão do regulamento fugiu de Toto Wolff e companhia.

Em 2024, por exemplo, a saída para as férias de verão mostrava uma Mercedes imponente. Após pódios consecutivos em Canadá e Espanha, o time foi ao lugar mais alto na Áustria, com Russell aproveitando o entrevero entre Lando Norris e Verstappen para assegurar a vitória. Se o sabor era de que tudo foi na sorte, o triunfo de Lewis Hamilton uma semana depois, na Inglaterra, afastou essa noção.

E afastou porque não foi apenas uma vitória circunstancial, mas a quebra de um jejum que já durava quase três anos e conquistada com muito mérito também pelo carro. O ritmo estava lá. Depois, novo pódio na Hungria e um 1-2 magnífico na Bélgica, que virou vitória de Hamilton após desclassificação de Russell.

Antonelli não consegue acompanhar ritmo de Russell, mas vive ano de estreia e adaptação (Foto: Mercedes)

A sequência, portanto, não foi curta. Entre Canadá e Bélgica, falamos de um intervalo de seis corridas, mais do que o suficiente para as já tradicionais oscilações darem as caras. Isso não aconteceu, talvez com exceção dos treinos em Spa, e a F1 foi para as férias debatendo se ainda haveria tempo de a Mercedes brigar pelo caneco.

Cerca de um mês se passou e, no retorno, a mesma história dos anos anteriores: decepção. Sem competitividade, os carros prateados nem ameaçavam brigar pela vitória e só voltaram a triunfar em Las Vegas, antepenúltima etapa da temporada, em circunstâncias muito específicas. Aproveitando o frio do qual era fã, o W15 virou um foguete e trouxe, aí sim, um 1-2: Russell à frente, Hamilton atrás.

E o que veio a seguir? Parcos quartos lugares em Catar e Abu Dhabi, antes do encerramento da temporada. A recapitulação se faz importante porque, em um momento de alta, é necessário lembrar que outros já vieram em um passado recente. E não significaram nada, com o retorno à mediocridade logo à espreita.

A temporada 2025 indica, realmente, que a Mercedes enfim compreendeu melhor o regulamento técnico atual da Fórmula 1. Russell parece confortável e cada vez mais confiante no posto de líder, o carro performa melhor em janelas mais variadas e o nível de competitividade parece ter subido, principalmente em comparação a inícios anteriores de campeonato.

Vivendo boa fase, Russell espera que a decepção não tome conta novamente (Foto: AFP)

Ainda assim, não é o suficiente. Com duas corridas solitárias, Russell deu indícios de que está em uma espécie de limbo: atrás da McLaren, mas à frente de Ferrari e Red Bull. Chegou a ultrapassar Norris com um undercut na China, mas logo sucumbiu à superioridade do carro adversário e perdeu a posição. Ficou claro que ainda não há como competir pelo título, e até para brigar por vitórias será necessário um empurrão de condições externas.

Seria impossível contar quantas vezes a Mercedes passou a sensação de “agora vai” nas temporadas mais recentes da Fórmula 1. Neste início de 2025, o conto vai se repetindo, e o que parecia ser um ano de transição para o regulamento de 2026 ganha novos contornos. Agora, cabe ao departamento técnico das Flechas de Prata impedir que essa história receba o mesmo fim trágico dos últimos anos.

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