Opinião GP: Norris testa inteligência e vai sofrer de novo em briga direta com Verstappen
Max Verstappen tomou de assalto o GP do Japão e, mais uma vez, colocou Lando Norris e a McLaren à prova. Em uma corrida de poucas alternativas, o inglês do carro #4 sucumbiu ao desespero em uma manobra tosca. E acabou jogando fora uma oportunidade de tentar dar o troco no rival em Suzuka. Diante desse cenário, é quase inevitável pensar que não só falta maturidade a Lando, mas também uma dose de malícia e inteligência
É BEM VERDADE que o GP do Japão foi a pior corrida deste início de temporada. Sem chuva ou fogo (!), Suzuka ofereceu pouco em um dia que nada funcionou como deveria, a não ser esse excepcional Max Verstappen. O homem que tem quatro títulos mundiais converteu a mágica volta da pole do dia anterior em uma vitória contundente neste domingo, que agora o coloca a 1 ponto de distância da liderança do campeonato, em um momento também em que não tem o melhor dos equipamentos nas mãos. No entanto, é preciso destacar a atuação blasé da McLaren — sobretudo de Lando Norris. O desespero naquele incidente da saída dos boxes apenas prova que 1) ainda não está pronto para o título e 2) é preciso também inteligência em uma empreitada como a que a Fórmula 1 exige. Portanto, só o melhor carro não basta e não vai bastar.
É necessário expor aqui as condições desta corrida em Suzuka, antes de tudo. A etapa nipônica se mostrou atípica demais até mesmo para os padrões do tradicional traçado de propriedade da Honda. Há algum tempo, o circuito não oferece provas primorosas, não só pela especificidade da geração de carros da F1, mas também pelos pouquíssimos pontos de ultrapassagem. Desta vez, porém, a coisa tomou uma forma ainda mais intrigante, porque as baixas temperaturas acabaram por proteger os pneus e afastaram o temor de uma degradação mais intensa — tanto que a prova foi decidida em um único pit-stop. Assim, os pilotos puderam acelerar sem o recorrente receio de perder ritmo por causa do desgaste, o que também contribuiu para uma corrida sonolenta. E é aqui que entra ou deveria entrar a McLaren.
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Verstappen causou espanto com a pole no sábado, diante das mazelas enfrentadas com a Red Bull. Mas os taurinos foram capazes de virar o jogo e encontrar uma solução, ainda que paliativa. Max não desperdiçou a chance — como nunca faz — e usou bem a vantagem da posição de honra, para não só controlar a corrida, mas também a narrativa toda. Em nenhum momento foi ameaçado, porque a esquadra laranja simplesmente adotou, de novo, uma postura irritantemente conservadora, lembrando muito as horas de incerteza que marcaram o campeonato passado. No dia anterior, embora não escondesse o golpe, o time inglês chegou a falar em vantagem, por ter dois carros ao redor do adversário. Isso, contudo, sequer foi levado em conta quando as luzes se apagaram.
O tetracampeão saltou bem e impediu qualquer ataque dos rivais. Depois, tratou de manter sempre uma distância de mais de 1s para Norris. E o que se viu foi um ritmo bastante semelhante entre Max e os dois carros laranjas. Neste ponto, era esperado que a McLaren tentasse colocar em prática uma tática diferente, entendendo a dificuldade de superar o oponente em pista — e por tática diferente, entende-se o seguinte: ousar e não apenas usar um blefe bobo como fizeram na volta 18, quando chamaram Lando para os boxes, na tentativa de “passar Verstappen”. Obviamente, a equipe taurina ignorou. Mas o que fez Andrea Stella? Decidiu para o britânico na mesma volta do líder.
A McLaren trabalhou melhor no carro de Norris e o fez voltar ao lado de Verstappen no pit-lane. O neerlandês manteve a linha na saída dos boxes, como deveria, enquanto o inglês buscou uma manobra estabanada, talvez esperando uma reação igualmente atrapalhada do rival. Resultado: o piloto #1 ganhou a pista sem problema, já Lando foi parar na grama, colocando o carro em risco, inclusive.
Mas antes de falar dessa situação bizarra, também é importante colocar aqui as decisões da McLaren, que pareceu mais preocupada em cobrir George Russell, que estava apenas quinto, do que o próprio Verstappen. É compreensível olhar para todos os cenários e ficou claro que o uso dos pneus duros no segundo stint se portou melhor do que os médios usados do fim do primeiro trecho de prova. No entanto, o foco deveria ser a luta pela vitória, não? E neste caso, Oscar Piastri também poderia ter sido o fiel da balança, bem como uma tentativa mais atrevida, para forçar uma reação da Red Bull, por exemplo. Ou seja, por que não arriscar? Ou ainda tentar uma parada tardia e aproveitar melhor os pneus novos na sequência? Ou simplesmente dividir a estratégia?
(Vídeo: Reprodução / DAZN / F1)
Inclusive, a Mercedes optou por isso. Kimi Antonelli foi um dos últimos a parar no top-10 e, quando voltou, foi capaz de se aproximar do colega Russell, cravando voltas rápidas em sequência.
“Talvez pudéssemos ter tentado mais com estratégia”, admitiu Norris mais tarde. “Discutiremos isso. Poderíamos ter ido antes? Sim. Mas aí você corre o risco de safety-car. Se você entrar três voltas antes e o safety-car sair, você parece estúpido.” Mas aí que risco seria maior?
O chefe da McLaren também hesitou ao falar da estratégia e do quão difícil era tentar passar em pista. O dirigente italiano disse não ter certeza se um eventual undercut funcionaria — situação quando o piloto que persegue para antes do rival — devido ao desgaste. “Não está claro se poderíamos ter feito o undercut, mas acho que se tivéssemos colocado Lando primeiro, não teríamos conseguido manter Oscar, e isso teria sido um problema”, explicou.
“Teríamos esperado, o que teria sido um problema para os outros carros, especialmente Russell, que já havia parado e que tínhamos que cobrir. No entanto, certamente revisaremos o que não funcionou em termos de tempo para ver se havia a possibilidade de fazer o undercut com Lando em Max.”
“Não podemos esquecer que, ao abrir mão de posições na pista, o carro que para nos boxes também fica exposto ao risco de um safety-car, por exemplo. Lando teria perdido posições neste caso, então, olhando para trás, fica fácil pensar que o undercut era possível. Claramente, toda aposta envolve riscos”, completou.

O ponto aqui é que a McLaren sequer tentou, e isso é algo que pode custar caro no futuro. E de novo, a equipe se vê em um ciclo como em 2024, diante de cenários erráticos como do Canadá e da Inglaterra, por exemplo. Mas também é preciso analisar a postura de Norris. É claro que havia dificuldade em termos de ultrapassagem e riscos que seriam necessários, mas é imperativo entender o adversário. A tentativa de ‘cavar uma falta’ na saída dos boxes foi, no mínimo, infantil e ainda deixou escapar um descontrole das ações, exibindo uma vulnerabilidade que, certamente, será usado pelo adversário em novas oportunidades. E o fato de entender apenas como um incidente de corrida é ainda pior.
Lando sabe exatamente o que é preciso para entrar em uma disputa com Verstappen. E surpreende que, mesmo agora, atue como se a qualquer momento fosse superar o rival. É um teste de resistência também, provando, de novo, que o inglês vai sofrer se a disputa do campeonato ganhar ares de 2021. Em entrevista ao The Guardian neste domingo, o britânico afirmou que “não precisa ser um babaca” para vencer na F1, respondendo às críticas sobre as derrotas que enfrenta no confronto com Max. Realmente tem razão, mas é preciso ser inteligente.
A Fórmula 1 volta de 11 a 13 de abril para o GP do Bahrein, em Sakhir, quarta etapa da temporada 2025.
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