Na Garagem: Senna baila em Portugal, vence 1ª na F1 e começa a se tornar ‘do Brasil’
Num 21 de abril como hoje, há exatos 40 anos, Ayrton Senna passeou na chuva torrencial do Estoril para vencer o GP de Portugal de 1985. Foi a primeira vitória do tricampeão na F1 Ali, no que veio a ser o dia da morte do primeiro presidente civil eleito pós-anos de chumbo, Tancredo Neves, Senna começou seu legado na F1 e no Brasil
Era um 21 de abril como hoje, em 1985. Um início de tarde com chuva torrencial no Estoril, e a F1 estava prestes a largar para o GP de Portugal. No Brasil, alguma expectativa. Um jovem piloto chamado Ayrton Senna, apenas no segundo ano na categoria, primeiro numa equipe que dava a ele mais chances de andar nas posições frontais, estreava na pole-position de um GP.
Conforme a chuva apertava e a pista portuguesa dificultava mais, com um desenho que fazia a água escorrer para partes do traçado, as coisas pareciam niveladas, favorecendo o jovem piloto da Lotus. Especialmente quando puxava-se a memória para o GP de Mônaco do ano anterior, onde Senna barbarizou com a Toleman também na chuva sem levar em consideração que, com carro tão inferior, sequer deveria incomodar os principais nomes do grid.
No Estoril, na chuva e sob todas as adversidades que um dia daqueles podia representar a um piloto, Senna largava na frente e abria. Atrás dele, Elio de Angelis, seu companheiro de Lotus, tomava a segunda posição de Alain Prost e Keke Rosberg na largada.
Foi uma prova inegavelmente divertida. Os pegas entre Nelson Piquet – com uma Brabham que não roncava tão alto em 1985 -, Riccardo Patrese e Stefan Johansson, além daquelas entre De Angelis e Prost, por exemplo, deram à corrida um quê de emoção. Claro, as quebras também eram potencializadas com a chuva, bem como os erros.

“Aquela corrida foi um pesadelo”, contou Patrick Tambay, terceiro colocado na prova, em entrevista concedida há alguns anos ao site da F1. “Choveu muito do início ao fim, tinha muita poça, pouca visibilidade e a iluminação era muito ruim. Foi uma prova de sobrevivência”, falou.
Os pegas, por fim, garantiram a emoção num dia em que a briga pela vitória foi simplesmente apagada da face da Terra. No volante da Lotus #12, Ayrton abriu, abriu e abriu mais um pouco. E nessa deu volta em quase todos na pista. Apenas o segundo colocado, Michele Alboreto, passou ileso.
A vantagem era tamanha que, em determinado momento da prova, Gérard Ducarouge, então projetista da Lotus, sugeriu que Senna dosasse o ritmo. “Enquanto está acontecendo, ficamos nervosos e sempre pensamos se devemos intervir no que o piloto faz”, disse à F1 o então engenheiro de corridas do tricampeão, Steve Hallam. “Mas conforme passamos a conhecê-lo melhor, soubemos que ele entrava num ritmo particular e pedir que ajustasse impunha mais perigo que deixar que ficasse no dele”, apontou.
“Ayrton me lembrou dessa conversa depois do GP de Mônaco em 1988 [quando Senna liderava por quase 1min e bateu]. A McLaren pediu que diminuísse o ritmo, e ele obedeceu, saiu do ritmo próprio e daquela zona de concentração em que estava. Depois, passou por mim e falou: ‘Lembra daquilo que eu falei?”, lembrou.

Alboreto e Tambay, respectivamente por Ferrari e Renault, subiram ao pódio. De Angelis, Nigel Mansell (Williams) e Stefan Bellof (Tyrrell) — outro ás da chuva marcado por brilhar em Mônaco 1984 — foram aos pontos. Os então já campeões mundiais Niki Lauda, Nelson Piquet e Rosberg não completaram a corrida. Tampouco Prost, que se tornaria campeão pela primeira vez no fim daquele ano. Rosberg e Prost não paravam de rodar. Provas de uma corrida verdadeiramente difícil.
“Vencer naquelas condições exige um talento excepcional. Havia 20 talentos lá que falharam miseravelmente naquele dia. Ele, não. Ayrton venceu de maneira convincente”, recordou Hallam.
“Senna fez o que fazem todos os bons pilotos: procurou por aderência. A aderência em condições de pista molhada não está sempre no trilho seco, por assim dizer. Os pneus se comportam de maneira diferente. Ayrton era muito bom em ajustar seu traçado, sentir o carro e encontrar a aderência. Aquilo, num dia em que a chuva era tão pesada, além da habilidade que tinha acabaram fazendo com que obliterasse todo mundo”, seguiu Hallam.
Então, em 1985, Senna cruzou a linha de chegada. Ainda não havia o ‘Ayrton Senna do Brasil’ de Galvão Bueno, que se tornaria o sobrenome com que seria consagrado ao cruzar as linhas de chegada nas glórias da carreira. Existia o tema da vitória e seu ‘tã tã tã’, mas ainda não identificado tão intrinsicamente a Ayrton como se tornaria. Era, então, apenas uma vitória convincente, quase brilhante, de um jovem atleta com muita gasolina no tanque.

“Depois da prova, disse que não tinha guiado perfeitamente e teve uma ou duas ocasiões em que achava que ia sair da pista. Na parte oposta da pista, teve uma mudança entre quarta e quinta marcha atrás do pit-lane em que ficou de lado e achou que perderia tudo duas vezes. Mas isso foi principalmente por conta do volume de água na pista”, revelou o engenheiro.
Muita gente lembra que Lauda, então no que seria a última temporada da carreira, saiu cuspindo fogo pelas ventas e dizendo que as condições da corrida tinham sido perigosas e a prova não devia ter ido adiante. Mas a coisa era tão pesada que até o próprio Ayrton chegou a pedir a paralisação.
“Lembro dele gesticulando para tentar que a corrida fosse interrompida e o cinismo dos que comentaram depois que não devia parar porque, se não tivessem parado cedo em Mônaco 84, ele teria vencido. Senna venceu, mas teria deixar parar a prova. As condições nas quais corríamos há 30 anos, sem safety-car… É provável que, se fosse hoje, ficassem muito tempo atrás do safety-car. Em alguns aspectos, isso destaca ainda mais as capacidades do piloto”, opinou Hallam.
Mas, hoje, olhando em retrospectiva, a vitória no Estoril em 1985 é muito mais do que mais uma das vitórias também pelo que representou para Senna como formação de um ídolo. O torcedor brasileiro esperava mais que o resultado de uma corrida na F1. A conquista, então recente, de ter um presidente civil pela primeira vez desde o Golpe Militar de 1964, tornou-se rapidamente um pesadelo. Eleito em janeiro de 1985, ainda em votação fechada, sem o povo, Tancredo Neves passou a lidar com problemas de saúde graves e em veloz escalada. Um tumor no intestino, que escondeu com receio da ainda assustadora sombra da ditadura, tornava a posse incerta.

E embora as semanas de Neves no hospital, primeiro em Brasília e depois em São Paulo, fossem acumulando, o presidente-eleito não se recuperava. Num momento em que a vida do primeiro presidente civil pós-ditadura escapava e o Brasil se via novamente preso à incerteza, Senna apareceu, venceu e mostrou ao mundo que seria mais do que um outro. Aos berros na transmissão da TV Globo, Galvão cantava em verso e prosa como a F1 falava do “talento fantástico e da incrível capacidade de conduzir um automóvel” do ‘garoto’ Senna, que fazia uma festa ímpar de dentro do cockpit da Lotus.
“Foi uma corrida dura e tática, curva a curva, volta a volta, porque as condições mudavam o tempo inteiro”, falou Senna ao contemplar o feito alguns anos mais tarde. “O principal era manter a concentração e ficar acostumado às condições de pista molhada apesar de não ter sido assim o fim de semana todo. Corremos numa pista muito escorregadia, com o carro escorregando em tudo que era parte, e era difícil manter sob controle. Várias vezes vimos carros escorregando simplesmente pela falta de aderência e muita potência”, comentou.
“Mesmo com uma liderança confortável era difícil manter a concentração e segurar o carro sob controle perto do fim. Uma vez, quase rodei na frente dos pits, do mesmo jeito que Prost, e tive sorte de seguir na pista. Acham que eu não errei, mas não é verdade. Nem sei quantas vezes escapei. Uma vez, cheguei a colocar as quatro rodas na grama, totalmente sem controle, mas o carro voltou. Todo mundo disse que tive um controle fantástico do carro, mas tive mesmo foi sorte”, admitiu.
“Dizem que minha melhor performance foi em Donington 1993 na chuva, mas não foi mesmo, sem chance. Ali, eu tinha controle de tração. Tudo bem, não cometi erros, mas o carro estava bem mais fácil de guiar. Foi uma boa vitória, sem dúvidas, mas comparado a Estoril 1985 não foi nada. Aquele champanhe teve um sabor especial”, finalizou.

O dia 21 de abril de 1985 terminaria com uma cobertura extensa dos veículos de comunicação brasileiros. No fim da noite, num plantão do ‘Fantástico’, o então porta-voz da presidência, Antônio Britto, anunciou que, aos 75 anos de idade, Tancredo Neves morrera vítima de uma infecção generalizada.
Na temporada da F1, Portugal representa apenas a segunda corrida, depois justamente do Brasil. Senna venceria mais uma das 14 provas posteriores, na Bélgica, e conquistaria seis outras poles. Mas a Lotus não oferecia chances reais de brigar pelo caneco, e Ayrton encerrou 1985 com 38 pontos, cinco a mais que o companheiro De Angelis, e o quarto lugar do Mundial de Pilotos. O único oponente real a Prost foi Alboreto, com a Ferrari, mas o italiano abandonou as últimas quatro corridas. Prost, assim, garantiu a primeira perna do tetracampeonato.
Senna, claro, ainda faria mais dois anos pela Lotus antes de cruzar o destino com Prost, na McLaren, em 1988. E o resto, como diz o clichê, é história.
*Adaptado de texto escrito em 2015, nos 30 anos do aniversário do GP de Portugal de 1985
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