Hamilton sofre, mas início pela Ferrari não é trágico. Meta é evitar espiral da morte
Lewis Hamilton vive começo de trajetória complicado pela Ferrari, mas nada tão desesperador assim, ao menos por enquanto. Manter cabeça no lugar é imperativo para achar caminho de casa
Por mais que negue e queira indicar diferente, Lewis Hamilton certamente deitou a cabeça no travesseiro muitas vezes ao longo de 2024 pensando em como seria sentar no cockpit da Ferrari vestido de macacão vermelho e guiar aquele carro. E com absoluta certeza o que imaginava não era o que a realidade mostrou nas primeiras cinco etapas da temporada 2025. Mas dificuldade não quer dizer desistência, e Hamilton está longe de uma tragédia grega. Fundamental para virar a situação é evitar de entrar na espiral da morte que mostrou vez ou outra na Mercedes, sobretudo durante 2022 e na segunda metade de 2024.
Hamilton tem 31 pontos na temporada após cinco provas e uma sprint — 23 se contabilizarmos somente as corridas pura e simples, sem os oito pontos do grande momento que viveu até aqui, a vitória na corrida curta da China. O companheiro de equipe, Charles Leclerc, fez 47 — 43 sem contar a sprint. Hamilton teve apenas uma posição de largada melhor que a do companheiro, enquanto não terminou uma prova sequer à frente.
Sofre, é verdade, mas é impossível fazer justa análise da situação sem contextualizar o caso de Hamilton a fundo dentro de si próprio e frente ao que acontece em casos semelhantes de seus pares em 2025.
A primeira questão é recordar que Hamilton não está apenas numa nova equipe e que a equipe em voga é a Ferrari, com tudo aquilo que a cerca. Mas se trata também de uma estrutura, técnica e mecânica, com a qual nunca lidou em quase 20 anos de categoria. Se um piloto que muda de time tem de conhecer novos rostos e maneira de trabalhar em âmbito pessoal, no caso de Hamilton e da Ferrari a situação se agrava. Lewis nunca havia acelerado nada com um motor diferente aos da Mercedes na F1, jamais conhecera os meandres do trabalho de dia a dia ferrarista, desde o volante até carga de operação e ritmo de reuniões. É tudo novo, diferente de quando se mudou da McLaren para a Mercedes. Havia diferenças, claro, mas conhecia o motor, as pessoas e a estrutura técnica de primeira ordem.

A temporada 2025 apresenta outros pilotos em situações semelhantes. É o caso de Esteban Ocon, na Haas, outro que utiliza motores Ferrari pela primeira vez, e de Carlos Sainz na Williams, também conhecedor de primeira hora dos motores Mercedes. Para estes, tudo é diferente. E a história da temporada tem desvendado para os três, todos tendo chegado cheios de moral nas respectivas equipes, que a realidade é dura.
Ocon até tem mais pontos que Oliver Bearman, um novato, mas fruto de uma prova em que as coisas deram certo além da conta na China. Bearman pontuou em três corridas contra dois do experiente francês e tem sido o piloto mais veloz da casa com bem mais frequência que o companheiro de equipe. Sainz, que chegou a peso de ouro, tem levado verdadeiro vareio de Alexander Albon, outro que, assim como Leclerc, tem tempo de casa. São 20 pontos a cinco, quatro provas nos pontos a duas e o teste visual: Alex é claramente mais rápido.
O tamanho das dificuldades pode ser um pouco surpreendente, maior do que se imaginava, mas fruto de uma temporada que tem se apresentado diferente do que o público achava que encontraria. O quarto ano do mesmo regulamento técnico fez com que a aerodinâmica atingisse o limite, segundo publicou a revista alemã Auto Motor und Sport. Por isso há muito ar sujo de um carro para o outro e a dificuldade de seguir oponentes de perto. As equipes têm ficado próximas umas das outras, mas sem gerar corridas eletrizantes.
O cenário da extração total da aerodinâmica, ou quase isso, dificulta muito a vida de quem chega do zero. Mesmo dos novatos, que vivem de brilharecos por mais que tenham sido preparados por meses ou anos com os carros das equipes que agora assumiram. É incomparavelmente mais difícil se jogar de um trem de carga que de um trem-bala. O superconhecimento dificulta o aprendizado. Faz com que demore mais.

Sobretudo porque os maiores problemas que tem encontrado estão na classificação. Como está difícil para todo mundo no grid recuperar posições em ritmo condizente com o que se espera de carros superiores, por conta dos longos trens de DRS e do ar sujo dos carros da frente, retomar o caminho aos domingos fica impraticável.
É absolutamente prova disso o fato de Lewis ter brilhado em ritmo de corrida na sprint da China, justamente após conseguir andar bem na classificação curta. Demonstração de que há algo ali, que a reserva de talento não ficou oca assim, do nada, mas é preciso puxar à superfície.
Nada disso é para eximir Hamilton dos problemas. Afinal, heptacampeão que é, tem certamente muito mais responsabilidade que Sainz e Ocon. Mais ainda que os novatos da categoria. Ele é Lewis Hamilton, o homem de uma centena de vitórias e sete títulos. Está na Ferrari, pudera. A ele, claro, a pedida é muito maior. Mas serve para descartar conversa fiada quando trata das dificuldades de se conectar ao carro.
“Tentar me conectar com este carro em volta lançada é algo que estou achando muito difícil. Mas não vamos desistir. Quando há vontade, há caminho. Vamos nos esforçar, seguir tentando. Temos um apoio incrível, então vamos trabalhar duro”, afirmou durante o fim de semana na Arábia Saudita.

A grande questão é que o Hamilton dos últimos anos é afeito a autopiedade quando as coisas começaram a dar errado. E, aí, o que se segue é uma espiral da morte, aquele movimento circular que fazem os aviões quando tombam 90° em direção ao solo e do qual quase nunca se recuperam.
“Não houve um único segundo, não”, falou após a prova saudita quando questionado se esteve mais confortável. “Luto para sentir o carro, mas não há nada que eu diga ‘esse é o problema’. Não há solução [no momento]. Não sei por quanto tempo mais será assim, mas é doloroso”, apontou.
É verdade que Arábia Saudita foi um ponto baixo, com desvantagem de 0s7 para o companheiro, mas é também uma fotografia do ponto mais complicado. Hamilton tem a confiança de uma equipe que prega estar “2.000%” a seu lado, a habilidade que mostrou ao longo da vida toda e experiência. Não precisa de “transplante de cérebro”, como falou. Precisa de tranquilidade e resiliência. Ainda há tempo para que tudo fique bem.
A Fórmula 1 volta de 2 a 4 de maio em Miami, primeira corrida da temporada 2025 nos Estados Unidos.
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