Na Garagem: Montoya segura ímpeto de Power e vence 500 Milhas de Indianápolis pela 2ª vez
Com uma atuação primorosa correndo pela Penske, a segunda vitória de Juan Pablo Montoya na Indy 500 completa dez anos. Triunfo do colombiano foi a consagração que o colocou no Olimpo da categoria em 2015
O dia 24 de maio de 2015 está gravado para sempre na memória de Juan Pablo Montoya. Então aos 39 anos de idade, teve uma das atuações mais impressionantes como piloto, mostrando resiliência e, acima de tudo, as 500 Milhas de Indianápolis são abnegadas em escolher seu vencedor. O colombiano conquistou o bicampeonato da principal prova do automobilismo norte-americano e, se ainda havia alguma dúvida de que era um dos principais nomes da categoria, terminou naquele dia. O GRANDE PRÊMIO recorda o que está Na Garagem e recupera a trajetória de ‘Juanpi’ até a conquista, exatos dez anos.
Mas antes, um pouco de contexto histórico. No ano anterior, Montoya foi anunciado pela Penske como titular em 2014 após passagens pela Fórmula 1 – entre 2001 e 2006, por Williams e McLaren – e Nascar — onde ficou até o início da temporada, disputando apenas duas provas. Com as portas reabertas na categoria onde fora tão feliz no fim dos anos 1990 e até o ano 2000, presente de Roger Penske, o piloto deu rápidos sinais de que a boa forma estava em dia. O que precisava era um grande carro em mãos. Naquele ano, venceu as 500 Milhas no oval de Pocono e terminou o campeonato na quarta colocação, bem distante do campeão e companheiro de equipe, Will Power.
Helio Castroneves completava o ‘Quadrado Mágico‘ da Penske junto de Simon Pagenaud. Ou seja, nada de vida fácil para Juan Pablo naquela garagem.
A temporada 2015 começaria com pompa e expectativa para a Penske e seus mosqueteiros. E logo na abertura, um cartão de visitas e tanto: Montoya venceu em São Petersburgo. Em Nova Orleans, vitória surpresa de James Hinchcliffe, pela antiga Schmidt Peterson — que, com o tempo, foi incorporada pela McLaren. Eis que uma ameaça real à Penske se manifestou na terceira corrida: Scott Dixon, pela Ganassi. Um jovem Josef Newgarden, pela Carpenter, venceria no Alabama. Por fim, o GP de Indianápolis marcava o retorno às vitórias do campeão vigente Power.
Após as cinco primeiras corridas do campeonato, Montoya liderava com cinco pontos de frente para Power e 13 para Castroneves: um trio da Penske nas primeiras posições. Mas Dixon e o intruso Graham Rahal apareciam somente 26 pontos atrás. O campeonato estava só no começo e, agora, iria para a Indy 500.

Campeão bumpado e acidente gravíssimo: a definição do grid
Montoya não teve uma grande atuação na classificação e, nem de perto, mostrou condições reais de brigar por uma vaga entre os doze que disputariam a pole. Com 224.657 mph (361 km/h), encaixou-se na 15ª posição, dividindo a quinta fila com Oriol Servià e Charlie Kimball. Os brasileiros, por sua vez, entraram bem fortes na disputa, com Castroneves partindo da quinta colocação, atrás de Tony Kanaan, que vinha de Ganassi.
Na primeira fila, Scott Dixon foi o responsável por quebrar o favoritismo da Penske ao cravar a pole-position, com 226.760 mph (367 km/h). Ao seu lado, teria Power e Pagenaud. Mas, com 34 pilotos inscritos, a Indy 500 aprontaria das suas com a definição da última fila através do temido Bump day. Entre os candidatos, um vencedor: Buddy Lazier.
O norte-americano, que triunfara na edição de 1996 com a Hemelgarn, disputaria uma das últimas três vagas com uma equipe particular que levava o sobrenome da família, a Lazier Partners, junto com Jack Hawksworth (AJ Foyt), Stefano Coletti (KV), e Bryan Clauson (Jonathan Byrd’s). O bólido, que nas edições anteriores teve a capacidade de se classificar para a etapa, dessa vez o deixou na mão. Buddy ficou longe e amargou a eliminação pré-500 Milhas.
No dia seguinte à classificação, uma cena chocou a todos do IMS dias antes da corrida. Uma falha na suspensão dianteira traseira de Hinchcliffe jogou o carro contra o muro de Indianápolis na curva 3. O carro ficou em pedaços e, embora estivesse acordado, o piloto da Schmidt Peterson teve sua coxa perfurada no cockpit. O rápido atendimento da equipe médica do circuito foi responsável por salvá-lo e, dez dias depois, recebeu alta com a expectativa de recuperação completa, sem sequelas por conta do acidente. Fora da prova, Ryan Briscoe foi confirmado como substituto e largou da 24ª colocação.

A edição 99: muita disputa e consagração renovada para Montoya
Logo na saída para as três voltas de apresentação, Alex Tagliani ficou parado no grid. Apesar do susto, conseguiu ligar o carro e disputar a prova. Conor Daly, por sua vez, não teve a mesma sorte e abandonou a corrida antes mesmo dela começar por problemas no exaustor. A bandeira verde foi acionada, mas com pouca ação para os carros da Indy. Tudo por conta de um toque entre Takuma Sato e Sage Karam, que resultou em abandono para o norte-americano antes mesmo de completar a primeira curva.
Montoya começava a construir o caminho para o topo, mas não de maneira linear. No carro #2, enroscou-se com Simona de Silvestro e caiu para a 28ª posição. Ambos tiveram de fazer a primeira parada forçada, só que os boxes estavam fechados e, assim, a dupla teve de dar mais uma volta com os bólidos avariados para realizarem suas paradas. Menos mal que não levaram uma volta.
Lá na frente, a Ganassi mostrava força no primeiro stint, com Dixon abrindo margem de distância para Kanaan, que ultrapassara Pagenaud e era o segundo. Na volta 19, Tony assumiria a ponta e lideraria por pouco tempo, até ser batido novamente pelo companheiro. Juan vinha na 25ª colocação após a relargada. Após a primeira rodada de pit-stops obrigatórios, a liderança ainda estava com Dixon, mas Montoya seguia em recuperação plena, ganhando oito posições e subindo o elevador na 17ª posição.
A bandeira amarela apareceu novamente no giro 64, quando Clauson perdeu o controle do carro e acertou o muro na curva 4. Com todos os carros nos boxes, a Penske faz das suas com uma boa estratégia e colocou Pagenaud na liderança após a relargada. Montoya mostrava que não estava para brincadeiras e exercia forte pressão em cima de Helio, brigando pelo sétimo lugar a partir da volta 73. Ganassi e Penske trocavam frequentemente de posição entre os quatro primeiros lugares.

Veio a centésima volta e um incrível Montoya assumira a terceira posição, atrás apenas de Simon e Kanaan. 12 giros depois, nova amarela, graças a um atabalhoado Servià, que tentou uma manobra para cima de Ed Carpenter em um espaço inexistente e ambos abandonaram a prova. E incidente nos boxes: o trio de pilotos da Dale Coyne protagonizou uma cena bizarra durante a parada, resultando no atropelamento de mecânicos de Tristan Vautier. Dali, apenas Pippa Mann se manteve firme, enquanto o Vautier e James Davison abandonaram.
Na 151ª volta, Kanaan, que vivia a corrida de número 300 na categoria, viu as chances evaporarem. O #10 da Ganassi escapou de traseira na curva 4 e acertou o muro. A rodada nos boxes mexeu bastante o pelotão da corrida e colocou Kimball na ponta, Dixon em segundo e Montoya na quarta colocação. Castroneves não fez boa relargada e caiu para nono. O colombiano foi ousado e passou Pagenaud, beliscando o segundo lugar.
A direção de prova acionou a bandeira amarela novamente no giro 170 graças a detritos presentes na pista que tornariam a corrida perigosa. Aqui, o jogo virava para o carro #9 da Ganassi: se até este momento, tinha ritmo suficiente para ser um dos favoritos à vitória, um erro no pit-stop o jogou para a quinta posição. A curiosidade? O neozelandês foi o piloto que mais liderou voltas na prova, com 84, mas saiu de cena e terminou apenas em quarto.
Estava sentindo falta de um acidente impactante, caro leitor? Pois ele veio graças a Hawksworth, que escorregou, acertou Sebastián Saavedra. Os dois foram juntos ao encontro do muro. Coletti ainda bateu forte em Saavedra, e bandeira amarela acionada novamente. Sebastián saiu carregado pelos fiscais de pista, com muitas dores e chorando muito.

A corrida recomeçou com 15 voltas pela frente. Foi aí que as coisas apontaram para a direção de um show. Power, Montoya e Dixon trocaram de liderança por inúmeras vezes, e Kimball escoltava o trio, com disposição o suficiente para se intrometer na disputa pela vitória.
Sem Dixon ter força para brigar, coube a Power e Montoya o duelo final pelo Olimpo da Indy. E com apenas nove das 200 voltas na liderança, o colombiano assumiu a liderança no giro 197, graças a uma bela ultrapassagem por fora em cima do australiano na curva 1. E, então, foi acelerar rumo à bandeira quadriculada pela segunda vez na Indy 500, 15 anos depois do primeiro triunfo. Castroneves terminou a corrida na sétima colocação.
Muita festa para o carro #12, que comemorou sem amarras, beijou os lendários tijolos do IMS e bebeu com gosto o tradicional leite dos imortais em Indianápolis.

O pós-500 Milhas: empate em pontos entre campeão e vice
Juan Pablo perderia o fôlego na sequência daquela temporada. Após a Indy 500, liderava o campeonato com 272 pontos, 25 à frente de Power, porém, nada de vitórias para ele nas dez provas seguintes, embora tenha conquistado um terceiro lugar em Pocono — em corrida marcada pelo acidente fatal de Justin Wilson.
Mas foi, de fato, um campeonato picado em vitórias e pódios: ninguém venceu mais que três das 16 corridas, tampouco terminou mais que seis vezes no top-3. Quem partiu em ascensão foi Dixon, mas nada insano. A Ganassi colocou o carro #9 nos trilhos novamente e triunfou pela segunda vez no ano – a primeira havia sido em Long Beach – no oval do Texas.
Na corrida final, cinco pilotos chegaram em condições de disputar o título contra o neozelandês: Montoya, Graham Rahal, Power, Castroneves e Josef Newgarden. E um adendo: estava em vigor a regra dos pontos duplos na decisão. Com atuação brilhante em Sonoma, Dixon conquistou a vitória naquela prova, com o Montoya terminando apenas em sexto e a decepção em pessoa.

Na pontuação geral, um feito poucas vezes visto na categoria: Montoya e Dixon terminaram o campeonato empatados com 556 pontos mas, no critério de desempate, melhor para o “Homem de Gelo”, que levou o troféu de campeão naquela temporada graças ao número de vitórias – 3 a 2 contra o colombiano, conquistando o tetracampeonato da Indy, com mais dois títulos ainda por vir, em 2018 e 2020.
Mas tudo isso veio depois. Naquele domingo, 24 de maio, foi Montoya quem brilhou e fez do Brickyard sua casa uma última vez.
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