Mercedes acerta em lutar por Verstappen. Só precisa cuidar para não derreter antes
O calor é o grande calcanhar de Aquiles do carro da Mercedes, mas ela precisa também ter cuidado para não fazer a boa relação que tem com George Russell derreter enquanto luta para finalmente abocanhar Max Verstappen
Que atire a primeira pedra aquele que, na posição de Toto Wolff, diante de todas as recentes circunstâncias que envolveram a Red Bull desde o começo de 2024, não usaria as armas que estivessem disponíveis para trazer Max Verstappen para a sua equipe. Trata-se de uma questão tão óbvia que até mesmo George Russell, justamente a pessoa que pode ficar a pé se isso acontecer, já declarou que faria o mesmo, afinal estamos falando simplesmente do melhor piloto em atividade hoje no grid da Fórmula 1. Só que toda essa história tem mais camadas que, se não cuidadas, podem fazer o tiro sair pela culatra.
Primeiro, aos fatos: a Mercedes hoje possui nas mãos um carro melhor que o da Red Bull, só que isso não é por mérito dos alemães. Desde meados da temporada 2024, o desenvolvimento dos taurinos desandou completamente, enquanto a eterna arquirrival conseguiu finalmente começar um campeonato com um carro mais fácil de se trabalhar.
O início de 2025, aliás, recolocou Russell no posto de oportunista, uma vez que o domínio da McLaren e o braço de Verstappen naturalmente ofuscaram todo o resto. Foram quatro pódios nas primeiras seis corridas do ano. Sobrou até espaço para Kimi Antonelli beliscar a pole da sprint de Miami. Só que a Europa veio para jogar um balde de água fria, ainda que o ditado não pareça o mais adequado frente à peculiar condição do W16 com o calor.
Sim, a esperança da Mercedes derreteu em solo europeu. Ainda que agora o carro preto e prata tenha uma janela operacional maior para o trabalho da configuração, o clima segue parecendo fator determinante para a performance na Fórmula 1 — e aqui o uso do termo ‘parece’ é por conta do GP da Inglaterra, onde não só fez frio, como ainda choveu, mas a Mercedes ficou, com o perdão do trocadilho, a ver navios.

Daqui em diante, portanto, não há tanto mistério: considerando o fator meteorológico, já dá para prever a Mercedes sofrendo em determinadas pistas, como Hungria, sempre muito quente, e Monza, ainda vivendo o verão europeu. Mas qualquer coisa acima de 25°C já é um pesadelo, portanto, na prática, o que sobra para sonhar é Las Vegas. E isso é muito pouco para um time que realmente quer convencer um piloto do calibre de Verstappen de que é lá que ele terá novamente um carro vencedor.
A patota de Wolff, portanto, precisa usar a segunda metade da temporada para, no mínimo, tentar entender essa característica tão única que deixa a Mercedes vendida. A perna europeia costuma sempre ser decisiva por conta dos circuitos permanentes, as equipes aguardam pistas como Barcelona e Silverstone para pacotes de atualizações, então não há o menor cabimento chegar em 2026, nesse mesmo ponto, e ter um Verstappen ali à mercê de um carro que só anda no frio.
A situação do neerlandês ainda traz outro ponto. É lógico que Russell tem total ciência de que é o dele que está na reta, afinal, é a pessoa do time que está sem contrato para o ano que vem. Mas também não deixa de ser irônico o fato de que é o britânico o responsável pelos melhores momentos da Mercedes na temporada, com direito a uma vitória incontestável no Canadá — um pódio duplo dos alemães, aliás. Digamos, então, que Verstappen realmente aceite a oferta e anuncie nas férias de verão a transferência para a Mercedes. Gerir esse relacionamento interno com Russell até o fim do ano também será um desafio e tanto.
Não que George vá sabotar as garagens do time de Brackley por ter sido preterido para dar vez àquele que é meio desafeto — até porque, em nenhum momento foi enganado, pelo contrário. Mas vai causar, por um bom tempo, sentimento semelhante ao visto na Ferrari quando Carlos Sainz se viu de aviso prévio e venceu o GP da Austrália — detalhe, semanas após ir para a mesa de cirurgia por causa de uma apendicite. Imagine Russell levando a Mercedes a outra vitória até o fim do ano?
Aqui até cabe análise rápida do ingrato cenário no qual George se meteu, e tudo porque Lewis Hamilton quebrou a banca ao dizer sim para a Ferrari. Não fosse isso, Antonelli certamente estaria fazendo estágio na Williams, trilhando o mesmíssimo caminho que ele outrora fez. Mas Kimi é a menina dos olhos de um Toto que jamais superou ter perdido Max quando Jos Verstappen o procurou primeiro antes de entregá-lo a Helmut Marko.
Mas o mundo não gira, ele capota, e eis que Wolff pode ter os dois de uma só vez lado a lado, Antonelli e Verstappen. Uma bela dupla, mas que corre o risco de ficar somente nos sonhos se a Mercedes não focar no que precisa urgentemente ser resolvido no presente.
A Fórmula 1 volta de 25 a 27 de julho em Spa-Francorchamps, que recebe o GP da Bélgica.
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