Stop & Go — Augusto Farfus: “Tenho tudo para lutar pelo título do DTM”
Único brasileiro no concorrido grid do DTM, Augusto Farfus entra em sua quarta temporada na categoria disposto a colocar em prática as lições aprendidas no ano passado, num campeonato que ficou aquém das suas expectativas. Mais adaptado à BMW M4, o curitibano se mostrou confiante em repetir 2013 e voltar a lutar pelo título num 2015 que representará uma volta às origens do certame com a readoção do sistema de rodadas duplas
Vai começar a temporada 2015 do DTM, o Campeonato Alemão de Turismo, categoria da qual faz parte, pelo quarto ano consecutivo, o brasileiro Augusto Farfus. Único piloto do país no grid, o curitibano de 31 anos larga neste fim de semana (1º a 3 de maio), em Hockenheim, com um desafio a mais. Não só ele, aliás, mas todos os competidores do grid. Visando oferecer mais ação e entretenimento ao público que costuma lotar os autódromos ao redor da Europa para acompanhar o campeonato, a organização do DTM trouxe um velho-novo sistema de disputa, com corridas no sábado e no domingo. A medida é vista por Farfus como algo atrativo em todas as esferas: espectadores, mídia, pilotos e equipes, que têm um calendário quase dobrado em relação aos últimos anos, mas sem encarecer demais os custos.
Será um ano bastante representativo para Augusto. Diferente do que aconteceu em 2012, na sua temporada de estreia no DTM, e também em 2013, quando lutou pelo título até a penúltima etapa e fechou o certame como vice-campeão, em 2014 Farfus não venceu, ao contrário: foi um ano particularmente difícil, ou “estranho”, como definiu o próprio piloto. A BMW adotou o novo modelo M4, que se adequou melhor ao estilo de pilotagem de Marco Wittmann, que acabou ficando com o título, enquanto os outros pilotos da montadora bávara enfrentaram dificuldades e não conseguiram levar a BMW à conquista do campeonato dos Construtores, que acabou sendo vencido pela Audi.
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Seu melhor resultado em 2014 foi um segundo lugar em Spielberg, fechando o ano em 13º, com 39 pontos. Para esta nova temporada, bem mais intensa com as 18 corridas no calendário, Farfus tem como grande prioridade buscar a regularidade. Num cenário que hoje é bastante conhecido pelos pilotos da Stock Car, o paranaense entende que a chave para o sucesso e sobressair frente aos adversários é pontuar de forma frequente para chegar a Hockenheim, em 18 de outubro, com chances de chegar à meta e alcançar o título.
Pouco depois de deixar a sede do Team RBM, que representará pelo quarto ano seguido no DTM, na Bélgica, rumo a Hockenheim, Farfus conversou com exclusividade com o GRANDE PRÊMIO e falou sobre suas expectativas para 2015, o que espera desta nova temporada com o novo regulamento, a preparação feita durante o inverno com a BMW e apontou, inclusive, qual piloto brasileiro gostaria de ver em ação na categoria. Mais do que nunca, Augusto acredita que depois de um ano bastante difícil, poderá novamente lutar pelo topo e trazer um título inédito para o automobilismo brasileiro.

Confira a entrevista exclusiva de Augusto Farfus ao GRANDE PRÊMIO:
2015 vai representar uma volta às origens com a readoção do sistema de rodadas duplas, algo que será novidade para quase todos os pilotos do atual grid. Como você enxerga esta mudança para a categoria, para o público e para os pilotos como um todo?
Na verdade, o DTM seguiu um pouco o pedido do público. Os fãs sentiam falta de mais ação no fim de semana, de ter um contato mais próximo com as corridas durante o fim de semana. E os pilotos, de certa forma, também reclamavam da falta de corridas, até porque o formato de dez provas, como foi até o ano passado, tornava o calendário muito curto. E para encontrar um meio-termo entre aumentar essa ação de pista e proporcionar mais corridas, mas ao mesmo tempo não elevar de forma tão grande os custos da categoria, os organizadores decidiram por trazer de volta o sistema de rodadas duplas. Então acho isso extremamente positivo, ainda mais porque serão duas provas distintas, duas classificações e a mesma pontuação. O resultado de sábado não influi na prova de domingo. Acho que é bacana porque você acaba tendo duas chances de pontuar, duas provas com o mesmo valor, acaba tirando aquela filosofia de arriscar, quando acontece muito em provas de pontuações diferentes. Isso obriga os pilotos a serem constantes tanto no sábado quanto no domingo. Será muito difícil fisicamente, já que o carro é muito exigente no aspecto físico.
Com 18 corridas no calendário ao invés das usuais dez das últimas temporadas, você entende que a regularidade passa a ser mais importante do que a vitória em si ou não?
Não tenha dúvida. Creio que a vitória continua tendo sua importância, sempre é o grande objetivo de todo piloto, mas a regularidade, a constância, passa a ter um valor ainda maior com este novo regulamento. O campeonato, sem dúvida nenhuma, será decidido no último fim de semana, e acredito que com vários pilotos lutando pelo título. Por isso a regularidade será fundamental. Vai ser crucial ser constante, somar pontos importantes em todas as corridas para chegar ao fim do ano em boas condições de lutar para ser campeão.
Seu ano em 2014 foi particularmente difícil, até contrastando com o que foi em 2013, por exemplo, quando você chegou ao vice-campeonato do DTM. Fazendo uma avaliação, o que você acha que deu errado e que pode ser revertido em seu favor neste ano? Quais as lições que você traz do ano passado para 2015?
A temporada de 2014 foi muito abaixo das expectativas. Estreamos a M4, carro que a gente não teve muito tempo para moldá-lo ao meu estilo na pré-temporada, e começamos o campeonato, como equipe, um passo atrás em relação aos outros e não conseguimos reverter esse quadro durante o ano. Então, em 2015, focamos todo nosso trabalho nos testes de inverno para reverter a situação, ter uma leitura melhor do carro e entender os erros que cometemos para obter um ano mais competitivo em todos os aspectos. A temporada do ano passado foi estranha: por muitas vezes nos faltou performance, não tivemos um conjunto competitivo. Em outras vezes, a sorte não nos ajudou, mas no fim das contas tudo foi bem abaixo das nossas expectativas.
De certa forma, serviu para a gente aprender e crescer como equipe e, particularmente, como piloto. E o DTM é muito próximo, muito parelho: às vezes você larga em 12º, mas com 0s2 atrás do líder. Os números, no papel, muitas vezes não representam a competitividade que você teve no fim de semana. Esse talvez seja o grande referencial do DTM, com 22 carros que largam com as mesmas chances de vencer a corrida. É muito apertado. Por essas e outras, se você não tiver um equipamento totalmente ao seu estilo, é muito difícil, você perde o embalo e depois não consegue recuperar essa diferença para os outros. Mas com todo o trabalho que fizemos no inverno, acredito que vamos começar 2015 muito mais fortes, sem dúvida nenhuma, em relação ao ano passado.

A BMW promoveu apenas uma mudança no seu line-up de pilotos e trouxe o Tom Blomqvist para o lugar do Joey Hand como seu parceiro na RBM. Com essa solidez entre os pilotos, você acha que a BMW vem com tudo para retomar o título dos Construtores em 2015?
É difícil a gente fazer uma previsão de como vai ser a temporada. A BMW acabou perdendo o título dos construtores porque faltou o grupo. O Marco Wittmann foi excepcional e ganhou o campeonato, mas os outros pilotos sofreram bastante com a M4, então foi isso que nos faltou. Nosso grupo, no meu ponto de vista, é o melhor do DTM, mas a gente acabou esbarrando nisso. Acho que temos sim um bom pacote para termos uma temporada mais sólida, falando da BMW como um todo, mas acredito também que a Audi virá muito forte e que a Mercedes vai crescer bastante em relação ao ano passado, vai ser a grande surpresa de 2015.
Num campeonato tão difícil e equilibrado como é o DTM, é sempre difícil apontar os favoritos. Mas você se coloca entre esses favoritos na luta pelo título? E quem você apontaria como outros nomes fortes para conquistar o campeonato?
Com o trabalho que fiz na pré-temporada junto com a equipe, nosso objetivo é lutar pelo campeonato. Temos a meta, talento e capacidade para chegar lá, então esse é nosso objetivo. Mas é muito prematuro da minha parte falar sobre favoritismo e falar que serei o número 1 da BMW para ganhar o título. Vejo que o Marco tem tudo para fazer uma grande temporada já que nosso carro mudou pouco em relação ao ano passado, então não vejo por que ele não possa repetir isso em 2015. Mas contando com todo o trabalho da RBM, tenho tudo para fazer um campeonato muito melhor que o de 2014 e certamente lutar pelo título. Para ser honesto, poderia apontar um piloto de cada construtora com condições de lutar pelo título: o Paul di Resta, da Mercedes, e o Mike Rockenfeller, da Audi.
Hoje você é a grande e única referência brasileira do DTM. Quem dos brasileiros, em sua opinião, você acha que poderia melhor se encaixar no estilo de categoria e competição que reina hoje?
Se você olhar para o grid da Stock Car, nós temos grandes nomes, e mais do que isso, temos grandes talentos. Mas tirando os nomes que estão nas categorias top, como Felipe Massa, Felipe Nasr, Helinho, Tony Kanaan, acho que talvez quem teria mais sucesso no DTM é o João Paulo de Oliveira, e vou te dizer por quê: pelo simples motivo de ele correr no Japão com um carro parecido com o do DTM, por estar acostumado com o estilo de corrida mais semelhante ao da categoria, com um downforce que é parecido com o do DTM, acho que ele se adaptaria melhor e mais rapidamente ao grid. Acho que a Stock Car tem grandes nomes, um nível excepcional, mas o carro é bastante diferente do DTM em todos os aspectos. Não duvido que muitos pilotos da Stock Car conseguiriam se adaptar à pilotagem do DTM, mas se eu tivesse de pegar um brasileiro para levar ao DTM, esse cara seria o João Paulo.

Você vai para seu quarto ano no DTM agora em 2015. De lá para cá, no que você considera que evoluiu como piloto competindo numa categoria tão forte e equilibrada?
Acho que em nenhuma outra categoria do mundo hoje um piloto tem de trabalhar tantos nos detalhes como no DTM. A busca pela perfeição é extrema. Como os carros, depois do fim do ano, ficam ‘congelados’, e a homologação já foi feita, e não podem ser implementadas grandes mudanças, você trabalha na busca pelo detalhe, tanto na condução do piloto quanto na do carro, do trabalho em equipe. É um trabalho muito cansativo, exige empenho na busca pelos limites. É a categoria que faz o piloto trabalhar o máximo consigo mesmo para melhorar suas qualidades.
Para finalizar: o que o torcedor brasileiro pode esperar do Augusto Farfus para 2015?
O torcedor brasileiro pode esperar, sem dúvida nenhuma, comprometimento total e trabalho ainda mais duro em relação aos dois últimos anos. E o trabalho que foi feito durante a pré-temporada no inverno foi para levar o título do DTM para o Brasil. Vamos estar na briga! Então conto com a torcida de todos!
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