Conta-giro: Passo da F1 em direção às tecnologias híbridas ainda fica longe de ser atraente como WEC, dizem montadoras

Para as três montadoras que competem na classe LMP1 do Mundial de Endurance, o problema da F1 ainda é indicar que tecnologia deve ser adotada em vez de dar mais espaço à criatividade e permitir que soluções diferentes sejam adotadas

A F1 entrou de vez no mundo das tecnologias híbridas com as unidades de força V6 turbo que introduziu em 2014, o que sem dúvida é um ponto positivo, mas ainda é preciso fazer mais — isso, dentro do modo de ver das montadoras que estão presentes na classe LMP1 do Mundial de Endurance. De acordo com dirigentes de Toyota, Audi e Porsche, o WEC segue possuindo regras muito mais atraentes e interessantes do que a principal categoria do planeta.

Toyota, recentemente, e Porsche, nas décadas de 1960 e 1980, já tiveram seu envolvimento com o Mundial de F1. A Audi nunca passou por lá. E o discurso das três é de enorme contentamento com o que encontram no endurance.

Relacionadas

Desde o início de 2014, os motores V6 da F1 são acompanhados de um sistema de recuperação de energia cinética nas freadas e outro de energia térmica. O objetivo das novas regras foi passar a imagem de uma categoria que busca tecnologias alternativas e minimizar o consumo de combustível com a limitação dos tanques a 100 kg de gasolina por prova.

O WEC também implantou uma mudança radical nas regras. Porém, em vez de limitar o consumo de combustível, estimulou a busca por sistemas de recuperação de energia — dando a cada montadora a oportunidade de buscar sua preferência. A Toyota investiu pesado em um Kers duplo aliado a um V8 aspirado; a Porsche fez seu Kers, um MGU-H e um V4 turbo; e a Audi usou apenas um motor híbrido baseado na recuperação da energia cinética, além do já tradicional V6 turbo movido a diesel.

A diferença entre os Kers de Toyota e Porsche e o da Audi é que as duas primeiras trabalham com a recuperação de energia nas freadas, ao passo que aproveita o movimento das rodas em altas velocidades.

Em vez de liberar a criatividade, F1 determina o que é preciso ter, dizem as montadoras (Foto: AP)

Publicamente, nenhuma delas pensa na F1.

Na última semana, a BBC reportou que a Audi está avaliando o ingresso no Mundial de F1 de olho na publicidade que o campeonato pode oferecer, muito maior que o WEC e as 24 Horas de Le Mans. Pesa nessa história o sucesso obtido pela Mercedes, ferrenha concorrente, ao longo da temporada 2014.

Do ponto de vista técnico, Chris Reinke, coordenador do projeto de LMP da Audi, prega que o verdadeiro atrativo para sua marca é poder concorrer com conceitos diferentes. “Esse regulamento nos permite mostrar a nossa tecnologia e provar essa tecnologia na pista contra diferentes conceitos. É o que vemos a cada semáforo nas ruas e é o que vemos aqui no grid. Essa fascinação é o que nos leva ao endurance e não à F1”, afirmou Reinke ao ser perguntado pelo GRANDE PRÊMIO em Interlagos.

A F1 precisa mudar?

A ausência de barulho e os custos elevados dessas novas unidades de força já geraram sugestões de que a categoria deveria voltar a utilizar os V8 aspirados. Christian Horner, chefe da Red Bull-Renault, vem aparecendo como o principal cabo eleitoral. Na contramão disso, a Mercedes ameaça deixar o Mundial caso tal medida seja tomada.

Diretor-técnico da Toyota, marca campeã do WEC, Pascal Vasselon concordou que o atual regulamento, de fato, é mais interessante para as montadoras. “Sim, a F1 deu um passo adiante. Então, definitivamente, é um regulamento mais interessante. Ainda assim, eles estão um passo atrás do nosso regulamento”, afirmou.

A comparação com o WEC é que revela as diferenças. “As nossas regras são muito mais permissivas do que a F1, pois permitem que a gente escolha a tecnologia que quer usar. A F1 impõe uma tecnologia. O nosso regulamento permite mais soluções”, acrescentou Vasselon. O francês fazia parte da operação da marca na F1 e não cospe no prato que comeu: reconhece que aquela experiência serviu de base para o sucesso alcançado no endurance.

Toyota saiu da F1 e foi ser feliz no WEC (Foto: Gabriel Pedreschi)

Reinke falou do mesmo tema a partir do ponto de vista da Audi. “Para nós, é questão de provar o valor do TDI, o que podemos fazer com esses diferentes conceitos competindo. Para mim, não importa que tipo de tecnologia mágica a F1 traga”, disse.

Diretor de engenharia da Porsche, Alex Hitzinger propôs uma mudança para a F1: trocar o turbo por um propulsor aspirado, mas mantendo a tecnologia híbrida.

“Acho que a razão da pergunta é por que as pessoas estão criticando a F1 por não ser mais o que era antes. Comentando sobre isso: o principal é o som, a emoção. A tendência na F1 é valorizar a eficiência e a importância do híbrido. É a direção correta”, destacou o alemão.

“Uma coisa que não é tão legal é que a emoção foi perdida. Eles deveriam abandonar o turbo e partir para um motor aspirado, tendo de novo um motor que funciona em altas rotações, mas com a mesma busca pela eficiência, ter a emoção e o som de volta sem mudar a tecnologia. É o que eu faria para realmente resolver esse problema”, sugeriu.

A Mercedes inclusive mudou o nome de seu carro no meio do ano para F1 W05 Hybrid com a intenção de valorizar o uso da tecnologia híbrida (Foto: AP)

F1 x WEC

Em 2015, o mesmo número montadoras estarão envolvidas com a classe LMP1 do Mundial de Endurance e com a F1: a Nissan vai se juntar a Audi, Toyota e Porsche. A F1, por sua vez, seguirá com Ferrari, Mercedes e Renault e ganhará a também japonesa Honda, que se interessou pelos V6 turbo.

Uma diferença importante entre os dois campeonatos diz respeito aos custos. As montadoras mantém as contas em segredo absoluto, mas estima-se que gastam bem menos do que é preciso desembolsar na F1.

Chamada Chefão GP Chamada Chefão GP 🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias do GP direto no seu celular! Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.

📩 NEWSLETTER GP

Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!