Alpine, Haas e Racing Bulls brigam para assumir vácuo deixado por Red Bull na ‘F1 A’

Red Bull ficou para trás com estreia de novo regulamento técnico da Fórmula 1 e abriu espaço para surpresa no pelotão dianteiro. Haas parece mais pronta dar salto, mas Alpine é concorrente forte, e Racing Bulls corre por fora protagonizando caso curioso

A temporada 2026 da Fórmula 1 reforça um cenário conhecido no grid: a divisão clara entre equipes de ponta e o pelotão intermediário. Mas, em meio à grande mudança técnica na categoria, a Red Bull saiu atrás das principais rivais e, no momento, está longe de conseguir competir pelas primeiras posições. Isso abre a oportunidade tão aguardada pela “classe média” de adentrar o grupo de elite, e três times apresentam boas credenciais a ocupar esse espaço: Haas, Alpine e Racing Bulls. Porém, o desafio não é tão simples quanto pode parecer.

A chamada “F1 B” não é um conceito novo. De certa forma, sempre houve uma divisão entre grandes potências e equipes medianas no grid. Mas a ideia ganhou força sobretudo após a mudança de regulamento de 2014, quando a era híbrida deu aos motores protagonismo muito maior do que antes e aumentou ainda mais o espaçamento entre os grupos em pista.

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Por conta disso, conseguir bons resultados se tornou tarefa ainda mais complexa. Se até então havia uma rotação quase natural nas posições que valiam algo — já que equipes medianas conseguiam se aproximar mais das “grandonas” —, a tendência passou a ser um domínio total da zona de pontuação pelos carros da “F1 A” — geralmente os oito de Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull —, com o resto se engalfinhando pelas migalhas que sobram.

Claro que algumas equipes ao longo dos anos conseguiram atingir um nível de consistência muito interessante, suficiente para serem consideradas como “melhores do resto” — talvez a Force India tenha sido a que mais conseguiu se manter nesse status. Mas a própria popularização do termo, que hoje faz parte do jargão da categoria, é demonstração de como entrar nessa bolha — e, principalmente, permanecer nela — tornou-se tarefa hercúlea.

Force India, que virou Racing Point, por muito tempo foi equipe que se destacou na “F1 B” (Foto: Racing Point)

Nesse contexto, momentos de viradas técnicas, que já eram vistos como oportunidades de mudanças na ordem de forças, passaram a ser praticamente a única esperança para quem sonha em mudar de patamar. Em 2022, por exemplo, a Red Bull aproveitou o retorno do efeito solo para consolidar o desempenho que rendeu a Max Verstappen o primeiro título e criar uma hegemonia com o neerlandês — como já havia feito a Mercedes em 2014. Por outro lado, a McLaren errou a mão e escorregou temporariamente do grupo dianteiro.

Desta vez, quem parece não ter se acertado com os novos regulamentos foram os taurinos, que despencaram e ocupam apenas o sexto lugar no Mundial de Construtores neste momento. E, diante de outra oscilação de uma gigante no grid, Haas, Alpine e Racing Bulls já se colocaram como postulantes a preencher o espaço.

Após anos marcados por irregularidades e pela sensação de estagnação, a Haas parece ter dado um passo sólido na compreensão do novo regulamento. O desempenho consistente de Oliver Bearman colocou os norte-americanos em posição competitiva logo nas primeiras etapas. Mais do que resultados pontuais, o que chama atenção é a base: o VF-26 é um carro previsível, capaz de operar dentro de uma janela estável — algo essencial em um ano em que muitos ainda tentam entender os limites dos novos conceitos.

Ainda assim, a Haas tem pela frente um desafio clássico: transformar picos de desempenho em consistência. Historicamente, tem dificuldade em sustentar desenvolvimento ao longo da temporada, especialmente quando comparada a estruturas mais robustas. Para furar a bolha, não basta aproveitar o momento — será necessário evoluir em ritmo semelhante ao das equipes de ponta, algo que ainda não se mostrou capaz.

Sob comando de Oliver Bearman, Haas parece pronta para dar um salto na F1 (Foto: Haas F1 Team)

A Alpine foi quem deu o maior salto no grid. Após amargar a lanterna em 2025, com apenas 22 pontos, já acumula 18 tentos em três etapas. Certamente, muito disso se deve aos motores, já que abriu mão do status de fábrica com a Renault para ser cliente da Mercedes — que produziu, de longe, as melhores unidades do grid. Para além disso, a A526 demonstra potencial. Ao contrário da Haas, porém, o time francês já identificou uma falha latente para resolver: as saídas de frente em altas velocidades.

Após o GP do Japão, tanto Steve Nielsen quanto Flavio Briatore — diretor-geral e consultor, respectivamente — apontaram essa questão e colocaram como próxima meta dar um passo à frente antes do GP de Miami. Se conseguir atacar o que parece ser o principal problema do carro, a Alpine tem tudo para ser peça-chave nessa briga.

Já a Racing Bulls protagoniza uma situação particularmente curiosa. Por um lado, fazer parte do ecossistema da Red Bull oferece uma robustez que possivelmente nem Haas, nem Alpine possuem. Como já é de costume, o time italiano desenvolveu um carro capaz de apresentar bom desempenho no pelotão intermediário. E o ambiente de menor pressão sobre a dupla de pilotos dá a paz necessária para que Liam Lawson e Arvid Lindblad aproveitem ao máximo as oportunidades que se apresentam.

O problema é justamente a possibilidade da equipe B superar a principal. Neste momento, a Red Bull está apenas dois pontos à frente da Racing Bulls: 16 x 14. É claro que essa proximidade evidencia muito mais a queda dos austríacos do que uma grande mudança de patamar dos italianos. E também é verdade que as limitações do novo conjunto Red Bull-Ford Powertrains seguram o potencial de ambas. Porém, não deixa de ser instigante ver como o grupo irá lidar com a situação — já que, obviamente, não faz parte dos planos ter a formação considerada júnior superando a principal, que é quem leva o nome da marca.

Racing Bulls ameaça ultrapassar Red Bull na F1 2026 (Foto: Red Bull Content Pool)

No balanço geral, cada equipe apresenta caminhos e desafios distintos para tentar romper a barreira do pelotão intermediário. A Haas tem boa base e parece ser a mais pronta para despontar, mas precisa provar capacidade de evolução para sustentar isso. A Alpine tem potencial, mas ainda apresenta pontos que precisam de atenção e correção rápida. A Racing Bulls, por sua vez, reúne estrutura técnica e ambiente estável, mas a unidade de potência ainda limitada e os interesses da empresa-mãe podem frear o ímpeto.

Ainda assim, a natureza da F1 2026 recomenda cautela em qualquer projeção definitiva. Com regulamentos novos e um calendário ainda longo pela frente, a ordem de forças permanece sensível a atualizações, principalmente se todas as partes envolvidas chegarem a um consenso sobre ajustes necessários no regulamento — o que pode mexer com o equilíbrio esportivo. Se há uma certeza até aqui, é que a disputa pela “melhor do resto” deixou de ser apenas um consolo e aparenta ser um caminho real de ascensão dentro do grid.

Fórmula 1 entrou em hiato após a suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e retorna no fim de semana de 1º a 3 de maio com o GP de Miami.

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