Análise: com o ‘mal’ de ter melhor carro, Rosberg pode pensar em ‘tática Villeneuve’

Não adianta a Nico Rosberg simplesmente vencer o GP de Abu Dhabi: é necessário fazer com que Lewis Hamilton não chegue em segundo. E contar com o melhor carro disparado da temporada é tudo que o alemão não precisa. A solução pode estar numa estratégia inteligente que Jacques Villeneuve traçou há 17 anos em sua ferrenha batalha contra Michael Schumacher

Em meio à alegria da vitória e impulsionado pela torcida que invadira a pista em Interlagos, Nico Rosberg não titubeou em chamar Felipe Massa de amigo de fé e irmão camarada. Por trás do agrado, havia o interesse próprio: o resultado confirmava a necessidade de o alemão ter alguém que importune a vida de Lewis Hamilton a ponto de lhe tirar o óbvio segundo lugar na prova decisiva do próximo domingo em Abu Dhabi. Uma dobradinha como a vista em terras brasileiras é o suficiente para que o inglês comemore seu segundo título.
 
Nos sonhos de Rosberg, é Massa – ou Valtteri Bottas – quem mais tem condições técnicas com a Williams que reveza com a Red Bull o posto de segunda melhor equipe deste fim de campeonato. Nestes devaneios mais profundos, então, o compatriota Sebastian Vettel bem que poderia se empolgar à enésima potência em sua prova de despedida ou Daniel Ricciardo poderia aprontar das suas e sorrir. Fato é que, ironia da vida, Rosberg deve estar resmungando por a Mercedes ter feito um carro tão bom.
Felipe Massa e Nico Rosberg (Foto: Beto Issa)
As condições serão as normais de temperatura e pressão no emirado: sol antes do crepúsculo, calor e tempo seco sempre. Rosberg não pode simplesmente guiar para ser primeiro. E se é tão meticuloso e cerebral – como se viu, por exemplo, em Spa-Francorchamps, ainda que tenha lhe sido o mal da temporada –, Nico entende que tem de dar um jeito de tirar Hamilton de seu retrovisor. Provocando um acidente? Claro que não. Ele nem é louco. Tentar ganhar à base de um (novo) choque provocaria o caos em sua carreira e muito provavelmente no fim merecido de seu vínculo com a Mercedes. A solução é ser o autor da situação que permita aos demais andar no ritmo de Hamilton. O que significa dizer: Rosberg tem de ser mais lento propositalmente e segurar o companheiro/rival.
 
Afeito a vídeos na internet, Rosberg acha facilmente nela o GP do Japão de 1997 e vê o maior exemplo de como um piloto tentou cercar o adversário ao título por força das circunstâncias. Jacques Villeneuve havia conquistado a pole na Suzuka que bem conhecia dos tempos de início na carreira. Michael Schumacher foi o segundo. Era o penúltimo desafio de uma temporada acirrada entre os pilotos de Williams e Ferrari. Só que houve um problema nos treinos: tanto Villeneuve quanto Schumacher haviam desrespeitado uma bandeira amarela e tomaram advertências. Como era sua segunda, o canadense deveria ser desclassificado e largar em último. A Williams recorreu e, na base do efeito suspensivo, conseguiu manter o primeiro posto no grid. Só que o pessoal já tinha noção de que o recurso seria julgado e resultaria na eliminação de Villeneuve.
 
Villeneuve, então, pensou meticulosamente no que faria.
Villeneuve jogou o carro para cima de Schumacher na largada do GP do Japão de 1997 (Foto: Getty Images)
Na largada, Jacques jogou o carro para a trajetória de Schumacher e moveu o carro para fechá-lo do lado de fora da curva de tal forma que hoje os comissários da FIA não hesitariam duas vezes em puni-lo. Mika Häkkinen conseguiu superar Eddie Irvine e pôs a McLaren em terceiro. Primeira volta completada, o grupo inteiro estava colado; segunda volta, a mesma coisa. A tática estava clara: Villeneuve estilingava nas retas e era o mais lento possível nas curvas. Tudo para permitir que o resto pudesse passar Schumacher – e, uma vez efetuada a ultrapassagem, abrir para que o(s) piloto(s) abrissem uma distância grande e, no fim das contas, terminassem à frente do alemão e lhe tirassem pontos.
 
O problema é que o único que conseguiu passar Schumacher e Villeneuve foi Irvine. Na sequência de ‘S’ do primeiro trecho de Suzuka, Irvine verificou a ação do líder da corrida e fez a manobra por fora tanto sobre Häkkinen quanto Schumacher. No fim da volta, fez o mesmo na chicane para ganhar a ponta. A lerdeza de Villeneuve ficou evidenciada na primeira volta livre do irlandês: 5 segundos mais rápido.
 
Não demorou muito para Villeneuve ver que não podia contar nem com seu então companheiro, Heinz-Harald Frentzen. Aí começou a andar rápido. Schumacher o acompanhou. A Ferrari chamou o alemão para os boxes; na volta seguinte, Jacques fez o cerco. A Williams não foi tão eficiente, e Villeneuve voltou à pista emparelhado com o rival. Acabou perdendo a posição. A estratégia havia ruído. Aí, claro, Irvine abriu e Schumacher venceu para ganhar a primeira posição no Mundial de Pilotos por um ponto – Villeneuve, quinto, acabou sendo desclassificado.
Schumacher passa Villeneuve para liderar GP do Japão de 1997 (Foto: Getty Images)
Se não surtiu efeito, fato é que Villeneuve tentou um plano que, esportivamente, foi cirúrgico e válido. Rosberg precisa encontrar um jeito similar, porque de nada vai lhe adiantar abrir um caminhão de distância para o resto trazendo Hamilton a tiracolo. Num tilkódromo dos mais insossos, a preocupação de Nico estaria em ser mais comedido nos setores de baixa velocidade e mandar ver nas duas retas. Numa situação de todos bem próximos, Hamilton se aproveitaria da asa aberta para superar o companheiro na primeira reta e sofreria, provavelmente, o troco na segunda reta. E torcendo, claro, para a empolgação de Massa, Bottas, Vettel, Ricciardo ou quem quer que se anime.
 
17 pontos atrás, Rosberg dormiu demais e acordou tarde para uma decisão que virou tudo ou nada. Sem nunca ter decidido, emular Villeneuve é um atalho permitido que pode lhe dar a glória que o próprio Jacques acabou vivendo 17 anos atrás. 
 

GP do Japão de 1997 – Parte 1

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