Análise: por que a explicação sobre o acidente de Alonso não convence‏?

Há pelo menos dez fatos concretos que levam suspeitas grandes a respeito do acidente de Fernando Alonso na segunda semana de treinos coletivos em Barcelona. A falta de clareza do caso desemboca na teoria cada vez mais forte de que o piloto levou um choque e gera rumores até mesmo surreais

Já se vão quase duas semanas de um fato que tirou o foco do que foi feito durante toda a pré-temporada da F1 2015. O carro camuflado que virou roxo, o outro que assombrou com pneus mais lentos, o terceiro confiável e o quarto que deixou o vermelho de vergonha para resgatar sua glória foram abafados pelo prateado que voltava a carregar um piloto que tenta sua última cartada para voltar a ser campeão e que estampou um muro em Barcelona. 
 
Nada foi mais falado que o acidente de Fernando Alonso em 22 de fevereiro. E tudo por um único motivo: porque está muito mal explicado. A alegação oficial – a de que fortes ventos levaram o piloto ao muro – virou desculpa, e, fora a série de apurações e suspeitas que brotaram desde então, uma série de ações e reações indicam que não se trata de algo tão simples assim. 
 
O GRANDE PRÊMIO lista dez fatos que envolvem a história e que dão consistência às suspeitas gerais:
 
1) A não desaceleração brusca no momento em que perdeu o controle da McLaren

2) As reações do companheiro Jenson Button e do chefe Ron Dennis, que disseram, respectivamente, que os dados da telemetria apontavam algo “um pouco estranho” e que Alonso não havia sofrido concussão, fato confirmado em comunicado

3) A opinião de Sebastian Vettel, quase testemunha ocular, que disse o caso era “estranho” porque Alonso não estava em alta velocidade

4) O tempo no hospital, três dias, considerado excessivo para quem sofreu apenas uma concussão

5) A investigação que a FIA está conduzindo para avaliar as causas do acidente

6) A troca do MGU-K, responsável pela energia cinética, dias depois, da peça da Honda pelo fabricado pela própria McLaren

7) A opinião de Dino Altmann, diretor-médico do GP do Brasil, que afirmou categoricamente que o caso de Alonso não se trata de uma concussão

8) A cobrança de Bernie Ecclestone para a investigação das causas do acidente

9) A recusa da McLaren em tocar no assunto ou aceitar qualquer outra hipótese


10) O silêncio da Honda, montadora que volta à F1 nesta temporada, pouco conhecedora do sistema de recuperação de energias e responsável pela má temporada da McLaren
SEM CONSCIÊNCIA

O jornal ‘La Gazzetta dello Sport’ teve acesso a imagens da onboard da Ferrari de Sebastian Vettel, que estava logo atrás de Fernando Alonso na pista em Barcelona, e diz que elas sugerem que o espanhol de fato estava inconsciente antes de acertar o muro interno da curva 3. Segundo a publicação, o vídeo mostra que ele saiu da curva em uma trajetória muito diferente da habitual e que, em vez de manter a velocidade, diminuiu e virou para a direita “sem qualquer reação do piloto.

A teoria que ganha tom de verdade
 
A existência de teorias advém do fato de a razão pela perda do controle do carro, o forte vento, não ser aceita tão facilmente. As desconfianças, então, aumentaram. O chefe Ron Dennis chegou até a dizer que Alonso não havia sofrido uma concussão mesmo depois de sua equipe ter emitido um comunicado a confirmando. Jenson Button viu os dados da telemetria e classificou o cenário como “um pouco estranho”. Depois, Dennis veio a público confessar que Alonso ficou inconsciente.

Quem tentou dar alguns detalhes foi Sebastian Vettel. O alemão, que ocupa justamente o lugar de Alonso na Ferrari, foi o primeiro a passar pelo carro batido do colega de trabalho. Como Button, definiu a situação como "estranha".  

 
A maior suspeita recai sobre uma teoria que brotou horas depois do acidente e que foi corroborada pela TV Sky Italia: um problema no ERS, a bateria que compõe a unidade de potência de um carro de F1 e gera energia extra recuperada das frenagens – cinética, gerando 120 kW e cerca de 160 cv – e do turbo – térmica, ilimitada. Ainda em desenvolvimento, o ERS é, assim, uma peça com alta concentração de energia elétrica quando ambas são transformadas. Por isso, cada carro leva luzes na região do santantônio que indicam aos comissários e aos mecânicos se há condições de segurança; verde significa que não há problema para tocá-lo.
 
Este ERS, por algum motivo ainda desconhecido nesta tese, gerou um choque forte nas costas de Alonso. 
 
As premissas maiores e menores 
 
Uma série de informações decorrentes desta teoria do choque vieram de uma série de veículos europeus. Alonso estava a 215 km/h – uma velocidade maior que aquela registrada na volta anterior, justamente a mais rápida que havia feito naquele domingo – quando sofreu uma descarga elétrica de 600 W de potência. O piloto desmaiou e, 3 segundos depois, bateu. A redução de velocidade não foi tão grande, fato estranhíssimo para um carro de F1 cujos freios desaceleram bruscamente se acionados devidamente por um piloto em sã consciência.
 
No resgate, o corpo médico fez as perguntas convencionais para quem passa por um acidente daqueles. Tem quem diga que Alonso começou a falar em italiano e se disse piloto da Ferrari, equipe que deixou ao final do ano passado; outros afirmam que a amnésia foi ainda maior e fez com que o espanhol voltasse no tempo 20 anos, se achando ainda no kart e aspirando um dia chegar à F1.

A pessoas próximas, Alonso admitiu que levou um choque. A câmera onboard do carro de Vettel seria um demonstrativo claro de que o espanhol estava inconsciente antes da batida
 

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Tudo balela?
 
A McLaren negou categoricamente qualquer outra informação que não fosse a dada por ela: sem apresentar falha qualquer no MP4-30, Alonso saiu da pista e teve uma colisão lateral no muro interno da curva 3 que o fez apagar “por segundos”, de acordo com Dennis. O piloto foi descrito por seu pai e seu empresário como “confuso” assim que despertou. Alonso foi sedado e levado de helicóptero para o Hospital Geral da Catalunha, onde passou por uma série de exames. Nenhuma lesão foi diagnosticada, bem como não houve evidência de choque elétrico.

Só que logo depois, a McLaren decidiu rever o sistema MGU-K (antigamente chamado de Kers) da Honda e passou a usar os próprios componentes para a bateria final de testes da pré-temporada da F1. O fato passou despercebido até então, mas ajuda a corroborar a linha de quem pensa que a bateria da montadora japonesa não era a mais adequada até o momento e provocou falhas.

 
Depois de três dias, Alonso recebeu alta do hospital – um período muito maior para quem só foi avaliado com uma concussão – e foi para a casa da família em Oviedo depois que a McLaren anunciou sua ausência nos testes coletivos finais em Barcelona, sendo substituído por Kevin Magnussen. Lá, o espanhol gravou um vídeo em que dizia estar “completamente bem” e que esperava voltar às pistas “muito em breve”, sem especificar nada do acidente. Posteriormente, a escuderia confirmou que Alonso não vai à Austrália, e o piloto manifestou sua tristeza e compreensão.
 
Pelo sim, pelo não, a FIA resolveu abrir uma investigação paralela para levantar aquela que pode ser a verdade dos fatos. Até mesmo Bernie Ecclestone defendeu a avaliação do "completamente inexplicável" acidente e do consequente silêncio sepulcral da McLaren que faz vistas grossas. Da mesma forma, a Honda não abriu a boca para se manifestar.

Ao jornal 'Lance!', o diretor-médico do GP do Brasil, Dino Altmann, ateve-se ao fato da investigação da FIA. "Ela não se envolve com treinos livres. Isso é uma preocupação nossa. Tem algo esquisito aí. Eles não investigariam um acidente com uma simples concussão", declarou, para então completar: "Eu tenho certeza de que foi mais do que uma concussão." 


E o que gera tudo isso?

A nebulosidade que envolve o acidente acaba provocando conversas das mais diversas naturezas, até mesmo inimagináveis. As equipes rivais ficaram tão temerosas quanto à segurança dos carros que pensaram em organizar um boicote ao GP da Austrália, que acontece no próximo fim de semana. E já tem jornal dizendo que Alonso está com problemas psicológicos que vão levá-lo a encerrar sua carreira…

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