Aposta ousada, era de ouro e declínio: os 20 anos de Horner à frente da Red Bull
Christian Horner foi demitido da Red Bull após 20 anos como chefe da equipe. Relembre principais momentos do britânico à frente dos taurinos na Fórmula 1
Christian Horner não é mais chefe da Red Bull. Após 20 anos à frente da equipe que ajudou a transformar em potência na Fórmula 1, foi demitido nesta quarta-feira (9) em meio a uma crise de resultados e tensões internas. A trajetória, marcada por apostas ousadas, rivalidades ferrenhas, polêmicas e nada menos que oito títulos mundiais de Pilotos e seis de Construtores, chega ao fim após momento conturbado, que dura desde a acusação de comportamento inapropriado com uma funcionária da empresa no início de 2024. Relembre, abaixo, os principais marcos da “Era Horner” em Milton Keynes.
Christian Horner chegou à F1 em 2005 como um jovem ousado de 31 anos, disposto a desafiar as tradições de um paddock acostumado ao conservadorismo. Ao assumir a recém-criada Red Bull, surgida após a compra da Jaguar por Dietrich Mateschitz, abriu mão do tradicional “terno e gravata” e implantou uma cultura informal, que rapidamente transformou a equipe em uma das mais bem-sucedidas da história da categoria.
Aos 25 anos, abandonou o sonho de correr para concentrar esforços no gerenciamento da Arden, equipe criada por Horner que se tornou campeã na F3000 e ajudou a pavimentar seu caminho para a F1. À frente da Red Bull desde a primeira corrida, em 2005, não demorou a mostrar sua capacidade ao convencer Adrian Newey, já um dos maiores projetistas da história, a deixar a McLaren para liderar o lado técnico do novo projeto. A contratação, em 2006, foi um divisor de águas.
A Red Bull deu seus primeiros passos rumo ao topo em 2009, com as primeiras vitórias da equipe nas mãos de Sebastian Vettel e Mark Webber levando o time ao vice-campeonato de Construtores. No ano seguinte, veio a consagração: Vettel conquistou o primeiro título de Pilotos da equipe no dramático GP de Abu Dhabi, e a Red Bull levou o de Construtores. Nascia a primeira era de domínio, com quatro títulos consecutivos entre 2010 e 2013 para o alemão e o time — feito que rendeu a Horner, inclusive, o título de Oficial da Ordem do Império Britânico (OBE) em 2013.

O início da era híbrida foi um choque. Red Bull e Renault sofreram com motores pouco competitivos a partir de 2014, e a Mercedes dominou por anos. Nesse cenário, Horner mostrou ousadia ao promover Max Verstappen em 2016, com 18 anos, após apenas uma temporada na Toro Rosso. A aposta logo se pagou, com o neerlandês vencendo na estreia pelo time.
A segunda era de ouro veio a partir de 2021, quando Verstappen e a Red Bull romperam a hegemonia da Mercedes e Lewis Hamilton e conquistaram o título de Pilotos em um polêmico final de campeonato em Abu Dhabi. A partir daí, o domínio se intensificou: títulos de Pilotos e Construtores em 2022 e 2023, incluindo a temporada mais dominante da história em 2023, com 21 vitórias em 22 corridas e o inédito 1-2 no Mundial de Pilotos com Verstappen e Sergio Pérez. O tetracampeonato do neerlandês em 2024 foi a cereja do bolo — ou da lata de energético. Horner ainda foi agraciado com o título de Comandante do Império Britânico (CBE) pelos serviços prestados ao automobilismo.
A criação da Red Bull Powertrains foi outro marco importante. Após o anúncio da saída da Honda da F1 no fim de 2021, Horner liderou a decisão estratégica de internalizar o desenvolvimento das unidades de potência em Milton Keynes, fundando a divisão própria de motores da equipe. A Red Bull Powertrains nasceu visando dar autonomia técnica ao time e prepará-lo para a nova era de regulamentos a partir de 2026, quando a Ford passa a ser parceira oficial do projeto. O movimento ampliou a estrutura do grupo e reforçou a visão de longo prazo traçada durante os anos sob o comando do dirigente.
Mas o caminho não foi apenas de glórias. Horner também se destacou como protagonista do jogo político da F1, em especial no acirrado duelo com Toto Wolff e Mercedes, em episódios que reforçaram sua fama de “vilão” na série Drive to Survive, da Netflix. Fora das pistas, no fim de 2022, a Red Bull foi punida por exceder o teto orçamentário de 2021, algo que o britânico minimizou, mas que deixou manchas na narrativa de sucesso do time.

O desgaste começou a se acentuar em 2024, quando veio à tona uma investigação interna da Red Bull sobre alegações de mensagens impróprias enviadas por Horner a uma funcionária. Embora tenha sido formalmente inocentado, a crise expôs a cisão entre equipe e matriz austríaca: enquanto a cúpula não o defendia mais incondicionalmente, o dirigente era mantido pelo apoio dos acionistas tailandeses, donos de fatia majoritária da empresa-mãe. Essa divisão acelerou a saída de figuras-chave como Adrian Newey e Jonathan Wheatley, além de desgastar o relacionamento com outras peças importantes, como Helmut Marko e Verstappen. O ambiente interno, já tenso, piorou em 2025, ano em que a equipe apresentou um dos piores carros da era Verstappen e viu a McLaren assumir de vez o protagonismo da categoria.
Com Verstappen cada vez mais aberto à possibilidade de deixar a equipe e a Red Bull em queda livre — tanto técnica quanto politicamente —, a direção da empresa decidiu pela saída de Horner no meio da temporada 2025. Os motivos oficiais da demissão não foram revelados. Mas, segundo o site alemão Auto Motor und Sport, o acúmulo excessivo de poder, a saída de Newey e a dificuldade crônica em encontrar um segundo piloto competitivo — agravada pela demissão de Pérez — formaram um cenário de desgaste insustentável para o dirigente, que já vinha sendo alvo de fortes questionamentos internos nos últimos meses.
A Fórmula 1 volta de 25 a 27 de julho, em Spa-Francorchamps, que recebe o GP da Bélgica.
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