Chefes de equipe dão de ombros para ‘voz do povo’ e reagem com cautela a resultados de pesquisas com fãs da F1

Volta do reabastecimento, guerra entre fornecedoras de pneus, compostos mais duráveis e abolição de artifícios como a asa móvel para facilitar manobras de ultrapassagens foram algumas das respostas dos fãs da F1 em pesquisas recentes sobre a satisfação a respeito da categoria. Mas segundo muitos dos seus líderes, o clamor popular vai na contramão do que o esporte precisa

Os resultados de uma ampla pesquisa global a respeito da satisfação do fã com a F1, promovida pela GPDA (Associação dos Pilotos de GP), refletiu o desejo por mudanças significativas, mas não necessariamente uma revolução completa em termos de formato de disputa. Contudo, a julgar pelo retorno de alguns dos principais chefes de equipe da categoria sobre o clamor de 217 mil votantes, a opinião dos espectadores vai em direção oposta ao que a F1 realmente necessita para voltar a empolgar o apaixonado pelo esporte.

Como nítido reflexo à queda de popularidade da F1, os fãs usaram “cara, tecnológica e chata” como as palavras mais frequentes para definir a categoria.

Por isso, o clamor por mudanças relevantes é bastante evidente. Entre os pontos que se destacam estão o apoio da maioria dos votantes à volta do reabastecimento (60%), a aprovação do retorno da guerra entre fornecedoras de pneus (80%). Outra pesquisa, promovida em conjunto pelas publicações britânicas ‘Autosport’, ‘F1 Racing’ e ‘Motorsport News’, apontou resultados parecidos e mostrou 63,3% dos seus votantes favoráveis à adoção de pneus mais duráveis. Quanto ao uso de artifícios como a asa móvel, no entanto, a apuração mostrou 50,4% contrários ao DRS.

F1 é considerada "chata, tecnológica e cara" pelos votantes na pesquisa da GPDA (Foto: AP)

“Se você quiser corridas emocionantes, os resultados da pesquisa vão na contramão disso”, comentou Paul Hembery, chefe da Pirelli, a fornecedora de pneus da F1. “Uma equipe vai gastar muito dinheiro para ter os melhores pneus e o melhor motor, não haverá ultrapassagens e eles vão sumir em relação aos outros. Isso aconteceu no começo de 2000, e a audiência despencou”, disse o britânico, fazendo referência aos tempos de supremacia da Ferrari de Michael Schumacher.

Christian Horner, comandante da tetracampeã do mundo, se mostrou totalmente contrário ao resultado da pesquisa no que diz respeito à guerra entre fornecedoras de pneus, o que ocorreu pela última vez em 2006, quando a Bridgestone lutou contra a Michelin, que teve papel decisivo no título de Fernando Alonso, com a Renault.

“Se você voltar no tempo e olhar para o que a Ferrari fez com a Bridgestone contra a Michelin com a Renault, todo mundo sofreu. Pneus mais duráveis vão tornar as corridas piores, você terá provas com uma parada, o que nunca é emocionante”, explicou.

Outro resultado que chamou a atenção foi que os fãs da F1 que responderam às pesquisas se mostraram favoráveis à readoção do reabastecimento, algo que foi totalmente rejeitado pelos times, mesmo depois de o Grupo de Estratégia iniciar um estudo a respeito do tema. Toto Wolff, chefe da Mercedes, entende que o reabastecimento “limitaria a variação na estratégia, acarretando menos ultrapassagens”.

Os chefes de equipe da F1 também rejeitam o retorno do reabastecimento (Foto: Red Bull/Mathias Kniepeiss)

Éric Boullier, diretor de corridas da McLaren, vai além: “O problema com o reabastecimento é você entrar numa estratégia programada pelo computador, sem qualquer flexibilidade. Hoje você pode mesclar um pouco a estratégia, o que você não conseguiria fazer se você tiver de reabastecer.”

Na visão de Graeme Lowdon, presidente e diretor esportivo da Manor, a volta do reabastecimento seria um grande retrocesso. “As pessoas se esquecem, ninguém ultrapassava nos tempos do reabastecimento, tudo era feito nos pit-stops. Infelizmente, acho que há um pouco de amnésia nos fãs em relação a essas duas coisas”, criticou.

Outro ponto abordado na pesquisa promovida pela GPDA foi em relação à opinião do fã da F1 sobre o sistema de asa móvel, o DRS, que foi adotado para permitir um maior número de ultrapassagens nas corridas. Neste caso, a disputa foi bem equilibrada, com 50,4% opinando contra o artifício. Boullier comentou o resultado da pesquisa.

“Às vezes eu assisto corridas antigas em casa, e você vê uma diferença enorme entre os carros, havia pouquíssimas ultrapassagens, mas nós gostamos delas. Por outro lado, em 2013 nós tivemos talvez a F1 mais apertada desde sempre, e havia tantas manobras de ultrapassagem e pit-stops que as pessoas não entendiam o que estava acontecendo”, disse. “Foi uma temporada louca. Então, as pessoas querem ultrapassagens? Sim ou não?”, indagou.

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