Coluna Apex, por André Jung: Crianças superpoderosas

Max Verstappen é um prodígio: acaba de arrasar as marcas de precocidade ao vencer seu primeiro GP com apenas 18 anos. Recorde que já foi de Emerson Fittipaldi, vencedor em 1970, com 25 anos; os tempos são outros, e desde os anos 2000, essa marca vem caindo em rápida sucessão.

O YouTube é, hoje, o segundo site de busca com maior procura. Embora a internet também seja área de interesse de jovens senhores de meia idade, na essência ela é um terreno dos verdadeiramente jovens. É para eles que a linguagem dessa ferramenta se desenvolve e são eles que conseguem operar com mais agilidade suas infinitas possibilidades.
 
Como plataforma para exibição de todos os vídeos, o YouTube passou a ser uma vitrine perfeita para pais e seus rebentos subirem e postarem tudo que acharem pertinente. Sendo assim, é lá que podemos assistir às impressionantes performances, na mais tenra idade, dos cada dia mais exímios meninos e meninas que tanto orgulho trazem aos seus familiares e amigos.
 
Haja prodígio pra tantas atividades. Vou falar da minha, sempre ligada à música: ainda há pouco, os pais que descobriam um talento musical extraordinário em seus filhos (e não faziam força para que eles desistissem) levavam seus filhos a programas de calouros e/ou batiam às portas de gravadoras e empresas distribuidoras de instrumentos musicais.
Max Verstappen é o menino prodígio da F1 (Ilustração: Marta Oliveira)
Como lido com esse mercado há muitos anos, pude conhecer alguns prodígios que chamavam atenção. Alguns vingaram, e hoje estão entre as referências em seus instrumentos; outros perderam o verniz com a idade.
 
Esse fenômeno de reunir grande destreza, ainda em tenra idade, que até 10-15 anos atrás era raro, esporádico, tornou-se rotina. Os tutoriais estão à mão, os depoimentos dos mestres e suas façanhas também, tudo arrumado e mastigado para ser difundido e aproveitado por um universo de crianças e adolescentes em busca de aprender melhor o assunto que lhes alimenta os sonhos.
 
Quase todos os dias recebo indicações, ou mesmo são publicados em meu perfil no Facebook, performances inacreditáveis protagonizadas por crianças: aquela que canta “como gente grande”, toca bateria "como gente grande”, toca guitarra “como gente grande”, e por aí vai.
 
Os pais – formados em outro tempo -, ao verem seus filhos com tanta habilidade, deduzem haver produzido um prodígio, e assim, os pegam pelas mãos e os levam nos velhos caminhos, apenas para encontrarem, nas ante-salas dos veículos de comunicação e empresas do mercado, com outros pais que acabaram de receber a mesma ‘revelação’.
 
Não percebem que o fenômeno é geracional, que hoje parecer prodígio é relativamente normal, que os tempos são outros, e as crianças, quando sabem o que querem, também sabem onde procurar tudo o que precisam para dominar as técnicas do assunto. Sem custos adicionais, sem precisar que seus pais busquem alternativas para que seus rebentos tenham como e onde aprender.
 
A neuroplasticidade presente na mente das crianças possibilita que seu aprendizado seja muito mais rápido e mais intenso do que em cérebros já formados. Com o acesso livre à tanta informação, eles surpreendem pais que, na idade de suas crianças, estavam ocupados com brincadeiras e jogos infantis.
 
Max Verstappen é um prodígio: acaba de arrasar as marcas de precocidade ao vencer seu primeiro GP com apenas 18 anos. Recorde que já foi de Emerson Fittipaldi, vencedor em 1970, com 25 anos; os tempos são outros, e desde os anos 2000, essa marca vem caindo em rápida sucessão.
Max Verstappen faz história em Barcelona com vitória no GP da Espanha (Foto: Getty Images)
Os carros de hoje são mais fáceis de pilotar e não impõem as violentas demandas físicas que os F1 proporcionavam pouco mais de uma década atrás. O câmbio é de fácil operação, a direção e os freios são assistidos, os circuitos são menos ondulados e as velocidades médias nas corridas são mais baixas. Tudo contribui para que a força física não seja mais tão necessária. Lembro que, quando Ayrton Senna fez seu primeiro teste num F1, andando num carro da Williams, não resistiu a mais que um punhado de voltas antes que seu corpo esgotado o forçasse a parar.
 
O mérito de Max é indiscutível, e as características de sua vitória o colocam sob o manto de predestinado. Polêmico desde sua entrada na categoria, Verstappen só faz comprovar o acerto dos que não se preocupam com filigranas morais quando o assunto é vencer.
 
Lembro quando a Benetton, que já estava incomodada em correr com dois pilotos brasileiros, sacou Roberto Pupo Moreno, piloto muito querido entre seus pares, e com boa reputação técnica, para abrir alas ao jovem Michael Schumacher, que apenas havia estreado, andando poucos metros na Jordan.
 
Lembro da chegada polêmica de Kimi Räikkönen, quando Peter Sauber o bancou, para desgosto (vejam só) da Red Bull – queria que Sauber contratasse Bruno Junqueira –, a vinda do jovem finlandês diretamente da F-Renault para a categoria máxima. Em ambos os casos muito barulho e cara feia duraram apenas um par de corridas.
 
Nos três casos acima um talento diferenciado não foi difícil de ser percebido por quem está nos bastidores. Acredito que logo logo, todos estarão rastreando a internet em busca de crianças bem adestradas.
 
Enquanto isso…
 
… a Ferrari torce para que o duelo interno da Mercedes incendeie a equipe… 
 
… com o jovem Pascal Wehrlein na agulha, Hamilton e Rosberg podem estar decidindo mais do que o campeonato.
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