Coluna Apex, por Andre Jung: To be or not to be

No mundo do esporte, esse comportamento sempre esteve mais ou menos liberado. No futebol, torcidas organizadas são como partidos políticos, onde destruir a imagem do adversário (e o adversário em si) é o grande objetivo. No automobilismo poderia ser diferente

(Ilustração: Marta Oliveira)

Tenho orgulho da língua portuguesa. Apesar de suas complexidades, ela consegue ser extremamente precisa e seu vocabulário é riquíssimo. Nas aulas de inglês, que comecei a frequentar pequeno, sempre me incomodou essa coisa do verbo 'to be' traduzir-se por 'ser e/ou estar'.

Veja bem, amigo leitor, em 'Alonso is faster than you', não titubearia em concordar que Alonso é mais rápido, aí falo do conjunto da obra, acho mesmo que o espanhol 'é' mais rápido do que a quase totalidade dos pilotos do nosso planeta. O mesmo não posso dizer do jovem finlandês Valtteri Bottas. Portanto, no caso específico do GP da Malasia, 'Bottas is faster than you' entendo por Bottas 'está' mais rápido que você. Essa é minha tradução, mas lançada ao mundo, via satélite, a frase do engenheiro da Williams se prestou às mais diversas interpretações.

Na sociedade da fofoca que estamos enfrentando, redes sociais são plataformas de auto-fofoca (assim como da fofoca em si), teclar de forma histriônica e verborrágica, tornou-se uma espécie de esporte. Assim, os instintos mais primitivos, que certo deputado mencionava tempos atrás, hoje se manifestam de forma desavergonhada, trazendo à tona, de forma eloquente, o ódio racial, sexual, de classe, de torcida e outros ódios que ainda vou lembrar.

Toda espécie de exagero e destempero prevalece, na besta busca de "causar". No lamentável episódio da 'Marcha da Família com Deus 2' (pobre Deus), a levar pelo barulho provocado pela fúria conservadora, milhares ocupariam as ruas do país para nos salvar dos comunistas, no asfalto, um punhado triste de reacionários ressentidos fez patética figura.

No mundo do esporte, esse comportamento sempre esteve mais ou menos liberado. No futebol, torcidas organizadas são como partidos políticos, onde destruir a imagem do adversário (e o adversário em si) é o grande objetivo. No automobilismo poderia ser diferente.

Digo isso, porque pilotos não são times, são empregados destes e correm por si. Aqui no Brasil, país que tem o hábito de comer mortadela e arrotar peru, costumamos perseguir nossos pilotos sempre e quando não são os melhores do mundo.

Emerson, um piloto espetacular, respeitado do Alasca à Patagônia, aqui foi tão ridicularizado quando pilotava, vejam só, um carro de F1 brasileiro, que, deprimido, teve de largar tudo, até se reconstruir naquele país que não tem nome. Isso ele, bicampeão mundial. Acho que mesmo Senna, se tivesse sobrevivido, ainda iria enfrentar a sanha ridicularizante do brasileiro 'soberbo'.

Para nós é assim, ou é/está pacheco, ou é/está espírito de porco. As mensagens de equipe da Williams serviram de prato feito para o festival de maldades, os 'comentaristas de botequim' condenaram Massa por não ter obedecido à equipe, da mesma forma que o condenaram por tê-lo feito em Hockenheim, não tem um lado ou outro, o viés é sempre de menosprezo.

Humildemente, acho estupidez a equipe, já na segunda corrida, querer ditar os passos de seus pilotos. Ainda mais com a fatídica frase (de sentido duplo) que tanto trauma causou três anos atrás. Massa desobedeceu, e eu aplaudo. Tivesse aceitado, não dormiria em paz.

Vencedor de diversas corridas, vice-campeão mundial em 2008, o brasileiro fez bem em se fazer de surdo, e duvido que a Williams vá fazer cavalo de batalha dessa história. Voltando no título da matéria, Bottas não é mais rápido que Massa (como de resto, todos os treinos até aqui demonstram), apenas estava.

Enquanto isso…

…Vettel já pôs a Mercedes na linha de tiro…

…coisa que não deve causar estranheza; a Red Bull tem melhor projetista e a Renault sempre soube fazer motores…

…a nova F1 provocou uma escalada de custos e são poucos os times que tem recursos para fazer a temporada inteira.

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