Coluna Rookie Text, por Gabriel Araújo: Ainda Senna

Depois de tudo, porém, uma coisa garanto: melhor ser um jovem doidão que desconhece tudo relacionado ao automobilismo do que ser o ‘genial’ adulto que parou de ver corridas porque "sem Senna não tem graça", "antes era equilibrado", "hoje o piloto não faz nada, o carro dirige sozinho"

O trabalho espetacular realizado pela mídia, em especial a Revista Warm Up, e o número expressivo de destaques a Ayrton Senna na última semana, quando sua morte completou 20 anos, não permitem maiores comentários sobre o tricampeão e sua vida, sua pilotagem agressiva, o pedestal ao qual é elevado. Mas dão margem para que a visão de alguém que não acompanhou nada, absolutamente nada da carreira de Senna ao vivo, possa aparecer. É a ótica da atual geração. Eu, pois bem, sou um deles. Com 16 anos recém-alcançados, acho interessante que se compare o ponto de vista de quem vibrou com ‘ah, as manhãs de domingo inesquecíveis’, com o de quem conheceu a F1 nos anos 2000, já sem um grande ídolo nacional, com a eterna espera de ‘novo Senna’, que persiste, assim como o aguardo pelo ‘novo Pelé’.

Há cerca de quatro anos, quando do que seria o aniversário de 50 anos do brasileiro, este Grande Prêmio publicou uma série bacana. Em uma das matérias, ‘Senna deixa de ser ídolo e passa a ser referência para garotos de até 15 anos’, um dos entrevistados era eu. O rapaz de 12 anos de Jacareí apontava Ayrton como um dos grandes ídolos do esporte brasileiro, mas confessava a preferência por Michael Schumacher. Declaração curta, fácil, boba, mas que para ser alcançada, acredito, rendeu trabalho ao repórter, que aguardou toda uma tarde para me entrevistar. Poderia facilmente ter achado outro jovem. Mas não. Pois não é tão fácil, hoje, encontrar, em meio à inteligência absurda da nova geração, e sim, uso ironia, alguém nascido no pós-Senna que conheça, mesmo, a F1. Os hábitos automobilísticos do país, ou melhor, dos pais, se foram junto com o 'Senna è morto' dos médicos do Hospital Maggiore de Bolonha.

Jovens desconhecem história de Ayrton Senna (Foto: Getty Images)

Os jovens não buscam a história da F1, nem assistem, inclusive. E os pais não apresentam nada para ajudar, porque "parei de ver corridas naquele 1º de maio de 1994". É inegável, mesmo para os que dele não gostam, que Senna foi um espetacular piloto, talvez o melhor dentre os brasileiros campeões do mundo, fantástico produto de marketing, determinado aos seus objetivos (entenda como vitória). Ídolo, elevado à faceta de herói quando da morte, para um país que enfrentava ferrenha crise econômica, vida dura, jejum de duas décadas sem Copa do Mundo e de F1 à frente do futebol. O Brasil gosta de ganhar, e Senna o fazia muito bem.

Mas para a geração do século XXI, especialmente, não passa de um personagem importante sobre o qual o tio às vezes comenta ou que aparece na TV vez ou outra. Não é nada que já foi para o povo sofrido que se apoiava na garra de Ayrton, e posso provar: se hoje alguém entrar em minha sala de aula, segundo ano do ensino médio, e perguntar aos 32 alunos quem foi Senna, com otimismo, dez irão responder com certeza absoluta, firmes, e alguns, vá lá, podem saber que é ‘um piloto que morreu’. Se a questão passar aos anos dos títulos de Senna, uns cinco respondem. Se abordar a respeito das equipes de Ayrton, talvez dois saibam. E espere um desempenho pior se a pergunta for sobre Alain Prost ou mesmo Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi. Experimente, ainda, uma questão de F1 naquele game de trívia, 'Perguntados'. O tempo acaba e a resposta não surge. Mas vá perguntar sobre MC Daleste…

Aliás, em um vídeo publicado num portal de notícias, não me lembro qual, sobre a 'geração selfie' e Senna, uma menina diz que só o tal MC Daleste moveria o número de pessoas para comemorações como o tricampeão. Dá para acreditar? De uns cinco ou seis entrevistados, inclusive, só um sabia bem quem foi Senna. Os outros facilmente diriam que era um jogador de futebol ou um cantor de dupla sertaneja. Piloto? Corrida? “Não faz meu tipo”.

Mas, que seja, não é o interesse de um ou outro jovem por Ayrton Senna que muda a grandeza, o brilhantismo do paulista nas pistas, as inúmeras vitórias, a idolatria ainda persistente. Com o pessoal novo daqui, porém, é fato que a F1 anda em época de vacas magras, mas é possível que o gigantesco trabalho em volta dos 20 anos de sua morte possa tê-los feito mudar o olhar para a F1.

Por sorte, tive uma boa influência, e a emoção de meu pai assistindo às corridas reprisadas de Senna na última quinta-feira na televisão provam isso. A paixão por carrinhos também me ajudou. Assim como a curiosidade para o que acontecia na TV naquele GP de Mônaco de 2004, meu primeiro, vitória de Jarno Trulli com a Renault. Mas nem com todos isso aconteceu, convivo com pessoas da minha idade e sei bem, e o desinteresse por F1 é consequente. Por isso a falta de conhecimento por Senna e adjacentes. Já os que de corridas gostavam na época áurea brasileira se tornaram meros pusilânimes para a categoria.

Depois de tudo, porém, uma coisa garanto: melhor ser um jovem doidão que desconhece tudo relacionado ao automobilismo do que ser o ‘genial’ adulto que parou de ver corridas porque "sem Senna não tem graça", "antes era equilibrado", "hoje o piloto não faz nada, o carro dirige sozinho", e que em muito contribui para a já famigerada falta de interesse para com as corridas. Fazer o quê? É a vida. Para os que não gostam, só lamento. Para os que gostam, bom proveito, fazem bem.

Geralmente, as pessoas de minha idade que de fato identificam Ayrton Senna são os futuros pilotos, os kartistas, iniciantes em categorias de base, que tomam Senna como ídolo, provavelmente com influência – oh – familiar, ou futuros jornalistas esportivos. O oba-oba midiático sobre o ‘super-herói’ da F1 alimenta o conhecimento destes; o sonho de ser o novo Senna, daqueles.

No mais, para quem tem entre 20 e 25 anos, acredito que a vida de Ayrton já é mais ampla, a consciência sobre Senna chegou quando ainda se remoía a perda do ídolo, o gosto pela F1 chegou quando a popularidade já decrescia, mas ainda existia. Para quem tem dez anos a menos, a tarefa de acompanhar uma corrida já é bem mais árdua. Felizmente, alguns resistem, se é que podemos colocar dessa forma, e apreciam uma boa prova. Mas a estatística de novas gerações e F1, realistas sejamos, tende a cair. Pelo menos até o ‘novo Senna’ chegar. E repito: esperemos sentados.

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