Disputa aberta e emocionante entre Hamilton e Rosberg salva campeonato que prometia ser monótono
O segundo capítulo da RETROSPECTIVA 2014 do GRANDE PRÊMIO trata da disputa interna dos dois pilotos da Mercedes, Lewis Hamilton e Nico Rosberg, pelo título mundial. Uma disputa que pode ser dividida em sete capítulos
Uma disputa aberta com direito a toque, belas ultrapassagens e uma decisão dramática na última corrida. Dá para dizer que a F1 2014 viu uma boa batalha pelo título entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg. Não chega a ser uma das maiores da história, mas certamente foi boa o bastante para agradar quem a acompanhou.
Com a Mercedes tão superior às demais equipes desde a pré-temporada, o campeonato deste ano tinha tudo para ser chato, monótono, enfadonho. Foi salvo pela excelente atitude da chefia da Mercedes, que deixou seus dois pilotos livres para duelarem na pista do início ao fim — e mesmo após os dois se tocarem na segunda volta do GP da Bélgica.
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Companheiros de equipe pela primeira vez na infância, ainda como kartistas, Hamilton e Rosberg se conhecem muito bem. Reunida em 2013 na Mercedes, a dupla começou o ano mantendo um relacionamento saudável, mas tudo foi por água abaixo em Mônaco. Aquele episódio complicou a sintonia entre os dois e adicionou um tempero à disputa, que seguiu equilibrada até o fim. E méritos para Toto Wolff, Paddy Lowe e Niki Lauda, que souberam administrar bem a situação e evitar grandes prejuízos para a equipe.
Dá para a batalha entre os pilotos da Mercedes ser resumida em sete capítulos, e é exatamente isso que o GRANDE PRÊMIO faz nesta terça-feira (16) na segunda parte da RETROSPECTIVA 2014.

A pré-temporada já tratou de deixar evidente que Lewis Hamilton e Nico Rosberg se enfrentariam na disputa pelo título até o fim, com as primeiras corridas servindo apenas para comprovar essa tese. (Foto: Getty Images)
O processo de preparação da Mercedes rumo ao título do Mundial de F1 ficou pronto junto dos motores V6 turbo. No início desta nova era na categoria, os alemães desenvolveram o melhor pacote carro-motor e largaram para 2014 bem à frente dos demais — só mesmo a chuva podia oferecer alguma surpresa, como quase ofereceu na classificação para o GP da Austrália. De qualquer forma, Hamilton fez a pole e Rosberg ficou em terceiro, atrás de Daniel Ricciardo.
Na corrida, o ponto fraco da Mercedes ficou exposto: a confiabilidade. Um cilindro não funcionou no carro do inglês, que se viu forçado a abandonar nas voltas iniciais. Rosberg, tranquilo, desfilou rumo à vitória. No primeiro dia do campeonato, Lewis olhava para a tabela e via uma desvantagem de 25 pontos. Nada fácil. Na Malásia, foi a vez de Hamilton vencer sem ser ameaçado, com Rosberg chegando em segundo na primeira dobradinha da Mercedes desde a década de 1950.
O temor que havia no público e até mesmo nas pessoas da categoria era que o campeonato seguiria monótono porque a Mercedes limitaria as ações dos pilotos e porque os postulantes ao caneco eram “sem sal” — especialmente Rosberg. Mesmo que a disputa fosse seguir equilibrada, a história e as batalhas não renderiam tanto. A terceira corrida do ano serviu para animar um pouco mais os espectadores.

Na melhor corrida da temporada 2014, Lewis Hamilton e Nico Rosberg dividiram curvas e quase se tocaram mais de uma vez. O inglês defendeu muitíssimo bem a posição e venceu pela segunda vez no ano. (Foto: Getty Images)
Do início ao fim do GP do Bahrein, Hamilton e Rosberg permaneceram colados um no outro. A pole foi de Rosberg, mas, sofrendo para achar o ponto da embreagem, o alemão fez várias largadas ruins no início do ano. Assim, Lewis tomou a ponta.
O primeiro ataque feroz aconteceu ao final do primeiro stint, com Rosberg chegando a se colocar à frente, mas levando o xis. Bastante agressivo na defesa da posição, chegou a empurrar Nico para além dos limites da pista — mas tudo no limite da legalidade.
No pit-wall, os cabeças da Mercedes tremiam de nervosismo. Depois que o safety-car entrou na pista, então, nem se fala. O diretor-técnico Paddy Lowe acionou o rádio e avisou: “Aqui é o Paddy, tragam os carros para casa”. Era um recado que não inibia a briga, mas que deixava claro o desejo da Mercedes: faturar mais uma dobradinha.
Mensagem transmitida e cumprida. Hamilton e Rosberg, nas 11 voltas finais, se digladiaram na pista. Nico, com pneus macios, novamente chegou a se colocar à frente, novamente para levar o xis. Nas voltas finais, Lewis, calçado com borracha média, foi capaz de dar aquele último gás para respirar mais aliviado e faturar a vitória. O ritmo era tão impressionante que, nessas 11 voltas de bandeira verde, Hamilton abriu 24s para o terceiro colocado, o mexicano Sergio Pérez — mais de 2s por giro.
Descendo do carro, Lewis e Nico vibraram com aquela batalha que os fez lembrar dos tempos de kart. “Teve uma corrida que fizemos anos atrás que ele liderou inteira e, na última volta, eu o ultrapassei e ganhei. Achei que hoje ele fosse fazer o mesmo comigo e se vingar. Era o que passava pela minha cabeça”, comentou o britânico.
Paddy Lowe, na época, disse que fazer uso de ordens de equipe faria um mal tremendo à F1. “Imagine se tivéssemos imposto ordens de equipe na segunda volta ou algo assim. Seria uma coisa terrível para a F1 e para a filosofia da Mercedes no automobilismo. É algo que devemos a nós mesmos, ao esporte e aos pilotos”, falou. Toto Wolff, dias depois, ressaltou que a aproximação das adversárias podia fazer o time mudar de ideia, mas tudo dependeria da situação.
Depois da prova no Bahrein, Hamilton venceu com facilidade na China e com alguma dificuldade na Espanha, por uma margem minúscula. A essa altura do campeonato, Rosberg ia mostrando que elevaria o nível e obrigaria Hamilton a imprimir um ritmo fortíssimo se quisesse vencer. Em outras palavras, valorizaria os triunfos do adversário.

A pole provisória estava nas mãos de Nico Rosberg quando o alemão escapou da pista no fim do Q3 e provocou uma bandeira amarela que impediu Lewis Hamilton de andar mais rápido. O inglês estava certo de que o rival agira como um Dick Vigarista. (Foto: Mercedes)
O fim de semana em Monte Carlo deu nova cara ao campeonato. Instaurou-se ali um clima de animosidade entre os dois pilotos da Mercedes. No sábado, os comissários chegaram a investigar Rosberg pela suspeita saída de pista, mas não existiam elementos concretos que pudessem incriminá-lo. Fato é que Hamilton foi embora revoltado. Os compromissos com a imprensa foram cancelados e a Mercedes permitiu que os pilotos deixassem o circuito mais cedo para se acalmarem e retornarem mais tranquilos no domingo.
Ainda assim, ambos estavam com a cara amarrada antes da largada em Mônaco e permaneceram da mesma forma depois que Rosberg venceu segurando Hamilton durante a maior parte da prova — no final, um cisco no olho fez o britânico tirar o pé e quase perder o segundo posto para Ricciardo.
Ali, todos sabiam que a disputa e a relação entre os dois pilotos não seria mais a mesma. Os chefes tentavam colocar panos quentes, mas só o tempo daria conta de curar a ferida. Hamilton, na verdade, só voltou a ser sorrisos e mais sorrisos ao ganhar o GP da Inglaterra, um mês e meio depois.

Os meses de junho e julho não foram nada bons para a Mercedes. O time teve problemas em todas as corridas e só conseguiu fazer uma dobradinha na Áustria. E, na Hungria, uma ordem de equipe desobedecida tomou conta do noticiário férias adentro. (Foto: Getty Images)
A falta de freios nos dois carros no Canadá, o câmbio que deixou Rosberg na mão na Inglaterra, o disco de freio que se partiu na classificação na Alemanha e o incêndio que destruiu o carro de Hamilton também na classificação na Hungria. A Mercedes expôs durante o período da Copa do Mundo, mais do que nunca, suas fraquezas.
Antes, o único momento de fragilidade fora registrado no GP da Austrália, com o abandono de Hamilton. Depois daquilo, cinco dobradinhas seguidas. E, então, apenas uma em cinco provas. (Curioso chamar de ruim um período que teve três vitórias em cinco provas).
Em Montreal, Hamilton abandonou de novo, sendo que Rosberg bravamente resistiu e salvou um segundo lugar, levando 18 pontos para casa. Na Áustria, o time foi mal na classificação e perdeu a primeira fila para a Williams, dando o troco na corrida. Na Inglaterra, Rosberg liderava até parar com a caixa de câmbio quebrada — possivelmente perderia para Hamilton mesmo assim. E na Alemanha e na Hungria, Lewis teve de largar do fim do pelotão após deixar prematuramente as tomadas de tempos, mas foi terceiro em ambas.
Para complicar ainda mais, a tensão tinha de crescer no fim do GP da Hungria, quando uma ordem para que Hamilton cedesse passagem a Rosberg foi desobedecida. Com os pilotos em estratégias diferentes, a equipe queria garantir que Nico tivesse a chance de lutar pela vitória. Hamilton não estava preocupado com isso e sim com os pontos no campeonato, por isso se recusou a abrir caminho. Acabou que o inglês foi terceiro e Rosberg ficou só em quarto.
Uma reunião após a corrida deixou determinado que, a partir de então, quaisquer ordens de equipe fossem cumpridas. No entanto, a Mercedes reconheceu que se afobou ao fazer tal requisição e também prometeu ser mais cautelosa.

A história é conhecida: na segunda volta do GP da Bélgica, Rosberg tentou retomar a liderança fazendo uma ultrapassagem por fora na curva Les Combes. Ao se ver sem espaço, não evitou o contato e furou o pneu traseiro esquerdo de Hamilton, que mais tarde abandonaria. O alemão foi segundo, somou 18 pontos e levou a diferença para 29. (Foto: AP)
Toda a liberdade prometida pela Mercedes foi colocada em risco com o toque. Wolff e Lauda se mostraram furiosos nas primeiras entrevistas que deram após a prova — enquanto Rosberg era vaiado no pódio. Ricciardo, na Red Bull, comemorava uma improvável terceira vitória.
Em uma primeira reunião, realizada no motorhome, Rosberg admitiu que não tentou evitar o contato. Hamilton não perdeu a chance de sair de lá e entregar o jogo ao falar com a imprensa, conquistando de vez a opinião pública no caso. Mas, como revelado nesta semana pela revista inglesa ‘Autosport’, os comandantes da Mercedes estavam dispostos a mostrar que mandavam no negócio.
Hamilton e Rosberg foram embora de Spa para não conversarem um com o outro, tampouco com membros da equipe. Deveriam esperar uma ligação. Foi só na sexta-feira que os dois se reencontraram, em Brackley, onde se reuniram com Paddy e Toto. O que exatamente rolou nessa reunião, não se sabe, mas na época a imprensa inglesa veiculou que o alemão foi multado em uma quantia de seis dígitos.
A dupla continuaria tendo liberdade para brigar na pista, porém nenhum outro deslize seria tolerado. “Pessoas viraram noites trabalhando, deixaram de ver suas famílias, e eles jogaram tudo fora na segunda volta. Nós não estávamos dizendo que um teve 100% de culpa, mas 51% era o bastante. Então dissemos: ‘Não façam de novo. Se fizerem, nós vamos decidir se vamos continuar com essa dupla’”, falou Wolff.

Efeito psicológico ou não, o fato é que Hamilton saiu de Spa mais forte que Rosberg e deu início a uma sequência de cinco vitórias. Na primeira delas, induziu o rival ao erro em Monza. (Foto: Getty Images)
Entre os GPs da Itália e dos Estados Unidos, Hamilton ganhou todos — mesmo largando na pole só duas vezes. Na Itália, precisou induzir Rosberg ao erro para assumir a frente. Em Cingapura, a vida ficou mais fácil depois que o adversário mal largou com um problema no carro. Em Suzuka, fez uma ultrapassagem de classe. Na Rússia, venceu fácil. E, em Austin, fez uma ultrapassagem cirúrgica para tomar a ponta.
A desvantagem que antes era de 29 pontos se tornou uma vantagem de 24 principalmente por causa do segundo abandono de Rosberg no ano. Foi uma falha no sistema elétrico que o derrubou. Ali, só quatro semanas após o lance de Spa, a liderança retornou às mãos de Hamilton — ele só havia sido líder por 15 dias até então, entre os GPs da Espanha e o GP de Mônaco.
"Depois de Spa, eu disse a mim mesmo: 'Eu tenho de virar isso. E vou fazer, e isso significa guerra'. Foi esse o sentimento. Refletindo agora, eu peguei toda a energia que tinha e transformei o que era uma bomba no sentido negativo em algo positivo", disse Hamilton na semana do GP do Brasil.

No GP do Brasil, Nico Rosberg reagiu e mostrou que não estava morto na batalha pelo título. Foi uma vitória que reforçou a capacidade do alemão enfrentar Lewis Hamilton. (Foto: AP)
Em meio às sequências de vitórias de Ricciardo e Hamilton, Rosberg enfrentou um amargo jejum. Foram mais de três meses sem vitórias entre a Alemanha e o Brasil, onde ele enfim reagiu.
A vitória no Brasil foi importante para reforçar o moral do alemão na briga contra Hamilton. Ele estava extremamente descreditado por ter apenas quatro vitórias contra dez do inglês, que tivera três corridas com problemas que o impediram de pontuar contra apenas duas de Nico.
Apesar da falta de vitórias, Rosberg foi extremamente regular e é preciso ressaltar isso. Ele foi segundo dez vezes, garantindo assim 180 pontos. Também se destacou ao superar Lewis em classificações, algo que ninguém imaginava que poderia acontecer.
O grande problema é que estava virando rotina ele ser superado por Hamilton no decorrer da prova. No Brasil, ele deu conta de mostrar que ainda podia fazer frente ao rival. Foi primeiro em todos os treinos, fez a pole e venceu mesmo sendo pressionado no final da corrida. Eles iriam para Abu Dhabi separados por 17 pontos com 50 em jogo.
“Em Austin, o domingo foi difícil para mim e era importante melhorar. Não tinha feito um trabalho bom o bastante. Aprendi a partir de Austin, e esse é um grande passo na direção certa. Uma corrida tarde demais, mas ainda há tempo. Preciso continuar tentando manter esse momento e estou me sentindo muito bem no carro. Precisava garantir que o carro fosse bom o bastante para que ele não consguisse chegar e ultrapassar, como aconteceu em Austin, e fiz isso”, falou após vencer em Interlagos.

O carro não permitiu que Nico Rosberg lutasse até o final, mas isso não tirou o mérito de Lewis Hamilton na conquista do bicampeonato mundial. (Foto: AP)
Mais uma vez, Rosberg fez a pole. Mais uma vez, Hamilton pulou melhor na largada e tomou a ponta, como tantas vezes tinha acontecido no início da temporada. E aí começou a perseguição, mas nada que pudesse ameaçar o inglês, que podia ser segundo para garantir o título.
O alemão conseguia acompanhar o ritmo, porém começou a viver um drama quando o ERS do seu F1 W05 Hybrid parou de funcionar. A falta de potência matou ali as esperanças de ao menos vencer na última corrida, que tinha pontuação dobrada, e torcer por um abandono de Hamilton. Foi ele quem acabou sucumbindo.
Rapidamente, Rosberg foi ultrapassado por Felipe Massa e perdeu a segunda posição. Valtteri Bottas também o passou e subiu para terceiro. Pelo rádio, perguntava qual era sua situação com relação à posição mínima em que precisava chegar — no caso, estar em sexto para o caso de Hamilton abandonar. Também não rolou.
Nas voltas finais, quando estava em vias de virar retardatário, a Mercedes pediu para que ele recolhesse. Assim, o problema de confiabilidade ficaria disfarçado. Mas, em um ato de bravura, o piloto respondeu: “Eu gostaria de ir até o final”.
Lá na frente, Hamilton administrou a aproximação de Massa e cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, sob os fogos de artifício, para comemorar o bicampeonato. “Esse é o maior dia da minha vida. 2008 foi especial. Mas o sentimento que tenho agora é muito maior. É a melhor sensação da história”, afirmou após a conquista nos Emirados Árabes Unidos.
A pontuação dobrada ofereceu uma distorção, com a diferença saltando para astronômicos 67 pontos após a decisão, mas a verdade é que a conquista de Hamilton foi justa. Além de ter vencido mais corridas, contornou os contratempos que enfrentou até o mês de agosto e dominou Rosberg. Um novo capítulo dessa rivalidade será escrito em 2015, já que a expectativa de todos na F1 é ver a Mercedes outra vez superior em relação à concorrência.

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