Ferrari colhe louros improváveis com Leclerc enquanto leva Vettel à dor e humilhação

Em crise desde o começo de 2020, a mais tradicional das escuderias do grid conquistou dois pódios na base do acaso, na Áustria e na Inglaterra, todos com o monegasco. Ao tetracampeão, sobraram as migalhas de uma equipe que, definitivamente, já lhe virou as costas

É intrigante a situação atual da Ferrari depois das quatro primeiras corridas de uma temporada 2020 marcada pela crise, inconsistência e alguns resultados inexplicáveis. Charles Leclerc tirou proveito de um raro acerto de estratégia e da punição imposta a Lewis Hamilton para terminar o GP da Áustria, prova de abertura do campeonato, em segundo lugar. Depois, acertou Sebastian Vettel na primeira volta do GP da Estíria e foi inexistente na Hungria. No último fim de semana, em Silverstone, renasceu com um desempenho muito acima da capacidade da SF1000, obteve o quarto lugar no grid e, graças ao pneu furado de Valtteri Bottas, fechou a prova em terceiro e assegurou seu segundo pódio, os dois de maneira improvável.

Em contrapartida, Vettel sofre muito para guiar um carro que se mostra, pelo menos no seu caso, indomável. De razoável até agora na temporada só o sexto lugar em Budapeste. Em Silverstone, todos os problemas da Ferrari aconteceram do seu lado dos boxes. Na corrida, o tetracampeão se arrastou, foi ultrapassado até por Pierre Gasly e completou o domingo com um mísero ponto. Outro resultado humilhante para o piloto que foi o grande nome da F1 no começo da década passada, viveu o auge com quatro títulos consecutivos entre 2010 e 2013, mas hoje conta os dias para deixar Maranello.

À parte do momento atual, vale aqui o recorte de registro importante. Há pouco mais de dois anos, na mesma Silverstone, Vettel conquistava uma vitória emblemática que reforçava sua posição de líder da temporada 2018, comemorava na casa do seu maior adversário naquele campeonato, Lewis Hamilton, e festejava por igualar a marca de triunfos de outro tetra, Alain Prost. De quebra, se manteve na liderança do Mundial. Foi a última vez em que Vettel ocupou a primeira posição da tabela.

Sebastian Vettel
Sebastian Vettel tem poucos motivos para sorrir em 2020 (Foto: Scuderia Ferrari)

Veio então o GP seguinte, na Alemanha, que resultou em desgraça para Sebastian. Uma vitória que parecia certa terminou em pesadelo na barreira de proteção depois de ter escorregado no asfalto úmido. Foi a vez de Hamilton fazer a festa na casa do alemão, assumir a liderança do campeonato e partir firme rumo à conquista de mais um título. Desde então, Vettel jamais ficou perto de ocupar novamente tal posição e teve raras boas exibições. A Ferrari mudou sua filosofia, trocou Kimi Räikkönen pelo jovem e promissor Charles Leclerc e dispensou o então comandante Maurizio Arrivabene para promover Mattia Binotto, chefe da divisão de motores, ao posto de chefe de equipe.

De volta à atualidade, o passado recente explica que lá atrás, no fim de 2018, a Ferrari já estava decidida a mudar os rumos e apostar na juventude de Leclerc. Muitos pensaram que o monegasco pudesse ter um difícil ano de adaptação a uma casa que exerce pressão por resultados mais que qualquer outra na Fórmula 1. Charles registrou sete poles (em algumas delas, fazendo uso do motor controverso da Ferrari), venceu duas corridas e se impôs. E mostrou que não somente era o homem do futuro, mas do presente. Quando a equipe anunciou a renovação de contrato com o jovem até 2024, já estava claro quem era o novo número 1.

Desde o começo da pré-temporada, a Ferrari sabia que não tinha boa performance e previa um 2020 difícil. Mas na primeira corrida do campeonato, que só aconteceu em julho em razão do adiamento e dos cancelamentos de provas provocados pela pandemia, Leclerc mostrou ter na Áustria um carro mais equilibrado, enquanto Vettel brigava o tempo todo com o volante. No desfecho daquele fim de semana no Red Bull Ring, Leclerc comemorou um pódio que veio quase como um milagre, enquanto a Vettel restou apenas 1 ponto.

Charles foi mal na Estíria, acertou Vettel na largada e destruiu a corrida da Ferrari no segundo fim de semana na Áustria. Na Hungria, também não foi bem: o monegasco foi batido por Vettel no treino classificatório, largou em sexto, mas sofreu com os erros de estratégia da Ferrari e nem um ponto conseguiu marcar. Seb fez o máximo com o que tinha nas mãos e ainda salvou a sexta colocação, seu melhor resultado até agora no campeonato.

Sebastian Vettel, Mattia Binotto e Charles Leclerc
Entre o passado e o futuro, a Ferrari prioriza Leclerc e deixa Vettel com as sobras (Foto: Scuderia Ferrari)

Pouco mais de dois anos depois daquela simbólica vitória na Inglaterra, Vettel retornava a Silverstone com a possibilidade de reafirmar a exibição na Hungria, enquanto Leclerc precisava voltar a ter uma boa performance após duas corridas bem decepcionantes.

O jogo virou de novo. Vettel enfrentou problemas na sexta-feira com problemas no intercooler e no pedal do freio. Leclerc esteve sempre entre os cinco melhores colocados. No sábado, o monegasco obteve o melhor grid da Ferrari no ano até agora: um inesperado quarto lugar. Seb sofreu para guiar sua nervosa Lucilla e conseguir apenas a décima posição, sendo quase 1s mais lento que seu companheiro de equipe no Q3.

No domingo, Leclerc fez uma corrida bastante solitária em quarto. Não ameaçou seu concorrente mais direto, Max Verstappen, mas também não foi pressionado pelas McLaren de Carlos Sainz e Lando Norris, que vinham mais atrás. A colocação já era boa demais para a realidade da Ferrari antes de se converter em outro pódio improvável na esteira do furo de pneu sofrido por Valtteri Bottas. A comemoração efusiva da Ferrari com Leclerc contrastava com mais uma decepção com Vettel.

O tetracampeão esteve irreconhecível novamente, não passou do décimo lugar, foi ultrapassado sem dificuldade pela AlphaTauri de Gasly e teve como único mérito ter segurado no braço a Mercedes de Bottas, que fez as duas últimas voltas com pneus macios. A humilhação sofrida por Seb foi traduzida por outro décimo lugar.

Vettel não conseguiu segurar nem a AlphaTauri de Gasly (Foto: AFP)

Vettel expressou nas palavras que está cansado de sofrer. “Foi uma corrida muito difícil porque não pude lutar com ninguém”, disse o dono do carro #5 depois da corrida. “Muitos dos que estavam atrás de mim eram um pouco mais rápidos e conseguiram me passar. Não tive o ritmo necessário, de modo que meu nível de confiança é bem abaixo neste momento porque sofro para ter as impressões no carro e cada vez que tento acelerar, o perco. Acho que precisamos revisar este problema junto com os engenheiros”.

Mas o que, de fato, acontece com Vettel? Eis uma pergunta que nem mesmo Mattia Binotto sabe responder. “A parte positiva foi o pódio de Charles. Depois de uma boa classificação, foi perfeito na corrida e fez um trabalho impecável na gestão dos pneus. Por outro lado, está o resultado de Sebastian. De novo, hoje claramente não esteve contente com seu carro: temos de estudar a informação de perto para descobrir o por quê”.

Leclerc conquistou dois pódios improváveis em quatro etapas na temporada (Foto: Ferrari)

Tristeza, decepção e desabafo: Vettel caminha para adeus melancólico à Ferrari

Perto de se despedir daquela que foi sua casa pelos últimos cinco anos, Vettel já não esconde mais a tristeza e a insatisfação por se ver apenas com os restos de uma equipe que o contratou com a esperança de vê-lo conquistando títulos. “Não me arrependo do tempo que tive com a Ferrari”, disse Vettel ao jornal italiano La Repubblica.

“Acho que, aqui e ali, talvez não tenha tido o apoio que precisava, queria ou pedi, mas, no geral, sempre tive ao meu redor pessoas que estavam dispostas a me ajudar tanto na pista quanto em Maranello”, lembrou o tetracampeão, que fez menção ao responsável pela sua contratação, o ex-presidente da Ferrari, que morreu em julho de 2018. “O Sr. [Sergio] Marchionne fez essa promessa quando me explicou que estavam procurando alguém para reconstruir o time. Na época, eu era o candidato, mas não mais…”.

Em tom de desabafo, Sebastian ressaltou as deficiências do motor e como a Ferrari ficou para trás na comparação não somente com as outras equipes do chamado ‘trio de ferro’, mas também em relação a carros que fazem parte da chamada Fórmula 1 B.

“Sofremos a partir de um motor, e nosso chassi não se adapta a ele. Não somos competitivos nas retas como antes e é por isso que nós sofremos não somente contra a Mercedes ou a Red Bull, mas também contra os outros. Temos sido parte do meio do grid, no sentido de que nós estamos lutando com a McLaren, a Renault e as outras equipes”, explicou o alemão de Heppenheim, que revelou uma informação até então desconhecida.

Vettel precisa deixar a Ferrari para voltar a ser feliz na Fórmula 1 (Foto: Ferrari)

“A base deste carro foi definida em 2017, que era muito forte. Mas, desde então, os outros trabalharam melhor. A Mercedes provou ser superior, e todos trabalharam para evoluir. Os regulamentos mudaram pouco. Não somente neste ano, mas também nos anteriores, jamais tivemos o pacote adequado para lutar contra a Mercedes até o fim”, reconheceu.

“Dito isto, não acho que seja correto para o nosso departamento de chassis dizer que há um erro em nosso carro. Acho que é um carro sólido, mas não como os outros, embora saiba que, na Itália, quando você não vence é dito que tudo é um erro”, complementou o tetracampeão, que se mostra farto até da pressão que a Ferrari e a Itália exercem sob os pilotos da Scuderia.

Se o presente é desolador, o piloto sabe que ainda tem lenha para queimar e sonha com um futuro mais feliz na Fórmula 1. Seb caminha para ter, na mesma Silverstone, do outro lado da estrada que leva ao autódromo, sua nova base de trabalho. Minutos antes da largada no domingo, as câmeras da transmissão oficial flagraram o cumprimento entre Vettel e Lawrence Stroll, dono da Racing Point, futura Aston Martin.

O piloto deixou o circuito de carona na Ferrari de Otmar Szafnauer, chefe da equipe rosa e, ao que tudo indica, provável novo comandante de quem um dia sonha em voltar a viver bons momentos na Fórmula 1. Enquanto o futuro não vem, Sebastian Vettel só torce para que o calvário que se tornou sua passagem por Maranello nos últimos anos chegue logo ao fim.

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