GUIA 2020: Mercedes é favorita com evolução de carro e revolução com DAS

É assim desde 2014, ano da grande mudança de regulamento que trouxe os motores híbridos V6, que a Fórmula 1 entra em uma temporada já tendo claramente uma franca favorita. Uma vez mais, a Mercedes encanta pela constante busca por perfeição e parece já ter um carro maduro em termos de performance e forte o suficiente para assustar as rivais. Mas há um calcanhar de Aquiles

Parece que a pré-temporada da F1 foi até em outra vida. Mas isso não muda o fato de que a Mercedes continua favorita, apesar do estranho campeonato que se aproxima. 

Diferentemente do aconteceu em 2019, quando viveu duas semanas de testes ardilosos para entender o complexo carro que havia projetado, a Mercedes de 2020 aterrissou agora na distante Barcelona ciente da sólida evolução alcançada com o novo W11. Não à toa, a equipe que mais venceu na Fórmula 1 nos últimos seis anos se impôs com uma naturalidade quase assustadora na Catalunha, fechando as atividades no topo da tabela de tempos. É claro que alguém pode dizer que treino é treino e corrida é corrida, mas há certas premissas que simplesmente não se aplicam à hexacampeã. Excelente desde sempre, a esquadra alemã soube aproveitar bem a estabilidade nas regras para criar um modelo não só superior, como também revolucionário. E isso por si só já revela bem do que é feito o time que carrega a marca da estrela de três pontas. Some-se a isso a decisão de mudar a pintura do carro uma semana antes do início do campeonato. Prata agora dá lugar ao preto, que vem defender as ações contra o racismo.

Como a F1 atravessa em 2020 um ano atípico devido à pandemia, mas também de congelamento das regras – pouquíssimas alterações no regulamento foram feitas, e isso vai valer ainda para 2021 -, a expectativa é de que os carros em geral tenham uma performance imediatamente madura, uma vez que os projetistas tiveram um raro período de testes em 2019, ainda que dentro dos finais de semana de GP, para compreender as falhas e buscar soluções. E esse parece ser exatamente o caso da Mercedes.

Novamente, o time visa, ao menos, repetir o sucesso do último campeonato: se é bem verdade que não teve o melhor carro durante toda a temporada passada, a Mercedes soube tirar proveito do vacilo das adversárias para vencer onde nem era favorita.

A Mercedes decidiu mudar a pintura do carro às vésperas do início da temporada, mas é por uma boa causa (Foto: Mercedes)

De qualquer maneira, o W11 carrega as principais características que fizeram o antecessor levar Lewis Hamilton ao título no ano passado. Ou seja, é um carro que gera downforce e vai muito bem nas curvas de média e baixa velocidade. Durante as ações na pista espanhola, na agora longínqua pré-temporada, não foi difícil observar a estabilidade em curva e, ao mesmo, a velocidade em reta.

O projeto impressiona, de fato, e traz mais novidades que suas rivais diretas, precisamente por integrar soluções revolucionárias em comparação com o conceito anterior. Pode-se dizer que uma das principais novidades também é a adoção de entradas altas dos sidepods. O chassi é estreitado na parte traseira e, com ele, uma instalação precisa da unidade de potência, permitiu o arranjo atual dos radiadores, fortemente inclinados. O objetivo, graças a uma melhor dinâmica de fluidos internos, é reduzir o arrasto que tanto puniu o W10 em reta no ano passado.

No restante, o W11 é pontuado por peças refinadas, como as entradas de ar dos freios dianteiros e os novos suportes de pivô e suspensão. Tudo isso dá a sensação de integração bem-sucedida das novidades, em uma criação de desempenho geral já sólido. As simulações de corrida foram fortes, assim como os giros de classificação.

Lewis Hamilton testando o DAS (Foto: Mercedes)

Mas a equipe chefiada por Toto Wolff não se contentou apenas em aperfeiçoar aquilo que já era muito bom. Mesmo em um último ano de regulamento, os alemães tiveram a ousadia de apresentar um recurso novo e intrigante. O time causou furor na primeira semana de testes, no circuito catalão, quando, pela transmissão, observou-se que Hamilton começou a fazer um movimento incomum com o volante: em vez de simplesmente virá-lo para a esquerda ou para a direita, o hexacampeão usou a reta principal para puxar a peça e, no ponto da frenagem, empurrá-la de volta. O DAS, Direção de Eixo Duplo, como ficou conhecido o inovador sistema, aliás, só ganhou os holofotes porque os testes tiveram cobertura especial da F1, com câmeras on-board. Não fosse isso, talvez passasse despercebido. A intenção foi avaliar o desgaste dos compostos, aderência e velocidade. Se será usado em 2020?

Apenas o tempo dirá, mas fica registrada a bela sacada dos prateados. Bem, a FIA tratou de proibir o dispositivo para o próximo ano.

Só que até a Mercedes também tem lá seus perrengues. Sim, é verdade! Como se sabe um dos grandes trunfos da rival Ferrari, em 2019, foi a força do motor, algo que feriu o ego dos alemães, que por anos dominaram em termos de unidade de potência. Por isso, para esta temporada, houve um trabalho extra em cima do Mercedes-AMG F1 M11 EQ. Mas, ao mesmo tempo, o avanço acabou causando um dorzinha de cabeça em Brackley. Isso porque cinco unidades sofreram problemas, inclusive, deixando Hamilton fora de uma tarde de testes. As falhas, três com a equipe principal e duas com a cliente Williams, ligou a luz de amarela nas garagens, especialmente quanto ao sistema de lubrificação, que causou três dos contratempos – os outros dois estiveram associados ao sistema elétrico. Agora será interessante ver como a Mercedes vai lidar com eventuais contratempos, mas não é de se surpreender que tenha se debruçado sobre isso durante esses meses de pandemia.

O fato é que a Mercedes tem performance e costuma reagir rápido diante de problemas. Tanto é verdade que a equipe foi uma das pioneiras no desenvolvimento de respiradores como forma de auxiliar no combate do novo coronavírus. Em parceria com institutos de pesquisa ingleses, o time foi capaz de produzir dispositivos médicos.

Outro ponto é que a Mercedes também foi a primeira a ir à pista, assim que ficou claro que o campeonato teria início na Áustria, em julho. Na pista de Silverstone, a equipe usou um carro de 2018 para que Hamilton e Valtteri Bottas tirassem a ferrugem de meses. A esquadra também foi a primeira a revela o ‘novo normal’. Ou seja, menor número de pessoas ao redor do carro, máscaras e uma preocupação com a limpeza quase paranoica. 

Lewis Hamilton se reúne com funcionários da Mercedes após primeiras voltas com W09 em Silverstone
Lewis Hamilton se reúne com funcionários da Mercedes após primeiras voltas com W09 em Silverstone (Foto: Mercedes)

O favoritismo da Mercedes também é justificado pela presença de seu hexacampeão. Hamilton continua sendo o elo forte da marca e, pelo que andou em 2019, ainda segue no auge. A presença do inglês é tão forte que a equipe prata, inclusive, decidiu mudar a pintura do W11 às vésperas do início do campeonato.

Cada vez mais envolvida e apoiando o ativismo liderado por Hamilton, o carro de 2020 vem em preto, com detalhes em vermelho e verde. A ideia é promover a diversidade e engrossar o coro contra o racismo. De novo, a Mercedes saí muito à frente de suas rivais.

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