GUIA 2020: Pré-temporada da F1 mantém mistérios, mas deixa força da Mercedes clara

A agora longínqua pré-temporada da F1 em Barcelona teve de tudo, do DAS aos carros ‘cópia’, menos performances conclusivas das equipes de ponta. Dá para imaginar que a Mercedes está mais forte, mas não sabemos o tamanho da vantagem

 

Não há jogo jogado. A frase é famosa no mundo do futebol, onde indica que não dá para dizer quem vai sair vitorioso, mesmo quando há um favorito claro. Serve como motivação para aqueles que estão em posição desfavorável, dependendo quase de intervenção divina para conseguir o resultado que deseja. A frase não costuma ter espaço na Fórmula 1, não muito amigável para zebras, mas pode ser usada para mostrar quem está com o jogo sob controle em 2020: a Mercedes ainda chega ao GP da Áustria como a favorita que tenta se manter concentrada até o fim, enquanto Ferrari e Red Bull precisam apelar quase para o imponderável para sonhar com título até o fim. Ainda que tenha sido disputada há quatro meses, a pré-temporada da F1, mesmo sem indicativos definitivos, reforçou sensações a respeito do trio de ferro. 

Comecemos pela Mercedes, que cumpriu todos os quesitos necessários para começar o ano em alta: andou rápido em volta de classificação, andou rápido em simulação de corrida, andou bastante quase sem problemas mecânicos. Quem olha a pré-temporada prateada só vai poder apontar o motor quebrado de Lewis Hamilton no terceiro dia de atividades como fraquejada. Valtteri Bottas fez o melhor tempo dos testes ainda na primeira semana, e ainda com sensação de que poderia ir além.

Por mais que a Ferrari também não tenha chegado ao limite em Barcelona, fica a sensação de que o teto em Maranello não é tão alto quanto em Brackley. A equipe avermelhada levou mais tempo até engrenar nos testes, passando a primeira semana em Barcelona ora andando de forma conservadora demais, ora na garagem após problemas mecânicos. A segunda semana empolgou mais, com liderança na tabela de tempos e quilometragem digna, mas, tal como em 2019, vai ser pesado começar mais uma temporada precisando buscar a Mercedes na corrida de desenvolvimento. Os italianos ainda terão de lidar com um Sebastian Vettel quase de saída, enquanto Charles Leclerc parece cada vez mais confortável no papel do primeiro piloto.

Lewis Hamilton vai pilotar uma Mercedes que ainda é o carro a ser batido (Foto: Mercedes)

Quando o assunto é Red Bull, tudo fica mais nebuloso. A equipe austríaca não forçou muito o carro nos testes, priorizando voltas com tanque mais cheio. Max Verstappen ensaiou uma volta voadora no último dia, mas um erro no fim impediu uma comparação direta com tempos de Mercedes e Ferrari. O RB16 dá sinais positivos e é bem possível que venha a vencer em algum ponto da temporada, mas ninguém sabe indicar com confiança se será um triunfo, cinco ou dez. O que se sabe é que a equipe seguiu a política de apenas continuar o desenvolvimento do RB15, mas agora contando com um motor Honda progressivamente melhor e um segundo piloto bem mais convincente do que o de 12 meses atrás. Em suma, não faz sentido acreditar que a turma de Milton Keynes vá andar para trás de uma hora para a outra.

O que fica claro, sendo ponto em comum não só entre as equipes de ponta, mas também entre as menores, é que confiabilidade não será problema, e isso é uma grande vantagem em uma temporada bem mais curta. A Mercedes fez 904 voltas, enquanto a equipe que menos andou, a Haas, ainda somou 649. Os quatro motores do grid parecem suficientemente confiáveis, e o mesmo vale para os dez carros. Alguns certamente mais do que outros, mas fica claro que o desenvolvimento dos conjuntos atuais chegou a um novo nível.

E, se a confiabilidade está tão alta assim, fica mais fácil até de tentar coisas diferentes nos carros. Foi o que fez a Mercedes com o DAS, um dos grandes pontos de debate da pré-temporada. O sistema permite que a equipe alemã mude configurações de cambagem diversas vezes durante uma única volta, algo inédito na F1 até hoje. Não demorou para surgir um debate a respeito da legalidade do componente, mas parece que já está tudo bem: a engenhoca só deixa de ser legal em 2021. Equipes rivais já disseram analisar a possibilidade de implementar algo parecido durante 2020, mas os planos não estão claros – mais ainda em um ano tão atípico. E, claro, equipes médias não vão ter orçamento para desenvolver algo que seja legal por apenas uma temporada.

O que não sabemos é quão próximas estão as equipes de ponta (Foto: AFP)

A outra novidade da pré-temporada não é necessariamente um grande avanço tecnológico, e sim uma boa jogada estratégica. A Racing Point apareceu com um RP20 que é essencialmente o W10 da Mercedes de 2019, mas pintado de rosa. Os carros não são perfeitamente iguais, mas a semelhança impressiona. De forma oficial, a explicação da equipe britânica é que, para encaixar a caixa de câmbio comprada da escuderia prateada, faria mais sentido mudar configurações do carro. Ter um bólido com menos ‘rake’, menos alto em relação ao asfalto. Por motivos que os rosáceos não explicaram, resolveram fazer isso esse ano. O que é conveniente, já que provavelmente vai permitir um salto de desempenho para uma equipe que ficou devendo em 2019.

O carro ‘cópia’ representa um marco nas relações entre equipes médias e grandes. É que, ao menos até pouco tempo atrás, havia um esforço para esconder colaborações entre equipes. A Haas sempre negou que estivesse copiando a Ferrari, por exemplo. A Racing Point, por mais que não admita como todas as palavras, não tem medo de dizer que se inspirou.

Como se vê, a pré-temporada rendeu. Barcelona teve mais assunto do que de costume, e olha que esse texto nem chegou a tocar no coronavírus e de como a pandemia mudou a F1. Só que agora, com o GP da Áustria menos de uma semana distante, já fica o alívio de saber que é questão de dias até tudo começar novamente.

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