Na Garagem: Clark humilha rivais e conquista título de 1963 por antecipação

Se há uma temporada capaz de servir como exemplo desse poderio de Jim Clark sobre os rivais, esta é 1963. Naquele ano, o piloto da Lotus foi pole e venceu sete das dez provas do calendário

Apesar da morte prematura aos 32 anos, em 7 de abril de 1968, quando corria de F2 no circuito de Hockenheim, Jim Clark é figura carimbada nas primeiras posições em inúmeros rankings da F1. A alcunha de 'Escocês Voador' é merecida. Clark foi pole em 33 das 73 corridas na F1 (45%) e venceu 25 dessas provas (34%). Apenas Juan Manuel Fangio tem percentual melhor em poles/corridas e, no quesito vitórias/corridas, o escocês só perde para o argentino e para o italiano Alberto Ascari.

 
Clark também é o segundo em percentual de voltas mais rápidas: são 28 na carreira e, novamente, só Fangio o supera nesse item. Ele tinha uma estratégia bem clara de corrida: largar na frente e andar em ritmo alucinante nas primeiras voltas. Assim, ele é também um dos líderes da F1 no quesito corridas vencidas de ponta a ponta: são 13, contra 19 de Ayrton Senna, líder nesse quesito.
 
É também o segundo melhor em corridas com pole, vitória e volta mais rápida: são 11, contra 22 de Michael Schumacher. Mas há um recorde da F1 em poder de Clark capaz de ilustrar a sua dominância na F1 no início dos anos 1960: o grand slam, consistindo em pole, vitória, volta mais rápida e conquista de ponta a ponta da prova: são oito corridas vencidas dessa maneira avassaladora. Schumacher, que vem atrás, tem cinco.
 
Se há uma temporada capaz de servir como exemplo desse poderio do piloto da Lotus sobre os rivais, esta é 1963. Naquele ano, o escocês foi pole e venceu sete das dez provas. Para completar a lista de recordes, marcou a volta mais rápida em seis desses GPs. Triando o GP de Mônaco, no qual Clark foi oitavo, ele foi ao pódio nas outras nove corridas. Não houve a menor disputa com o resto do grid.
Jim Clark e a coroa de flores de Monza (Foto: F1 Facts)
Depois desse mau resultado, Clark enfileirou quatro vitórias seguidas na Bélgica, Holanda, França e Inglaterra. John Surtees, da Ferrari, interrompeu a sequência na Alemanha – Clark foi “apenas” segundo. Após a prova em Nürburgring, a tabela apontava Clark com 42 pontos; Surtees com 22; Richie Ginther, da BRM, com 18; Graham Hill, em outra BRM com apenas 13 pontos. Era questão de tempo para que Clark levasse a taça.
 
Bastava ao escocês da Lotus vencer uma das quatro provas restantes para termos dois títulos inéditos: o de Clark e o da Lotus. Surtees marcou a pole com 1min37s300, interrompendo a série de quatro poles seguidas do escocês. Hill veio 1s2 atrás, com 1min38s500. Clark não treinou bem e marcou 1min39s000. Ginther colocou a segunda BRM na quarta posição, com 1min39s200.
 
Na largada, Hill e Clark pularam na frente, mas ao final da primeira volta, Hill estava na ponta, apesar da ameaça da Ferrari de Surtees. Clark estava de volta ao mesmo terceiro lugar no qual largou. Na volta 4, o ferrarista tomou a ponta de Hill e Clark aproveitou a carona, pulando para o segundo lugar.
Jim Clark guia a Lotus 25 #8 com Colin Chapman de pé no carro (Foto: ClassLife)
Os dois conseguiram abrir distância de Hill, mas, na volta 17, o motor do carro de Surtees explodiu. Era o fim da prova e do sonho de título para o inglês da Ferrari. Hill e Dan Gurney, da Brabham, estavam no encalço de Clark e a liderança trocou de mão 24 vezes em 56 voltas. Na volta 59 das 86 previstas, a transmissão de Hill quebrou, tirando mais um rival da luta pelo título do caminho.
 
Gurney também abandonaria a corrida, apenas cinco voltas depois da desistência de Hill. Ginther, em segundo, precisava vencer a prova para manter acesa a disputa pelo campeonato. Mas ele estava a quase dois minutos de Clark. Desse modo, o escocês se deu ao luxo de tirar o pé para poupar equipamento e evitar uma quebra. Apesar disso, chegou 1min35s na frente do segundo colocado.
Jim Clark e John Surtees brigaram por boa parte da prova – até Surtees abandonar (Foto: Autodivas)
Clark completou as 89 voltas e se sagrou campeão do mundo após 2h24min de corrida – foi a última vez que uma corrida de F1 teve mais de 300 milhas de distância. Depois de três anos amargando o vice-campeonato de equipes, a Lotus era finalmente campeã do Mundial de Construtores. Nos dez anos seguintes, a equipe venceria cinco títulos de pilotos: em 1965 (Clark); 1968 (Hill); 1970 (Jochen Rindt) e 1972 (Emerson Fittipaldi).
 
O título de Clark tem uma forte simbologia. O escocês foi campeão na sétima das dez etapas. Nunca um piloto havia dominado a F1 desse modo. Somente três décadas depois, em 1992, outro piloto venceu o campeonato com tamanha antecipação: foi Nigel Mansell, com a Williams desenhada por Adrian Newey na 11a de 16 etapas. O outro piloto a bater o recorde de antecipação de Clark foi o alemão Michael Schumacher em 2002, na 11a de 17 corridas.
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