Na Garagem: há 23 anos, Senna venceu, mas Mansell enfim se tornava campeão

Nigel Mansell precisou de 180 GPs para finalmente erguer a taça de campeão na F1. Bateu na trave muitas vezes, mas na temporada de 1992 não deu chances a ninguém. E o título veio com um segundo lugar na etapa da Hungria, no dia 16 de agosto

Nigel Mansell é o terceiro na lista de pilotos mais velhos a erguerem a taça de campeões da F1. Apenas Giuseppe Farina, com 43 anos e dez meses, e Juan Manuel Fangio, com 40 anos e quatro meses, eram mais velhos do que Mansell quando ergueram a taça de campeão pela primeira vez. O ‘Leão’ foi o piloto cuja espera foi a mais longa até a conquista do título: o britânico foi campeão apenas em sua 13ª temporada na F1.

Mas quando o título veio, foi de forma arrasadora. Os críticos diziam que Adrian Newey finalmente construíra um carro inquebrável, “à prova de Nigel Mansell”. A frase, deveras maldosa, não fazia jus ao talento e, principalmente, à velocidade e determinação do inglês. Sua capacidade de partir para cima dos rivais, sem se contentar com uma posição que não fosse a liderança, fez dele um piloto adorado pela torcida inglesa.

Antes de Lewis Hamilton, Nigel Mansell havia sido campeão em 1992 (Foto: Getty Images)
Todas as vezes nas quais Mansell efetivamente disputou o título, estava a bordo de uma Williams. Em 1986, a equipe de Sir Frank dividiu forças entre ele e Nelson Piquet e viu Alain Prost levar o título em Adelaide. O inglês acabou no muro após ter um pneu estourado a 19 voltas do fim. No ano seguinte, Mansell venceu seis provas contra apenas três de Nelson Piquet, mas a falta de regularidade do carro custou o titulo ao bravo piloto.
 
Quebras nas três primeiras corridas de 1991 fizeram Senna disparar na tabela. Nas outras 13 provas, o placar foi 72 x 66 em favor de Mansell. Ou seja, era menos culpa de Mansell e mais da Williams e da Renault. Em Phoenix e Interlagos, foi o câmbio, em Montreal e Spa, foi o motor que traiu o inglês. Quando a temporada de 1992 começou, a Williams estava disposta a não cometer os erros do ano anterior.
 
Por mais que o carro fosse fantástico – e o FW 14 de 1992 realmente era –, Mansell dominou a temporada de uma maneira raramente vista na F1, fazendo 14 poles e ganhando nove das 16 corridas. Apenas Alberto Ascari em 1952 (seis vitórias em 8 provas), Jim Clark em 1963 (sete vitórias em dez corridas) , Michael Schumacher em 2004 (13 vitórias em 18 GPs) e Sebastian Vettel em 2013 (13 vitórias em 19 provas) tiveram desempenho similar. Convenhamos, o ‘Leão’ está em ótima companhia.
 
Exceção feita à pole-position de Ayrton Senna no Canadá e à de Riccardo Patrese na Hungria, nas outras 14 provas de 1992 foi Mansell quem partiu na posição de honra. Apenas Vettel, em 2011, conseguiu mais poles em uma mesma temporada: 15 – num carro também desenhado por Adrian Newey. 
 
Mansell também detém um recorde muito difícil de ser superado na F1: em 1992, Nigel marcou 108 pontos e o vice, Patrese, somente 56. É a maior diferença percentual (48%) entre um campeão e o segundo colocado no campeonato em toda a história. Não podemos culpar o carro por essa diferença de desempenho: eles corriam pela mesma equipe. Somente Schumacher conseguiu algo parecido: em 2002, Barrichello foi vice obtendo 53% dos pontos conquistados pelo alemão (144 x 77).
 
Até 16 de agosto de 1992, a F1 havia disputado dez etapas. Mansell havia sido pole em nove e vencido oito dessas corridas. A expectativa era a da conquista mais rápida em uma temporada: caso ganhasse o título na Hungria, Mansell seria o campeão mais precoce de toda a história, com cinco corridas de antecedência. Para efeito de comparação: Clark, o detentor do recorde até então, foi campeão com três corridas de antecipação em 1963.
Senna à frente das Williams de Mansell e Patrese (Foto: ASE)
Ironicamente, a pole nessa corrida histórica da F1 não foi de Mansell. Com o tempo de 1min15s476, Patrese saiu na frente. O piloto britânico foi apenas um décimo de segundo mais lento. Senna foi terceiro no grid, oito décimos atrás do italiano. Schumacher, em seu primeiro ano completo na F1, fazia uma excelente temporada — era terceiro na tabela, nove pontos à frente de Senna. E fechou a segunda fila.
 
Para Mansell, bastava vencer para ser campeão. Mesmo se Patrese fosse segundo, o inglês abriria 50 pontos faltando cinco provas. Ainda que Patrese vencesse as etapas restantes, Mansell seria campeão por ter mais vitórias na temporada. O italiano manteve a ponta, enquanto Mansell freou forte para evitar a batida entre as duas Williams na primeira curva e foi ultrapassado por Ayrton Senna e Gerhard Berger, com as duas McLaren.
 
Lá atrás, muita confusão: Thierry Boutsen, oitavo no grid, e Érik Comas, 11º na largada, ambos da Ligier, colidiram na primeira volta, tirando o time francês da corrida. Um acidente similar já tinha acontecido no Brasil. O incidente também tirou Johnny Herbert, da Lotus, e Gabrielle Tarquini, da pequena Fondmetal, da prova. Para o italiano, ficou a decepção, após largar em um surpreendente 12º lugar no grid.
 
Com mais carro, Mansell não tardou a iniciar uma recuperação: logo na oitava volta passou o austríaco da McLaren. Após deixar Berger para trás, o ‘Leão’ partiu à caça de Senna, mas o brasileiro evitou a ultrapassagem. Na volta 31, uma trapalhada do inglês o levou para fora da pista e Berger recuperou o terceiro lugar. Duas voltas depois, ele passou Berger novamente, assumindo o terceiro lugar na corrida.
 
Tudo indicava que o título não seria decidido na Hungria, mas, na volta 39, Patrese saiu da pista e voltou apenas em sétimo. 16 voltas depois, o motor Renault do italiano abriu o bico, e Mansell agora só precisava do segundo lugar para ser campeão. “Sem correr riscos”, pediu Patrick Head, comandante da Williams, ao Leão. Mansell tirou o pé e viu Senna abrir vantagem.
Ayrton Senna venceu a corrida na Hungria, mas foi Nigel Mansell quem realmente celebrou: o inglês ganhava pela primeira vez o título na F1 (Foto: Reprodução/Twitter)
No entanto, o título não veio fácil. Com um problema no carro, Mansell foi aos pits e voltou em sexto. O inglês precisaria passar quatro carros à frente se quisesse ser campeão ainda na Hungria. Mansell logo alcançou e passou Mika Häkkinen, da Lotus. Contou com a quebra da asa traseira de Schumacher em plena reta para ser quarto colocado – por sorte o alemão não teve um acidente grave após ser tocado por Martin Brundle, seu parceiro de Benetton.
 
Depois disso, com facilidade, o inglês ultrapassou Brundle e Berger para retomar a segunda posição. Senna, com mais de um minuto de vantagem, resolveu trocar os pneus para evitar problemas similares aos enfrentados por Mansell. O brasileiro teve uma vitória inútil – já estava fora da disputa pelo título desde a prova anterior, na Alemanha.
 
Mansell apontou na reta, após Senna, 40 segundos depois. A espera havia acabado: 13 temporadas e 180 GPs depois, Nigel era campeão do mundo. O Leão conquistava o primeiro título da terra da rainha desde James Hunt em 1976. Outros cincos anos iriam se passar até que Damon ganhasse outro título inglês em 1996. A conquista demorou, mas foi categórica: somente em 2002, Schumacher bateu o recorde de antecipação de Mansell. Um prêmio justo para o showman da F1.

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