Na Garagem: Ralf Schumacher vence no Canadá e lidera 1ª dobradinha de irmãos na F1

10 de junho de 2001, exatos 20 anos atrás, foi um dia especial na Fórmula 1. Com Ralf Schumacher em primeiro e Michael Schumacher em segundo no GP do Canadá, a categoria teve a primeira dobradinha de irmãos em sua história

Acidente do líder, erro do campeão e vitória de Pérez: os melhores momentos do GP do Azerbaijão (GRANDE PRÊMIO com Reuters)

Ter um piloto de sucesso na família já é um feito difícil. Quem dirá dois. Aconteceu na família Schumacher, que viu Michael e Ralf brilhando entre os anos 1990 e 2000. Exatos 20 anos atrás, em 10 de junho de 2001, os dois tiveram um momento inesquecível juntos: com o piloto da Williams em primeiro e o da Ferrari em segundo, a Fórmula 1 viu a primeira dobradinha de irmãos em sua história.

A temporada 2001 é lembrada hoje como apenas mais um ano de domínio de Michael Schumacher. E de fato foi, com o alemão sendo campeão com antecedência, mas a primeira metade do campeonato ainda era um tanto embolada. Indo para o Canadá, David Coulthard tinha vencido duas corridas e aparecia 12 pontos atrás do ferrarista. Tinha jogo, mesmo com a pontuação por corrida indo apenas até 10 na época. Em outras palavras, a etapa de Montreal não era apenas um protocolo a ser cumprido rumo ao tetracampeonato de Schumi.

Os treinos livres começaram a deixar isso claro já na sexta-feira, dia 8 de junho de 2001. A McLaren se portou como equipe a ser batida, com Mika Häkkinen fazendo o melhor tempo de todos. A Ferrari, sofrendo com alto consumo de combustível, tinha motivos para se preocupar em uma pista de alta velocidade como a de Montreal.

Michael Schumacher largou na frente e manteve a liderança sobre Ralf (Foto: Ferrari)

Eis que chegou a classificação e a história foi completamente diferente. Schumacher conseguiu um tempo incrível de 1min15s782 e levou a pole-position com 0s515 de vantagem para a concorrência, e sem nem mesmo completar todas as 12 voltas às quais tinha direito. Nem mesmo o futuro heptacampeão conseguia explicar a fórmula do sucesso: “Não sei explicar muito bem o que acontece comigo nesse circuito. Esse traçado não é o meu preferido, mas sempre vou muito bem aqui”.

A primeira fila seria dividida com um velho conhecido: Ralf Schumacher. O caçula hoje é lembrado como um piloto completamente mediano, mas a impressão era outra 20 anos atrás. Depois de atropelar Alex Zanardi em 1999 e Jenson Button em 2000 na Williams, o então jovem piloto repetia a dose contra Juan Pablo Montoya em 2001. O colombiano até parecia ter mais velocidade, mas era mais errático. Além disso, o novo motor BMW tornou o carro pouco confiável. Enquanto Juan Pablo penava, Ralf já tinha garantido sua primeira vitória na F1 em Ímola, poucas semanas antes. As longas retas do Canadá favoreciam a potência da Williams, mas seria necessário cruzar os dedos para o motor não ceder no meio do caminho.

A corrida também viria a ser importante para o público nacional. Um acidente fortíssimo no segundo treino livre tirou Heinz-Harald Frentzen de combate. A Jordan convocou Ricardo Zonta, piloto reserva, para fechar a dupla com Jarno Trulli. Somando o substituto aos titulares Rubens Barrichello, Luciano Burti, Enrique Bernoldi e Tarso Marques, seriam cinco brasileiros no grid. Um recorde, e que até hoje não foi superado.

A corrida veio, e com uma largada não muito emocionante nas primeiras posições. Michael Schumacher liderava, ainda com Ralf Schumacher em segundo e David Coulthard em terceiro. Mais atrás, um acidente entre Nick Heidfeld e Eddie Irvine, mas sem intervenção do safety-car. O caminho estava livre para uma briga entre irmãos.

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Ralf em primeiro, Michael em segundo: a Fórmula 1 teve dobradinha de irmãos 20 anos atrás (Foto: Ferrari)

Barrichello era o terceiro colocado, louco para entrar na briga por aquela que poderia ser a primeira vitória em 2001. Só que não seria possível: uma falha no controle de tração significou que uma rodada na saída do hairpin, levando a uma queda para 14°. Coulthard ficava com vida mais fácil, mas sem velocidade para acompanhar os irmãos à frente.

A briga entre Michael e Ralf cozinhava em banho-maria. Eis que a intervenção do safety-car se fez necessária na volta 21: Barrichello vinha recuperando posições, mas foi surpreendido por um erro de Montoya. O colombiano bateu à frente e o brasileiro, sem tempo de reação, também foi para o muro. Era a chance de ouro para transformar a estratégia padrão de uma parada em duas paradas, mas os ponteiros não toparam. Eram os dias de reabastecimento, por sinal.

Foi só na volta 45 que o jogo começou a esquentar. Michael veio boxes, deixando Ralf com liderança e pista livre. Com tanque quase vazio e pista livre, o caçula tinha a chance de ouro de fazer o overcut funcionar para ganhar posição. Restava saber se os pneus estavam aguentando bem.

O pit-stop veio três voltas depois. Logo ficou claro que, além do carro leve e da pista livre, os pneus da Michelin estavam melhores que os da Bridgestone. Com essa vantagem sobre Ferrari e Michael, Williams e Ralf saltaram para primeiro. Em primeiro, o caçula sobrou e abriu 20s de vantagem.

Foi necessário apenas tomar conta do carro para que Ralf vencesse pela segunda vez em 2001. Michael também evitou riscos desnecessários e levou a um momento histórico: nunca antes na história da Fórmula 1 dois irmãos haviam formado uma dobradinha. Mika Häkkinen completou o pódio, beneficiado pelo motor quebrado de David Coulthard.

Ralf Schumacher dividiu o pódio com dois campeões da F1 (Foto: Ferrari)

A história recebeu ampla cobertura mundial, mas um pouco menos no Brasil – Guga foi tricampeão de Roland Garros no mesmo dia. Chamava atenção não só a improbabilidade de dois irmãos chegarem ao mais alto nível de um esporte de elite, mas também a cordialidade no pós-corrida. Ralf estava obviamente feliz, mas o mesmo era verdade também para Michael.

“Estou muito contente”, disse o futuro heptacampeão. “Esse é um dia muito especial não só para meu irmão mais novo, mas para toda a nossa família. Sempre luto pelas vitórias. Se é para outro piloto vencer, porém, que seja o Ralf”, seguiu.

“Desde a época em que nós dois corríamos de kart, nossas disputas na pista sempre foram honestas. Hoje foi assim de novo”, emendou Ralf.

A dobradinha de irmãos se repetiria mais quatro vezes nos anos seguintes – GPs da França de 2001, do Brasil de 2002, do Canadá de 2003 e do Japão de 2004. Até hoje, nada semelhante chegou perto de acontecer. Nenhum outro par de irmãos apareceu no mesmo grid da F1, quem dirá formou dobradinha.

Claro, um deles se tornaria bem mais sucedido do que o outro. Michael começou a encaminhar o tetracampeonato já em Montreal, onde abriu 18 pontos de vantagem sobre Coulthard. Mais alguns anos e seriam sete canecos. Ralf, por sua vez, viria a penar na briga interna com Montoya. Depois, uma decisão equivocada de ir para a Toyota enterraria as chances de voltar a ser um piloto de ponta. Talvez seja algo frustrante para o caçula, mas isso é o de menos: o feito único de dividir o mais alto nível da F1 com seu irmão mais velho é algo para guardar com carinho na memória.

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