Opinião GP: Acidente de Bearman ratifica temor de pilotos e impõe mudança urgente
A pista de Suzuka expôs de maneira didática todas as falhas do novo regulamento e corroborou a preocupação manifestada pelos pilotos desde o início. E o acidente de Oliver Bearman não pode ser ignorado. Ou a Fórmula 1 promove mudanças para ontem ou vai assumir um risco para qual não está preparada
Foi em meio à efervescência da abertura do campeonato e à surpresa das frenéticas dez voltas do início do GP da Austrália que Lando Norris levantou uma questão incômoda. O campeão vigente viu no novo regulamento não só um caos artificial, mas principalmente um cenário potencialmente perigoso. Norris alertava para a possibilidade de acidentes sérios e riscos aos pilotos. “Dependendo do que aconteça, pode existir uma diferença de velocidade de 30, 40, 50 km/h, e quando alguém bate em outra pessoa nessa velocidade, vai voar, vai passar por cima da cerca e pode se machucar muito, e talvez machucar outras pessoas também. E isso é uma coisa horrível de se pensar”. Foram necessárias apenas três corridas para que esse cenário se tornasse real, ligando de vez o sinal de alerta na Fórmula 1.
O assustador acidente de Oliver Bearman, durante a volta 22 do GP do Japão deste domingo, deixou evidente que há falhas graves no conjunto de regras em 2026. E uma delas é a diferença de velocidade dos carros em determinados momentos e pontos do circuito. Neste caso, a batida aconteceu quando o piloto da Haas se aproximava da curva Spoon, uma das mais notórias do traçado de Suzuka, a uma velocidade de 308 km/h. Só que havia à frente um carro da Alpine, cerca de 50 km/h mais lento, devido ao processo de recarga da energia da unidade de potência.
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Para não acertar Franco Colapinto, Bearman tentou desviar e acabou escapando da pista, atingindo violentamente a barreira de proteção da curva 13, em um impacto de 50G. O piloto inglês deixou o carro cambaleante, mas sem fraturas, apenas dores no joelho direito. O incidente tomou as manchetes rapidamente, ratificando uma preocupação recorrente dos pilotos em relação ao regulamento.
Diretor da Associação de Pilotos da F1 (GPDA), Carlos Sainz reiterou a posição dos competidores e afirmou que era somente uma questão de tempo para um acidente como de Bearman. De fato, outros pilotos também apontaram para a delicada situação envolvendo as diferenças de velocidade, que acontecem por conta do recarregamento do sistema elétrico — que é feito durante as frenagens e em curvas, o que provoca uma queda repentina de velocidade em retas, devido às técnicas para equilibrar a operação do motor a combustão e a bateria.
“Houve muitos momentos importantes nas três primeiras voltas da corrida, enquanto estávamos todos administrando a energia com as velocidades finais que conseguimos com o modo boost. Era apenas uma questão de tempo até que o primeiro acidente acontecesse”, disse o espanhol da Williams, antes de cobrar mudanças.
“O acidente com Bearman hoje era algo sobre o qual os pilotos vinham alertando a FIA e FOM. Espero que a F1 reconsidere e que as equipes não adotem uma postura tão rígida, porque é evidente que esses regulamentos têm brechas e problemas que precisam ser resolvidos antes de irmos para Miami e outros circuitos”, completou.
Acidente de Bearman levantou críticas sobre o regulamento da F1 (Vídeo: F1TV/Reprodução)
Em razão da enorme repercussão da batida do piloto da Haas, a Federação Internacional de Automobilismo se apressou em publicar um comunicado, em que prometeu uma “revisão estruturada” do regulamento técnico durante a pausa da F1 em abril. “Por concepção, esse regulamento inclui uma série de parâmetros ajustáveis, especialmente em relação ao gerenciamento de energia, que permitem otimizações com base em dados reais”, explicou a FIA.
“Tem sido uma posição consistente de todas as partes envolvidas que uma revisão estruturada ocorreria após a fase inicial da temporada, para permitir que dados suficientes fossem coletados e analisados. Por isso, diversas reuniões estão programadas para abril, com o objetivo de avaliar o funcionamento do novo regulamento e determinar se são necessários ajustes”, seguiu.
É o mínimo que a entidade que rege o esporte precisa fazer. Mas há um senso de urgência nisso. Porque havia uma expectativa de mudança após a China, mas a sensação de que a corrida em Xangai havia sido um sucesso em função das trocas frenéticas de posição parece ter ofuscado a necessidade de ajustes. Então, tudo foi adiado. O problema é que Suzuka expôs todas as fragilidades de uma vez só, além da insatisfação geral dos pilotos.
Como se não bastasse, a F1 também enfrenta uma realidade complexa neste sentido, porque não há uma solução simples para tudo, como faz crer o comunicado. O funcionamento da unidade de potência requer outras demandas e não será tão fácil alterar a proporção de 50% entre o trabalho do motor a combustão interna e o sistema elétrico, principalmente porque o primeiro não opera sozinho completamente.
Um exemplo claro disso foi a alteração aprovada para a classificação no Japão. Diante das queixas dos pilotos quanto à volta única e a incapacidade de se atingir o limite da performance, a FIA decidiu reduzir a recuperação máxima de energia para a disputa das posições de largada. Foi uma margem mínima que não fez a menor diferença. Outro ponto é que há conversas para aumentar a taxa de recarga do sistema elétrico, mas isso também poderia afetar as corridas, ampliando as diferenças de velocidade.

Então, as mudanças terão de ser feitas em várias frentes, a curto e médio prazos. E será preciso também que a F1 aceite que terá de tomar decisões difíceis. A segurança é o ponto mais alto dessa discussão, mas há ainda uma compreensão sobre a necessidade de se ouvir a opinião dos pilotos e não só dos fabricantes/categoria. Simplesmente porque não é normal que um dos principais nomes do grid esteja repensando a continuidade na série máxima do esporte, porque as regras não permitem uma pilotagem dentro daquilo que se espera da modalidade maior.
Da mesma forma, é um problema enorme também quando alguém como Fernando Alonso afirma que as “curvas sumiram na F1, porque agora se tornaram pontos de recarregamento de energia”. Ou ainda comentários como de Norris, que disse que não tem mais como planejar uma ultrapassagem, uma vez que o sistema de recuperação trabalha de maneira quase autônoma. “Sinceramente, em alguns momentos da corrida, eu nem queria ultrapassar o Lewis [Hamilton]”, contou, após a etapa japonesa, em que chegou na quinta posição, logo à frente do heptacampeão.
“É só uma questão da bateria descarregar, e eu não quero que isso aconteça, mas não consigo controlar. Então eu ultrapasso de volta, e aí fico sem bateria, e ele simplesmente me passa. Isso não é corrida, é ioiô”, emendou.
“Quando você está à mercê do que a unidade de potência oferece, o piloto deveria estar no controle dela, pelo menos, e nós não estamos. E sim, as corridas podem parecer ótimas na TV, mas a experiência dentro do carro certamente não é tão autêntica quanto deveria ser”, acrescentou Norris.
Lando resumiu bem o sentimento de muitos do grid da Fórmula 1. A verdade é que o regulamento tirou o poder de decisão dos pilotos, tosou o talento e feriu a essência do esporte. “E não adianta falar, honestamente. Não importa o que pilotos digam. Contanto que os fãs estejam gostando, é só isso que importa”, desabafou.
Ainda que tenha defendido o fato de que a corridas se tornaram mais divertidas, o GP do Japão colocou tudo em perspectiva para Hamilton, que compartilhou a visão do compatriota. “Os pilotos não têm voz, não temos poder, não estamos no comitê e não temos direito a voto.”
Dito isso, parece muito claro que há um caminho a seguir. E seria de bom tom a F1 dar ouvido aos seus campeões. O mês de abril será crucial e urgente.
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