Opinião GP: Com tacada de mestre, Red Bull entra no jogo da F1 e mostra que Ferrari e Mercedes são principiantes

Até semana passada, Ferrari e Mercedes comandavam o grande jogo de tabuleiro que virou a F1 2018, mas, com um movimento certeiro no GP da China, a Red Bull provou que é forte o suficiente para entrar na disputa. Já as duas ponteiras precisam aprender com a ousadia dos austríacos

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 A RED BULL ESTÁ NO JOGO DA F1. Finalmente. Desde a pré-temporada, se fala no papel que a Red Bull teria frente às duas primeiras colocadas em 2018. O RB14, agora totalmente assinado pelo mago Adrian Newey, é muito bom, ainda que se tenha como uma ressalva o motor da Renault. A verdade é que os austríacos ainda estavam devendo por: 1) a confiabilidade ainda é o calcanhar de Aquiles e 2) erros de Max Verstappen, especialmente. Mas o GP da China revelou o quanto a equipe dos energéticos pode interferir no jogo de tabuleiro em que duelam Ferrari e Mercedes. O fato é que a Red Bull pensa fora da caixa. Ou seja, faz um jogo perigoso, mas muitas vezes recompensador, principalmente se os adversários dão passos menos atrevidos e mais conversadores, como parece ser o caso neste início de temporada.
 
Em Xangai, a Ferrari se colocou como favorita, assim que Sebastian Vettel e Kimi Räikkönen asseguram a primeira fila, forçando erros de Lewis Hamilton. A Mercedes se perdeu no sábado, em meio às tentativas de entender as dificuldades com os pneus e com as baixas temperaturas. Por isso, decidiu obedecer a uma tática segura: compostos macios e médios para a corrida. A equipe italiana apenas seguiu a rival e optou pela mesmíssima estratégia. A Red Bull, não. Os austríacos apostaram em um ritmo mais veloz no início da corrida, usando os ultramacios. E acreditaram no potencial do carro em desempenho de corrida com os médios. Aqui cabe um parênteses: desde a Austrália, a esquadra dos energéticos vem ensaiando um rendimento eficiente em prova, ainda que tenha sido difícil colocá-lo em prática. Daniel Ricciardo teria sido ao menos quarto no Bahrein, por exemplo.
A largada do GP da China (Foto: AFP)
Verstappen foi bem demais na largada do GP da China e se pôs em terceiro, deixando para trás Räikkönen e Hamilton. Daniel Ricciardo vinha apenas sexto. O ritmo de corrida foi intenso desde o início, mas a Red Bull, como havia mostrado nos treinos livres, acompanhou e não deixou se perder. É verdade que a dupla teve de ir aos boxes antes das rivais e acabou perdendo a posição de Verstappen. Mas o desempenho seguiu forte, mesmo depois dos pit-stops. Parada, aliás, quase que simultânea. 
 
E foram justamente as paradas nos boxes que deixaram evidente a fragilidade de Ferrari e Mercedes. Já perdendo rendimento, a equipe alemã decidiu chamar Hamilton na volta 19 e Bottas na 20. Ambos saíram, conforme o esperado, com os pneus médios. E vieram em uma performance forte. O time vermelho, por sua vez, resolveu esperar. Fez um suspense, e trouxe Vettel bem antes de Räikkönen. O tetracampeão parou no giro 21. A decisão se mostrou errada, porque Bottas conseguiu, então, o chamado ‘undercut’. 
 
Com Bottas à frente de Vettel, a Ferrari manteve Räikkönen na frente com o objetivo de fazer o colega de equipe se aproximar de Valtteri. Até conseguiu, mas o ferrarista não foi capaz de ultrapassar o #77. Novo equivoco dos caras de Maranello. Aí veio o safety-car que mudaria a história da corrida.
Pierre Gasly bateu em Brendon Hartley na China (Foto: Reprodução/TV)
Os destroços do toque entre os carros da Toro Rosso forçaram a intervenção do SC. E foi nessa hora que a Red Bull deu o golpe nas rivais. Bottas e Vettel já estavam na reta quando veio o aviso do carro de segurança, mas os dois pilotos de Christian Horner ainda não. Então, o time agiu rápido, chamou ambos para os pits, mudou para os pneus macios e os devolveu em plenas condições de lutar por posições melhores – pela vitória, principalmente quando ficou claro que as adversárias não reagiram à entrada do carro de segurança. Quem perdeu mais aí foi a Mercedes, que permitiu que Hamilton seguisse na pista com os compostos médios desgastados. A posição do tetracampeão era bem semelhante à dupla da Red Bull, portanto seria plenamente possível uma tática parecida. Quer dizer, os prateados erraram. E deixaram seu principal piloto vulnerável novamente, da mesma maneira que já havia acontecido na Austrália.
 
Hamilton questionou o time uma vez mais. Ainda busca as respostas. Na semana passada, no Bahrein, a Mercedes tentou o pulo do gato, quase deu certo. Mas, neste domingo, vacilou feio com Lewis. Agora nem tem a desculpa de um erro de cálculo. A Ferrari não tinha o que fazer, ao menos não com Vettel, com que já tinha errado antes, porém. Ou seja, a esperteza e a agilidade da Red Bull colocaram as duas principais equipes do grid no chinelo. Quase como duas principiantes. E essa é a grande notícia do fim de semana. 
 
Verstappen e Ricciardo voltaram à pista em quarto e sexto, respectivamente. Era apenas uma questão de tempo a partir daí. Mas o jovem holandês foi com tanta sede ao pote que acabou se envolvendo em incidentes com Hamilton e Vettel. Já Ricciardo pulou de P6 para a líderança em dez voltas. Aí foi só correr para os braços de seus mecânicos.
Daniel Ricciardo usou bem a tática da Red Bull para vencer na China (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)
Embora ainda não tenha o mesmo ritmo de classificação que as duas ponteiras, a Red Bull vence quando o jogo cai em suas mãos. O time tem uma boa leitura de corrida e não tem medo de ousar. Além disso, tem em Daniel Ricciardo alguém que sabe o valor de uma jogada certeira. O australiano não cometeu erros, foi clínico em todas as manobras que fez e alcançou uma das mais brilhantes vitórias de sua carreira na F1. Já Max Verstappen desperdiçou a chance da dobradinha e agora precisa colocar a cabeça no lugar – a equipe austríaca vai precisar dele.
 
O jogo da F1 começa a ficar mais claro a cada prova. Ferrari e Mercedes ainda têm as melhores peças, mas a Red Bull parece guardar para si os movimentos mais precisos. 
Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana de automobilismo.
 

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