Opinião GP: Hamilton iguala números de lendas, mas falta de “rival de verdade” o impede de ser considerado grande na F1

Infinitamente melhor que Nico Rosberg, Lewis Hamilton nadou de braçada nos dois últimos anos de domínio da Mercedes e emendou uma sequência dourada na F1 que, aliado ao título conquistado em 2008, lhe confere a entrada no seleto rol dos tricampeões mundiais. Mas a verdade é que ainda lhe falta um verdadeiro rival. Que, considerando todas as circunstâncias, só pode ser Sebastian Vettel

 
ÀS VÉSPERAS DO INCRÍVEL GP DOS EUA, prova que acabou por coroar Lewis Hamilton como tricampeão de F1, outro tri, Jackie Stewart, disse que o britânico ainda não poderia ser considerado um dos grandes do esporte. “Ele é um piloto de ponta. Mas você não pode usar a palavra ‘grande' enquanto estiver correndo, em minha opinião. Leva anos para obter esse status”, disse o escocês, detentor dos títulos e 1969, 1971 e 1973. Pois o fim da carreira do piloto da Mercedes ainda é algo distante, mas é possível, sim, questionar. Seria Lewis Hamilton já um dos grandes da história da F1?
 
Quando Lewis Carl Alexander Hamilton fez sua estreia no concorrido Mundial de F1, em 2007, pela McLaren, seu companheiro de equipe era ninguém menos que Fernando Alonso, que vinha de um brilhante bicampeonato com a Renault. E o jovem britânico não se intimidou com a presença imponente de quem estava ao seu lado nos boxes e se impôs. Claro, Lewis contava com o decisivo apoio de Ron Dennis. Mas naquela que foi uma das grandes rivalidades recentes da F1, com direito a polêmicas como a classificação do GP da Hungria, Hamilton foi verdadeiramente o único piloto a fazer frente ao espanhol, sendo decisivo para sua saída do time de Woking no fim daquele tumultuado ano.
 
No fim das contas, toda aquela rivalidade acabou por servir de bandeja para que a Ferrari, de forma surpreendente, conquistasse o título em Interlagos com Kimi Räikkönen. Na briga interna entre Hamilton e Alonso, quem perdeu foi a McLaren, que viu a taça do mundo ir para Maranello. Mas Lewis, na queda de braço com uma personalidade do esporte, saiu vencedor.
Rosberg jamais foi um rival à altura para Hamilton na F1 (Foto: Getty Images)
Aí veio 2008. Era o ano da afirmação de Hamilton depois de todo o potencial demonstrado na temporada de estreia. Mas sem a figura incômoda de Alonso ao seu lado nos boxes, devidamente defenestrado pela McLaren, Lewis tinha como companheiro de equipe um inofensivo Heikki Kovalainen. Obviamente, o finlandês não seria páreo para Hamilton, como não foi. Sua maior ameaça estava nos boxes da Ferrari, mas não necessariamente o campeão Räikkönen. 
 
Felipe Massa fez uma temporada soberba e lutou de igual para igual com Hamilton pela taça, desde o começo daquela temporada até a bandeirada final do épico GP do Brasil. Se Alonso foi de fato o seu grande rival na F1 àquela época, Massa tinha em seu favor contra Lewis um grande carro, que o fez ganhar nada menos que seis voltas naquele que foi o melhor campeonato da sua vida, contra cinco do britânico. É bem verdade que Felipe teve a providencial ajuda de Räikkönen em algumas provas, o que Hamilton não poderia dispor de Kovalainen. Tanto que a Ferrari tornou-se campeã mundial dos Construtores em 2008.
 
Mas Massa, que perdeu dramaticamente o título do Mundial depois de ver Lewis ultrapassar a Toyota, não chegou a ser propriamente um rival do britânico. Lutou pelo título até o fim, mas não foi um adversário tão visceral para Hamilton como fora Alonso no ano anterior. Seu primeiro título foi conquistado em 2008 com um ponto de vantagem. Foi a decisão mais apertada da história, e jamais o piloto de Tewin teria tantas dificuldades assim para brigar pelo título.
 
Hamilton só foi verdadeiramente superado em uma temporada por um companheiro de equipe em 2011. Na fase final do seu ciclo na McLaren, Lewis até que viveu uma temporada razoável, vencendo nada menos que três vezes naquele campeonato extremamente apertado. Mas Jenson Button se adaptou melhor a um MP4-26 mais afeito ao seu estilo de pilotagem e, muito mais regular que o compatriota, fez um ano verdadeiramente grande, chegando ao vice-campeonato. Hamilton, por sua vez, foi quinto, sua pior colocação desde quando fez sua estreia na F1.
 
Mas tampouco Button era um rival e sim muito mais um amigo de Hamilton, embora tenha aplicado um verdadeiro ‘vareio’ no compatriota. Depois de ter superado o parceiro em 2012, Lewis surpreendeu o mundo e foi de mala e cuia para a Mercedes para substituir ninguém menos que Michael Schumacher. Sua missão era espinhosa: a luta era contra Nico Rosberg, a quem fora contemporâneo no kart e também nas categorias de base antes da chegada à F1. E Nico vinha com prestígio depois de ter sido superior a Schumacher em todos os últimos anos do heptacampeão na Mercedes.
 
Só que Nico, por mais talento que tenha, não se mostrou um rival verdadeiramente capaz de brigar com Hamilton. É bem verdade que Rosberg fez um grande ano em 2014, sobretudo na primeira parte do campeonato. Ao fim do polêmico GP da Bélgica, que marcou uma das grandes brigas entre os dois, a vantagem do germânico era de quase 30 pontos (220 contra 191). Mas Hamilton virou o jogo depois das férias de verão e venceu seis das sete últimas provas de 2014. Rosberg jamais se portou como uma verdadeira ameaça ao título, que foi logrado por Lewis no GP de Abu Dhabi, o único em que a F1 adotou o sistema de pontuação dobrada.
Sem Alonso, Hamilton ainda precisa de um rival de verdade na carreira. Que só pode ser Vettel (Foto: Getty Images)
Em 2015, Nico fracassou miseravelmente em sua missão de finalmente brigar com Hamilton pela conquista do título. Mesmo tendo conquistado três vitórias no ano, jamais Rosberg se portou como um verdadeiro competidor. Ao contrário: em algumas ocasiões, mostrou ser um grande adepto do 'chororô', como no GP da China, em que acusou o parceiro de andar deliberadamente mais lento para prejudica-lo [aliás, uma acusação descabida e até hoje incompreensível].
 
O episódio da largada do GP do Japão, quando ambos quase se tocaram na curva 1 do circuito de Suzuka, foi mais um motivo de choradeira de Rosberg. E isso se repetiu neste domingo em Austin, com direito até a um leve toque de Hamilton no carro do alemão, mas nada que justificasse uma reclamação como foi feita. E o clamoroso erro cometido no fim da corrida no Texas, quando liderava e ainda tinha chances de adiar para o México a decisão do título, indicava que Nico nunca foi e jamais será um adversário à altura de Lewis.
 
Hamilton entrou para um seleto clube dos tricampeões formado pelo próprio Stewart, Jack Brabham, Niki Lauda, Nelson Piquet e Ayrton Senna. Todos tidos como verdadeiras lendas do esporte. Lewis é tricampeão com todos os méritos, mas será que ele já deve ser considerado um mito, uma lenda das pistas? Será Hamilton já um dos grandes da história?
 
Por mais que tenha alcançado grandes números [43 vitórias, 49 poles, 26 voltas mais rápidas e 84 pódios em 164 GPs disputados], ainda falta algo para Hamilton ser considerado um dos grandes de todos os tempos. Todos os citados acima tiveram em suas carreiras grandes oponentes em boa parte das suas respectivas trajetórias nas pistas. O próprio Ayrton Senna teve de enfrentar pilotos do quilate de Alain Prost, Nelson Piquet, Niki Lauda e, no fim da vida, Michael Schumacher.
 
Ainda falta, definitivamente, um grande rival para Lewis ser de fato tido como um dos grandes de todos os tempos. A impossibilidade de Alonso ser de fato um concorrente direto por vitórias e títulos, visto que o espanhol ainda luta para colocar a McLaren Honda de volta à trilha do sucesso na F1, faz com que só exista de fato um candidato a ocupar esse posto: Rosberg teve dois anos de inúmeras oportunidades e não aproveitou, ‘pipocou’ na hora decisiva, como se diz no jargão futebolístico.
 
Assim, como vem sendo cantado em verso e prosa pelo próprio Hamilton e por boa parte de quem acompanha a F1, é Sebastian Vettel quem aparece para ocupar essa lacuna que falta em sua carreira, a de grande rival nas pistas. Evidente que Seb tem um perfil teoricamente mais conciliador em relação a Alonso, que sempre foi de enfrentamento. Mas é impossível esquecer das tretas protagonizadas por Vettel nas poucas vezes em que foi confrontado por Mark Webber nos seus anos de ouro de Red Bull, entre 2010 e 2013.
O único rival de Hamilton na F1 foi Alonso. Ainda assim, por apenas uma temporada: 2007 (Foto: AP)
Mas para que Vettel seja de fato um oponente de verdade de Hamilton no futuro, talvez já em 2016, tudo vai depender da capacidade da Ferrari construir um carro genuinamente capaz de brigar de fato para quebrar o domínio prateado das duas últimas temporadas. A evolução da Ferrari em 2015 é evidente, e Vettel é um dos grandes pilares deste crescimento, aliado ao comando do carismático Maurizio Arrivabene e da grande curva ascendente de performance do motor turbo construído em Maranello.
 
Mais do que nunca, todos torcem para que Hamilton tenha, finalmente, um rival à sua altura para que o mundo da F1 possa desfrutar de uma grande temporada em 2016. E aí, no embate entre os dois grandes campeões da década, será Lewis contra Seb, tri contra tetra, no último ano da categoria antes da revolução prevista para o Mundial de 2017. 
 
Um embate que seria incrível não só para as carreiras de Hamilton e de Vettel, mas que faria um grande bem para a própria F1.


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