Por ultimato da Force India e até pela sobrevivência na F1, Pérez e Ocon acenam com paz após declaração de guerra

Em última instância, a Force India considera até mesmo suspender ou, indo mais além, substituir sua atual dupla de pilotos caso o clima bélico visto na Bélgica se repita. Não vai ser necessário. Diante da gravidade dos acontecimentos, Sergio Pérez e Esteban Ocon, até pensando na possibilidade de estarem numa equipe de ponta no futuro, sabem que precisam trabalhar bem lado a lado. Queiram ou não

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A incrível luta pelo título entre Sebastian Vettel e Lewis Hamilton em 2017 entrega aos fãs da F1 uma das melhores disputas nos últimos anos, o que era até esperado considerando que os dois são os melhores e mais vitoriosos pilotos da década. Mas outra batalha, e aí no sentido literal, também vem dando o que falar. Sergio Pérez e Esteban Ocon, que passaram a formar a dupla da Force India a partir desta temporada, vêm trocando farpas e se batendo aqui e ali desde o GP do Canadá. Mas a disputa ganhou ares de guerra no último GP da Bélgica, quando os pilotos se chocaram duas vezes e, por muito pouco, não se machucaram com maior seriedade. A polêmica esquentou e ganhou os bastidores e as redes sociais, mas foi abafada após uma prensa da equipe anglo-indiana, que até ameaçou trocar seus pilotos em caso de reincidência. A tendência é que, daqui em diante, os ânimos estejam mais contidos, como sinalizou Ocon.

 
É preciso voltar um pouco no tempo para entender os motivos que levam ‘Checo’ e Ocon a digladiar e colocar em xeque vários bons resultados em potencial da Force India, a equipe que mais evoluiu nos últimos anos graças a dois fatores-chave: o motor Mercedes e ao equilíbrio da sua dupla de pilotos.
 
Pérez chegou à Force India em 2014 após ter fracassado na sua primeira chance em uma equipe de ponta, a McLaren. Depois de um ano razoável de estreia e um 2012 espetacular, ‘Checo’ aceitou a tentadora proposta da lendária equipe de Woking para substituir Lewis Hamilton, que estava de partida para a Mercedes. O mexicano não pensou duas vezes e, mesmo com seu histórico na Ferrari e uma eventual chance de assumir a titularidade em Maranello, assumiu o desafio. 
Novo incidente entre Ocon e Pérez deflagrou clima bélico na Force India (Foto: Reprodução)
Pérez entrou em confronto na pista com Jenson Button, então seu companheiro de equipe, em algumas provas, pecou pela falta de maturidade e não foi bem como um todo. Antes mesmo do fim de 2013, tomou conhecimento da sua dispensa no ano seguinte para dar lugar ao então pupilo da McLaren, Kevin Magnussen. Muito por conta da força dos patrocínios mexicanos, ‘Checo’ conseguiu um lugar na Force India em 2014 e passou a ter o badalado Nico Hülkenberg como novo colega.
 
Em três anos, os dois se relacionaram muito bem e não tiveram nenhuma grande polêmica. Pérez foi muito melhor que Hülkenberg e conquistou quatro pódios neste período: um em 2014, outro em 2015 e dois no ano passado. Mas foi Nico quem ganhou a chance de defender uma equipe de fábrica, a Renault, que o contratou no fim de 2016. Sem vaga em um time de ponta, seu grande sonho, o piloto de Guadalajara teve de se contentar em ficar onde estava. 
 
Para 2017, ‘Checo’ ganhou uma missão: ser o líder da Force India na pista. Tudo porque seu novo companheiro de equipe chegava com apenas nove GPs de experiência no currículo. Mas Esteban Ocon também aportou no time de Silverstone com todo o suporte da Mercedes. Grande revelação francesa dos últimos anos, a ponto de até ter batido Max Verstappen na F3 Europeia em 2014, Ocon chegou à Force India com moral, marcando pontos desde o começo e não demorou muito tempo para andar no mesmo nível do colega.
Até pela sobrevivência na F1, Ocon e Pérez acenam com a paz após declaração de guerra (Foto: Force India)
A Force India voltava a ter uma equilibrada dupla de pilotos. Equilibrada em termos de performance, mas Pérez mostrava na pista seu incômodo com a ascensão de Ocon. Foi assim, por exemplo, que nenhum dos dois quis ceder em disputa direta por posição no GP do Canadá e jogaram pelos ares um pódio que parecia destinado à equipe rósea. Após uma chamada da equipe, os dois voltaram a se bater no GP do Azerbaijão, com o mexicano levando a pior e abandonando a prova em Baku depois de ter despontado até com chance de vitória.
 
Ocon e ‘Checo’ se tocaram de novo na largada do GP da Hungria. Novamente, ninguém quis ceder e, pouco depois, um jogou a culpa no outro pelo incidente. Mas nada que fosse comparado ao que aconteceu no último domingo em Spa-Francorchamps.
 
Na primeira ocorrência na descida da Eau Rouge, Pérez alegou que não viu o rival e o espremeu contra o muro. Situação temerária, para dizer o mínimo, e que colocou a vida de Esteban em risco, com os dois ali a 300 km/h. Na segunda batida, na volta 30 do GP da Bélgica, a cena foi praticamente a mesma. Mas o cenário foi ainda mais perigoso: Pérez levou a pior, teve um pneu furado e teve de abandonar. No choque com Ocon, uma parte da asa do carro do mexicano voou e, por muito pouco, não chegou à arquibancada, o que poderia ter sido ainda mais grave.
Ocon parece ter seu caminho pavimentado para seguir rumo à Mercedes no futuro (Foto: Force India)
Ocon terminou a corrida em nono, comemorou o resultado, mas depois detonou o colega: “Ele quis me matar duas vezes, mas não conseguiu”. Pérez rebateu e disse que não iria comentar nada de cabeça quente para manter uma postura profissional. A Force India interveio, desta vez de forma mais dura, e falou grosso: considerou até suspender ou mesmo substituir seus pilotos em reincidência.
 
Convenhamos, tal cenário é muito difícil de acontecer: Pérez traz muito dinheiro à equipe pelo combo dos patrocinadores oriundos de Carlos Slim; Ocon é pupilo da Mercedes, fornecedora de motores da Force India, de modo que não há muito o que fazer, a não ser empreender o máximo possível de esforço para que os dois possam, pelo menos, conviver em paz.
Pérez ainda sonha em voltar para uma equipe de ponta. Para isso, precisa esfriar os ânimos (Foto: Force India)
Esteban parece ter o destino mais encaminhado. Cedo ou tarde, por tudo o que vem mostrando na pista, vai ter seu lugar na Mercedes. Prestigiado por Toto Wolff, muito mais que Pascal Wehrlein, o francês vem sendo forjado em situações de enorme pressão como a que vive no momento para dar um salto e subir para aquela que hoje é a melhor equipe da F1. Não é algo para agora, talvez em dois ou três anos, mas parece um caminho sem volta para o talentoso francês.
 
O caso de Pérez é bem diferente. Dias antes do GP da Bélgica, ‘Checo’ levou uma ducha de água gelada ao saber que a Ferrari havia renovado com Kimi Räikkönen por pelo menos mais um ano. Inconformado, falou em frustração por ver as portas fechadas em equipes de ponta. Sem lugar na Ferrari, Mercedes ou Red Bull, só lhe resta mesmo a Force India, a melhor dentre as opções para o futuro, embora a Renault, que quase o contratou no passado, desponte como uma alternativa bastante plausível para 2018.
 

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Mas até mesmo a Renault ou outra equipe que tenha a intenção de contratar Pérez no futuro vai considerar tal possibilidade depois dos últimos incidentes com Ocon, em que pese todo o talento e os resultados que o asteca entregou e vem entregando à Force India. O mesmo vale para Esteban. A própria Mercedes já viveu problemas semelhantes não faz muito tempo entre Hamilton e Nico Rosberg, e agora que a paz voltou a reinar em Brackley com a chegada de Valtteri Bottas, Wolff não vai permitir a reedição de uma nova guerra fria nos boxes da equipe.

 
Ainda que mantenham o DNA agressivo, e isso significa que ninguém vai afinar um para o outro, Pérez e Ocon certamente vão pensar muito, mesmo com o calor do momento e a adrenalina da disputa, antes de protagonizarem novo embate na F1. Mais do que o presente na Force India, é a sobrevivência que está em jogo para os dois ‘brigões’.
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