Primeira vitória da Honda, ultrapassagem épica de Mansell e acidente de Senna: fatos marcantes da história do GP do México

Depois de um hiato de 23 anos, o GP do México volta a fazer parte do calendário do Mundial de F1 neste fim de semana no mesmo palco das suas outras 15 edições: o Autódromo Hermanos Rodríguez, que foi remodelado para receber novamente a categoria. O Brasil figurou no topo do pódio apenas uma vez, com Ayrton Senna

Finalmente, depois de longa espera, a F1 volta a desembarcar na Cidade do México para realizar uma etapa do Mundial. Já se vão 23 anos desde a última vez em que a categoria correu diante de 2.300 m de altitude e brindou o torcedor local com o maior espetáculo das pistas ao redor do mundo. Depois daquele 22 de março de 1992, quando Nigel Mansell triunfou no Autódromo Hermanos Rodríguez com sua Williams-Renault FW14b, o público mexicano só conseguiu acompanhar de perto a F1 durante esporádicas exibições. Mas a espera termina neste fim de semana.
 
E Mansell, personagem da última vitória no Hermanos Rodríguez antes deste hiato de mais de duas décadas, é também autor de uma das manobras mais icônicas do circuito mexicano. No fim da penúltima volta do GP do México de 1990, o ‘Leão’, à época na Ferrari, fez uma incrível ultrapassagem na lendária e velocíssima curva Peraltada sobre Gerhard Berger, da McLaren. Por fora. A manobra não só lhe valeu o segundo lugar da corrida, vencida por Alain Prost, mas o eternizou como um dos grandes nomes do GP do México.
 
No ano seguinte, mas nos treinos livres visando a prova, Ayrton Senna, então detentor de dois títulos mundiais, acabou perdendo o controle da sua McLaren na mesma Peraltada — que hoje, em razão das reformas no Hermanos Rodríguez, não existe mais —, escapou de traseira, bateu na barreira de pneus e capotou. O acidente não teve maiores consequências ao brasileiro, no entanto. 
 
Ao longo de sua história, o GP do México foi realizado pela primeira vez, de forma oficial, em 1963, tendo a vitória do mítico Jim Clark. A prova foi realizada até 1970, quando vários incidentes causados por falhas de organização fizeram com que o evento tivesse seu primeiro hiato, que durou 16 anos. A corrida voltou a acontecer em 1986 e marcou a primeira vitória da história da Benetton, com Gerhard Berger. Aí a disputa ocorreu até 1992, culminando com o triunfo de Mansell.
 
Apenas três pilotos venceram o GP do México mais de uma vez: Clark, Mansell e Prost triunfaram em duas oportunidades. Único brasileiro na galeria dos vencedores, Senna venceu em 1989. Na lista dos que subiram no topo do pódio no Hermanos Rodríguez também fazem parte Dan Gurney, Richie Ginther, John Surtees, Graham Hill, Denny Hulme, Jacky Ickx, Riccardo Patrese, além de Berger. 
 
Entre as equipes, predomina o mesmo equilíbrio: Lotus, McLaren e Williams venceram três vezes cada, com a Ferrari vindo na sequência, com dois triunfos. Brabham, Cooper, Benetton e a Honda, que triunfou pela primeira vez na F1 com Ginther, em 1965, também venceram.
 
A corrida sempre foi disputada no mesmo circuito, que foi batizado de Hermanos Rodríguez em homenagem a dois dos maiores pilotos da história do México: os irmãos Ricardo e Pedro Rodríguez — este último sendo o único do país a vencer uma prova na F1. Em 2015, Sergio ‘Checo’ Pérez levará toda a torcida do povo local representando a ascendente Force India neste fim de semana.
 
A seguir, o GRANDE PRÊMIO relembra alguns fatos que marcaram a história do GP do México:
 
 
Clark, o primeiro vencedor 
 
Em 27 de outubro de 1963, portanto há exatos 52 anos e um dia, o México recebia a F1 pela primeira vez de forma oficial. A categoria chegou a realizar uma prova no país um ano antes, porém em caráter extraoficial, quando morreu de forma trágica o jovem Ricardo Rodríguez. 
 
Mas quando a briga foi pra valer, Jim Clark mostrou toda a força do lendário Lotus 25 empurrado com motor Climax para levar a melhor.
Com direito a 'Grand Chelem' Jim Clark venceu o primeiro GP do México da história da F1 (Foto: Forix)
Clark chegava ao México já como campeão do mundo. O lendário britânico garantiu seu primeiro título mundial por antecipação depois de ter vencido o GP da Itália. Pela primeira vez correndo na Capital Federal naquele mês de outubro, Clark não deu chances a ninguém: marcou a pole-position e enfiou quase 2s de vantagem para o segundo colocado, John Surtees, da Ferrari. A corrida foi ainda mais fácil para o britânico, que liderou todas as voltas e marcou a melhor marca da prova, conquistando assim o chamado ‘Grand Chelem’.
 
Com uma aula de pilotagem de um mito do esporte, o México começava muito bem sua trajetória na F1.
 
 
México vê Surtees ser campeão após corrida polêmica
 
Entre 1964 e 1970, o México foi palco da etapa final do Mundial de F1. O posicionamento no calendário ajudava muito para que o país recebesse a decisão do título. E foi justamente o que aconteceu em 1964, quando John Surtees, da Ferrari, brigava diretamente com Graham Hill pela taça de campeão do mundo. Jim Clark também tinha chances, embora bem remotas.
 
Vale lembrar que Surtees já era um verdadeiro ícone do motociclismo, tendo sido tetracampeão mundial nas 500cc e tri nas 350cc. Ele seria, depois do GP do México de 1964, o único ser humano em todos os tempos a ser campeão na F1 e da classe rainha do Mundial de Motovelocidade.
 
Foi uma decisão bem empolgante, já que Hill havia superado Surtees em Watkins Glen e tinha assumido a ponta do campeonato. Para o piloto da Ferrari, era vencer ou vencer no México, além de torcer para Hill ser no máximo terceiro lugar. 
 
Clark conquistou a pole, com Surtees largando em quarto e Hill, sexto. Na largada, nada poderia ter sido pior para Surtees, que despencou para 13º com problemas no motor, e para Hill, que perdeu quatro posições. Clark começava ali seu domínio no circuito mexicano em busca do improvável. Surtees e Hill tinham de fazer o que era possível, ou seja, buscar a recuperação a todo custo.
John Surtees foi o primeiro e único a ser campeão na F1 e na classe rainha do Mundial de Motovelocidade (Foto: Forix/LAT Photographic)
Em 12 voltas, Hill já era o terceiro colocado, enquanto Surtees vinha pouco mais atrás, em quinto. Entre eles, estava Lorenzo Bandini, companheiro de equipe de Surtees na Ferrari e protagonista de uma das grandes polêmicas da F1. Bandini estava próximo de Hill quando, na 31ª volta, ambos se chocaram, e o britânico levou a pior, ficando com seu carro avariado. Quem levou a melhor foi Surtees, que assumiu o terceiro lugar.
 
Três voltas depois, Lorenzo voltava a ocupar o terceiro lugar que era de Surtees. Assim, a ordem da corrida era: Clark, Dan Gurney, Bandini e Surtees, com Hill, praticamente fora da disputa, vindo uma volta atrás, em décimo. Até que, faltando duas voltas para o fim da corrida, o motor Climax de Clark quebra. Gurney assumiu a liderança. E em jogo de equipe da Ferrari, Bandini abriu para Surtees passar e conquistar o resultado que precisava para ser campeão do mundo pela primeira e única vez na F1.
 
 
Ginther, Honda e Goodyear vencem pela primeira vez
 
O dia 24 de outubro de 1965 foi histórico para três personagens: Richie Ginther, norte-americano extremamente promissor, conquistava, no México, sua primeira vitória como piloto de F1. Seria apenas mais um piloto entrando para o rol dos vencedores não fosse por um enorme detalhe, ou melhor, dois: também foi a primeira vitória da Honda como equipe e da Goodyear como fornecedora de pneus.
 
Naquela corrida, a Honda, que havia estreado como equipe na F1 em 1964, conseguiu o melhor desempenho com seu motor V12 graças à altitude de quase 2.300m da Cidade do México, o que acabou por colocar em condições de igualdade o propulsor japonês às marcas dominantes da época. Importante salientar que, até aquele momento, a Honda só tinha somado dois pontos.
Pelas mãos de Richie Ginther, a Honda e a Goodyear venceram pela primeira vez na F1 (Foto: Honda Racing)
Ginther largou em terceiro, mas pulou para primeiro logo na largada, deixando para trás Clark e Gurney. Clark, campeão do mundo também em 1965, enfrentou problemas no motor desde o começo da corrida e abandonou na oitava volta. Aí, no fim das contas, a briga pela vitória ficou mesmo com os dois norte-americanos. Ao fim de 65 voltas, Ginther levou o carro branco e vermelho da Honda à sua primeira vitória na F1, colocando também os pneus Goodyear como vencedores pela primeira vez no Mundial. De quebra, o México via a última dobradinha dos Estados Unidos na categoria.
 
 
Falta de organização marca fim de primeiro ciclo mexicano na F1
 
O GP do México de 1970 foi o último com a presença de um piloto da casa. Pedro Rodríguez era ídolo local e um dos responsáveis por atrair tanto público ao circuito mexicano. Mas em um ano com tantas mortes vividas pela F1, como as perdas de Bruce McLaren e Jochen Rindt, já campeão póstumo da temporada, toda preocupação era mais do que justificável.
 
Fato é que havia cerca de 200 mil pessoas no entorno do autódromo do México. Muitos deles estavam em pontos muito perigosos e perto da pista, como em barrancos e próximos aos guard-rails. Por conta de todo o contexto, o risco de cancelamento da prova era real, mas a organização, temendo uma reação do público, optou por levar a cabo a corrida e pediu mais cuidado aos fanáticos espectadores, levando Rodríguez ao papel de apaziguador dos ânimos.
Um público de mais de 200 mil pessoas acompanhou o GP do México de 1970 (Foto: Forix/LAT Photographic)
Durante a prova, um cachorro acabou escapando para a pista. Jackie Stewart, em alta velocidade, não conseguiu evitar o impacto e acabou por atropelar o pobre animal, encerrando ali sua participação na corrida.
 
No fim das contas, a vitória ficou com Jacky Ickx, da Ferrari, com Clay Regazzoni completando a dobradinha italiana. Rodríguez foi o sexto, e isso bastou para a invasão de pista da multidão mexicana. Mas a FIA, insatisfeita com a falta de organização do GP mexicano, retirou o evento do calendário. Depois do luto do país pela morte de Pedro Rodríguez em uma corrida de turismo pela Ferrari em Norisring, o México só voltaria a receber novamente a F1 16 anos depois.
 
 
No retorno à F1, México vê primeira vitória de Berger e da Benetton
 
Casa de grandes pilotos como Michael Schumacher, Nelson Piquet e Roberto Moreno, a Benetton fez sua estreia de forma oficial como equipe na F1 em 1986 tendo uma dupla bem interessante: Gerhard Berger e Teo Fabi. O que os comandados de Luciano Benetton mal poderiam imaginar é que o time, que contava com os ótimos motores da BMW e pneus Pirelli, conquistassem a primeira vitória ainda naquela temporada.
 
E assim foi. Depois de um ano absolutamente promissor da dupla, a vitória veio com Berger, em grande estilo, no GP do México, o penúltimo da temporada 1986. Foi a primeira conquista do austríaco no Mundial e também da equipe italiana, que viria a ser uma das grandes do seu tempo na F1.
 
O resultado do México acabou, de certa forma, sendo muito importante para Alain Prost. O ‘Professor’ terminou em segundo lugar a prova no autódromo, batizado de Hermanos Rodríguez para homenagear os icônicos Pedro e Ricardo. Assim, graças ao infortúnio das Williams de Nigel Mansell e Nelson Piquet na Austrália, Prost faturou o bicampeonato mundial em Adelaide.
 
 
A única vez do Brasil no topo do pódio no México
 
Depois de ter batido na trave nas vezes em que correu no México, com direito a pole-position em 1986 e 1988, Ayrton Senna finalmente conseguiu encaixar uma corrida com perfeição no Autódromo Hermanos Rodríguez. Em 1989, já como campeão mundial, o brasileiro encarava a quarta etapa da temporada e estava disposto a manter a grande forma depois de emendar duas vitórias consecutivas, em San Marino e em Mônaco.
 
No campeonato, a briga era intensa, já que Senna tinha o mesmo número de pontos de Prost, 18. Assim, um bom resultado no México seria muito importante para a sequência da temporada.
 
E Senna começou avassalador e quase enfiou 1s de vantagem para Prost na briga pela pole-position, igualando o então recorde da estatística, pertencente a Jim Clark. Ao acender da luz verde em 28 de maio para a segunda largada — a primeira foi abortada por um incidente na primeira volta —, Senna seguiu na ponta, com Prost mais atrás. Mas o francês errou na sua escolha de pneus e ficou para trás, caindo para quinto. Melhor para o brasileiro, que venceu com tranquilidade, seguido por Riccardo Patrese, da Williams, e Michele Alboreto, então na Tyrrell.
 
 
Mansell, a Peraltada e uma ultrapassagem para a história
 
Nem de longe a vitória de Alain Prost com a Ferrari no GP do México de 1990 foi tão marcante quanto a conquista do segundo lugar. Que veio na base da raça, de forma leonina. Afinal, o showman da F1 Nigel Mansell foi autor de uma ultrapassagem tida até hoje como uma das mais incríveis da história recente do esporte.
 
Gerhard Berger largou na pole, com Patrese, da Williams, ao seu lado. Senna partiu da terceira posição e dividiu a segunda fila com Mansell. E Alain Prost tinha de remar depois de só conseguir o 13º lugar no grid.
 
Senna ganhou duas posições e pulou na frente no México. O brasileiro dominou praticamente toda a corrida, mas teve de abandonar quando restavam nove voltas para o fim devido a um furo no pneu traseiro direito depois de enfrentar um desequilíbrio na sua McLaren. A liderança, depois de uma incrível recuperação ao longo da prova, acabou ficando com Prost.
 
A grande batalha então era pelo segundo lugar. Mansell ocupava a posição, mas Berger diminuiu a diferença drasticamente depois de o ‘Leão’ perder performance com sua Ferrari. Com três voltas para o fim da corrida, na entrada dos Esses, Berger colocou seu carro por dentro e, na marra, subiu para segundo. Mas Mansell não desistiu, para a alegria dos fãs da F1.
 
Mansell não deixou Berger escapar e o pressionou por mais de uma volta completa. Era um duelo fantástico. Antes de entrar na Peraltada, Mansell pegou o vácuo do carro de Berger, que jogou por dentro. O britânico não teve dúvidas e colocou sua Ferrari por fora para conquistar a segunda posição. “Olha que maluquice!”, narrava Cleber Machado pela TV Globo à época.
 
 
O primeiro de 155: Schumacher debuta no pódio na F1
 
O último GP do México de F1 foi marcado pelo grande domínio dos carros da Williams. No auge com seu motor, a Renault conquistava, com Nigel Mansell, sua 60ª pole-position como fornecedora na categoria. E, de fato, seria um fim de semana totalmente dominado pelos ‘carros de outro planeta’.
 
E falando em motor, a temporada de 1992 representou também o fim de uma longa e vitoriosa parceria entre Honda e McLaren. Depois dos anos de ouro entre 1988 e 1991, a Honda era surrada pela Renault e, além disso, não conseguia acompanhar o ritmo dos ótimos motores da Ford, que empurravam a Benetton. O resultado disso era nítido no grid de largada em 22 de março: na primeira fila, as Williams-Renault de Mansell e Patrese; na segunda, as Benetton-Ford do jovem Michael Schumacher — que fazia apenas seu oitavo GP — e do experiente Martin Brundle. À McLaren, restava a terceira fila, com Berger largando à frente de Ayrton Senna.
Michael Schumacher comemora com Mansell seu primeiro pódio na F1 (Foto: AFP)
Como era esperado, as Williams sumiram na frente, com Mansell controlando bem a vantagem perante Patrese, sem jamais ser ameaçado. Senna largou muito bem e ganhou as posições de Berger, Brundle e Schumacher. Mas o brasileiro abandonou na volta 11 com problemas no câmbio do McLaren MP4/6B. Schumacher assumiu a terceira posição e assim seguiu até o fim.
 
Assim, o último GP do México tinha dois veteranos no pódio, que dividiram lugar com aquele que se tornaria, anos mais tarde, o piloto mais vencedor da F1 em todos os tempos: Michael Schumacher.

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