Renault e Alonso imitam Lakers e Kobe: usam decadência para turnê de despedida

Kobe Bryant se despediu da NBA em 2016 em um time muito fraco: um Los Angeles Lakers que só venceu 17 de 82 jogos. Por isso, aproveitou para fazer uma turnê de festa do adeus. Fernando Alonso volta para uma Renault em situação similar: sem chances de vitória, aproveita para curtir e ser amado pelos fãs

A NBA, liga estadunidense de basquete, tem 82 jogos por temporada para cada time. Ganhar menos de 41 significa, usualmente, eliminação na primeira fase. Menos de 30, disputar meio ano sem chance alguma de classificação. Menos de 20, vexame. Não à toa, a temporada 2016-17 é a pior da história do Los Angeles Lakers: foram só 17 vitórias, e portanto 65 derrotas, para uma equipe dona de 16 títulos.

Mas quase nenhum torcedor da equipe amarela e roxa ligou para isso. Porque, primeiramente, eles sabiam que o time montado era realmente fraco e não iria além de tal campanha. Depois, porque Kobe Bryant, um dos maiores ídolos da franquia, cinco vezes campeão por ela, havia anunciado que tal ano seria o da sua despedida.

Então tornou-se útil o desagradável: uma temporada que não levaria o Lakers para lugar algum, em que os torcedores sofreriam assistindo uma equipe horrorosa perder quase toda noite, se transformou em uma turnê de despedida e celebração para Kobe.

Em vez de chorar ao final de cada jogo de revolta por mais um vexame, os torcedores de Los Angeles passaram a ignorar o placar e vibrar por mais uma chance de assistir a um ídolo jogar. O ápice foi na noite final: 60 pontos para Kobe em uma vitória inútil. Mas foram 60 pontos para Kobe, e o adeus foi feliz.

Kobe Bryant em seu último jogo pelos Lakers (Foto: NBA.com)

Agora, troque Los Angeles pela França, Lakers pela Renault e Kobe Bryant por Fernando Alonso.

Pegou a ideia?

No mês em que completa 39 anos, Alonso poderia brigar até pelo título mundial se estivesse com, por exemplo, a Mercedes. Não vem de lesões (como Kobe, que havia passado pro cirurgia no tendão de aquiles pouco antes da aposentadoria), foi campeão no WEC, venceu Le Mans e aguentou o Rali Dakar com tranquilidade. Mas não é esse o caso.

A terceira passagem com a Renault é com o pior carro que já encontrou, com uma equipe que mesmo com bastante dinheiro parece incapaz de cumprir a promessa que fez ao voltar para a Fórmula 1, que era de brigar pelo título em poucos anos. Já é o quinto ano de retorno e, bem, isso está bastante distante.

Alonso também pensava, quando saiu da categoria ao final de 2018, em voltar só com o novo regulamento, que promete igualar mais as equipes. Porém, com a pandemia, este foi adiado para 2022. Ele vai aguentar um ano inteiro sem chances de brigar por nada?

Como personagem, ele sabe lidar com tal situação: usa as redes sociais como poucos pilotos, provoca, reclama, expõe falhas. Mas se saiu da F1 por não poder lutar pela Mundial, por que voltar nessas condições?

A resposta pode ser apenas a vontade de se despedir.

Fernando Alonso sorri de forma discreta. Aquele sorriso de quem sabe que está aprontando algo (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

E aí tal sentimento cabe na Renault. Porque o fato em comum com o Lakers para os franceses não é só a cor amarela: é o fracasso. E a possibilidade que o fracasso abre de simplesmente virar farra.

Farra no bom sentido: Alonso pode ficar por lá o quanto tempo quiser, que consegue justificativa para toda situação que encontrar. Se só correr em 2021 e parar? Foi a turnê de despedida. Se continuar em 2022 e o carro seguir ruim? Ele tentou o novo regulamento, se não funcionou a culpa é da equipe. Se continuar em 2022 e o carro for bom? Olha lá, acertou. De qualquer forma, o fã de Alonso ganha uma nova chance de festejá-lo, e o torcedor da Renault ganha um motivo para não abandonar o time de vez.

Mas, para a Renault, pode ser o fim da linha. Recolocar um piloto de quase 40 anos na categoria enquanto barra diversos nomes de sua academia, que há mais de uma década não emplaca um jovem na equipe titular da F1 (Romain Grosjean em 2009, pasmem), indica que os franceses cansaram de tentar arrumar a casa e entregaram os pontos.

Cyril Abiteboul já se provou incapaz de liderar uma reviravolta no projeto e, agora, pode se esconder atrás de Alonso enquanto a Renault definha. Se o carro continuar ruim, a história a ser contada é a do espanhol topando tal aventura, e não mais a das falhas do chefe.

Dentro do time amarelo, resta se conformar, como o Lakers, e depois rezar: no caso do time da NBA, LeBron James, um dos maiores da história, resolveu ir jogar por lá logo depois da aposentadoria de Kobe e salvou a franquia; no caso da Renault… Bem, quem salvaria?

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