Retrospectiva 2019: Se deixar F1, Hülkenberg sai como estranho caso de ‘e se?’

A falta de pódios não pode apagar o que os olhos conseguem ver: Nico Hülkenberg é um talento. Deixa a Fórmula 1, entretanto, como um talento que não foi estimulado o bastante durante uma década de desafios abaixo daqueles que eram esperados

Se a temporada 2019 realmente foi a última de Nico Hülkenberg na Fórmula 1, como há ao menos uma chance de que seja, o que podemos tirar como síntese desta década de que o piloto alemão foi de maior promessa até piada pronta para alguns? Em nove temporadas, afinal, Hülkenberg muito fez e, por vezes, muito guiou, mas sai com a indelével marca de zero pódio. Por quê?
 
A primeira coisa a ser entendida, sobretudo para quem não recorda bem da chegada de Hülkenberg à Fórmula 1, é como se deu aquela situação. Nico foi limpando as categorias-satélite degrau por degrau: foi campeão da F-BMW, da A1 GP, da F3 Euro e da GP2 entre 2005 e 2009. 
 
No ano seguinte, estava numa Williams de meio de pelotão e tinha Rubens Barrichello, veterano, como companheiro. A expectativa é que se formava o novo campeão, que seguiria nos passos de Lewis Hamilton, ao estrear com aura parecida alguns anos antes, embora com o apoio de uma equipe de ponta.
 
Hülkenberg não teve um grande primeiro ano, pontuou bem menos que Barrichello, mas mostrou o suficiente, ainda que em flashes, para reforçar a sensação geral de que se tratava de um excelente talento. O grande momento veio no Brasil, quando a impossibilidade de seguir no grid para o ano seguinte já se mostrava evidente: marcou a pole-position. A melhor colocação foi o sexto posto na Hungria. No Brasil, foi oitavo. 
Hülkenberg bateu as Red Bull para a pole no GP do Brasil de 2020 (Foto: Bridgestone)
Entrou em cena outra questão inerente à carreira de Hülkenberg: a falta de grana. Fora do grid em 2011, foi contratado como piloto de testes da Force India – e passou a ser titular em 2012. Chegou a conquistar uma volta mais rápida e superou com sobras o companheiro Paul di Resta antes de rumar para um 2013 com a Sauber. No top-10 do campeonato, marcou quase 50 pontos a mais que o parceiro da vez, Esteban Gutiérrez, e chegou a beliscar o pódio com o quarto lugar do GP da Coreia do Sul. O bom ano na Sauber, com motores Ferrari, levantou a possibilidade de que fosse ele, não Sebastian Vettel, o próximo alemão na escuderia italiana. O azar foi que o velho conhecido Kimi Räikkönen ficou disponível no mercado.
 
O retorno para a Force India, em 2014, marcou os melhores anos da carreira não apenas na F1. Com um carro de pelotão intermediário, mas confiável, fazia o possível e foi liberado para guiar pela Porsche nas 24 Horas de Le Mans de 2015. E venceu, para delírio do paddock do Mundial. Antes disso, em 2014, Hülkenberg superou Sergio Pérez por 37 pontos, mas o mexicano foi ao pódio uma vez, enquanto o alemão apenas namorava o espaço com uma série de quintas colocações; em 2015, a despeito de Le Mans, perdeu para Pérez, que novamente descolou um pódio. Voltou a perder em 2016, quando Sergio subiu a mais dois pódios.
 
Hülkenberg fora ventilado como nome desejado pela Ferrari anos antes e seria ventilado como nome que agradava a Red Bull, mas foi após a temporada 2016 que viveu a grande chance da carreira. Quando Nico Rosberg surpreendeu a todos ao anunciar a aposentadoria apenas alguns dias depois de conquistar o título, a Mercedes procurou Nico. Mas o piloto havia fechado dias antes com a Renault. 
 
Mesmo assim, era uma grande oportunidade de guiar para uma fábrica. A Renault confiara a ele o posto de principal piloto para o crescimento proposto. Nos dois primeiros anos com o time francês, superou com facilidade os companheiros que teve: Jolyon Palmer e Carlos Sainz. O espanhol, sensação de 2019 com a McLaren, foi inferior a Nico: 9 a 6 no placar de pontos das últimas quatro corridas de 2017, quando Sainz trocou a Toro Rosso pelo time francês, e 69 a 62 em 2018.
 
Como uma perdida Renault não evoluiu na velocidade que gostaria, despejou dinheiro no mercado e trouxe Daniel Ricciardo. Ficou claro logo cedo em 2019 que o australiano passou a ser o #1 do time. A situação de Hülkenberg na equipe foi piorando não apenas na pista, mas na relação com chefes e estafe de forma geral, de modo que a saída dele já era tratada como favas contadas quando foi confirmada.
Nico Hülkenberg (Foto: LAT/Forix)
Durante a carreira, Hülkenberg mostrou traços de rebeldia e nem sempre foi a personalidade mais simples de se lidar, ainda que dentro das equipes. Somado a isso estão alguns erros cometidos em momentos-chave onde um grande resultado podia, de fato, chegar. A batida na chuva no GP da Alemanha neste ano ou a colisão com o companheiro Pérez no HP da Hungria de 2014 são exemplos claros. Em ambas as corridas, tinha chance verdadeira de um resultado da carreira. Mas os momentos nunca estiveram lá.
 
Hülkenberg deu azares na carreira, e isso é evidente. A falta de grana foi uma delas, o timing impreciso para selar acordos com as maiores equipes do grid quando havia oportunidade aberta, até a altura dele, 1,84m, levantada como temor em alguns momentos, foram exemplos. Personalidade e erros nem sempre foram impeditivos, mas quando se deterioraram foram dificultadores. 
 
Hülkenberg foi subestimado? Há diferentes tipos de pilotos e de personalidades. Alguns se sentem confortáveis e crescem nas equipes intermediárias, ainda que na rebarba de um grande fracasso em time grande: foi assim com Pérez. Outros, como Valtteri Bottas, não foram feitos para vencer corridas em equipes grandes, ainda que possam contribuir. A sensação que fica com Hülkenberg é que o alemão chegou em seu limite nas brigas que enfrenta no meio do pelotão. Esse é ele: dez anos depois, sabemos quem ele é.
 
Na opinião deste humilde jornalista, que aqui faz esta análise, Hülkenberg segue sendo um nome curioso para ver nas maiores equipes. Em ritmo de pura velocidade, em brigas mais ousadas, com mais a perder, Hülkenberg tem ferramentas mais interessantes para trabalhar do que outros pilotos mais bem-sucedidos de sua geração, como Pérez, Bottas ou Nick Heidfeld, por exemplo. O fato é que a imagem palpável que fica é que ele, embora tenha sido da mesma prateleira que estes outros, fez menos nos anos de F1. E a suposição de que é um piloto com mais a oferecer no mais alto dos níveis fica como apenas isso, uma suposição, um e se?. 
 
Por mais que tenha passado uma década na F1, Hülkenberg sai de cena – caso 2019 tenha sido realmente o fim -, como um das mais estranhas histórias de 'E se?' da F1. Não se trata de um piloto que teve a carreira abreviada, como Robert Kubica, mas foi alguém de talento inegável que, apesar dos anos, nunca pôde ser visto no nível de disputa das principais equipes. Eternamente no meio do pelotão, o que se viu foi uma face única de um piloto que nunca teve a chance real de mostrar amadurecimento. 
Nico Hülkenberg (Foto: Renault)
Durante várias vezes na carreira, Hülkenberg sentiu que foi traído pelas expectativas colocadas nele ainda na década passada. Pode ser que saia de cena como piada, mas será a piada fica em quem não consegue captar as nuances. Nico deixa a F1 uma demonstração viva de como expectativas irreais casadas com carência de oportunidades formam um casamento explosivo. 
 
A falta de pódio não diminui o talento que a prova dos olhos comprova. É por isso que o fim da estrada para Hülkenberg é de certa forma melancólico: o piloto que era diamante bruto para disputar título teve que abandonar a própria forma de pedra preciosa para se transformar num sólido pedaço de cobre – que, nesta metáfora, representa o meio do pelotão – e ligar diferentes pontos em forma de fio condutor. Assim, nunca teve a chance de virar diamante trabalhado e nunca se conformou que as circunstâncias impuseram. Nunca foi o fio condutor mais consistente do mundo, o que não nega, em 2010, 2020 ou 2030 que tenha sido um talento com proporções de time grande. 
 
O futuro não vai fazer justiça a ele, mas também não faz a muita gente. 
 
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