Retrospectiva 2025: Verstappen ameaça virada histórica e se agiganta na derrota

Mesmo sem o melhor carro, Max Verstappen se intrometeu em uma briga por título que deveria ter sido tranquila para a McLaren na F1 2025. Além da evolução da Red Bull, que enfim se mostrou disposta a mudar, o neerlandês deu aula de habilidade, quase consumou virada inacreditável e deixa ano muito maior

A ascensão da McLaren ao posto de melhor equipe da Fórmula 1 aconteceu ainda em 2024, mas a solidificação do projeto papaia como bicho-papão da categoria não se cristalizou até a temporada 2025. E muito a reboque de uma queda vertiginosa da Red Bull, que deixou o posto de time que brigava pelo título para, em determinado momento, tornar-se uma coadjuvante do campeonato. Ainda assim, Max Verstappen deu um voto de confiança, viu a equipe se recuperar e quase consumou a maior virada de todos os tempos na categoria. Não deu, mas o saldo é muito positivo.

Afinal, a derrocada da Red Bull começou mesmo em 2024, com Verstappen líder do Mundial de Pilotos e se protegendo de uma possível aproximação de Lando Norris. O britânico não chegou nem perto de fazer o trabalho, o tetracampeonato foi garantido com direito a uma apresentação lendária no Brasil e a Fórmula 1 partiu para 2025 — ano em que os taurinos realmente passaram a sofrer.

Em meio a uma disputa interna de poder iniciada por Christian Horner, principalmente após a morte do fundador Dietrich Mateschitz, e após a saída de nomes valiosos, como Adrian Newey, Jonathan Wheatley e Will Courteney — que está de malas prontas para a própria McLaren —, o ambiente interno na Red Bull ruiu e o resultado disso pôde ser visto nas pistas.

Verstappen iniciou a temporada 2025 visivelmente atrás da McLaren, que deixou claro logo na Austrália — mesmo com todo o caos da chuva — o poderio do carro. O GP da China trouxe um patamar ainda abaixo, com o quarto lugar, e a abordagem da Red Bull passou a ser outra: focar na classificação, dar a Max a chance de fazer a pole e segurar os concorrentes durante a corrida. Foi assim, aliás, que veio a vitória no GP do Japão — em que os taurinos claramente não tinham o melhor equipamento.

Verstappen lutou sozinho com a McLaren. Perdeu, mas saiu enorme (Foto: Red Bull Content Pool)

O plano foi repetido na Arábia Saudita, após um apagado sexto lugar no Bahrein, mas acabou atrapalhado por uma punição. Em Ímola, mais uma pista de poucas ultrapassagens e na qual a classificação é determinante, Verstappen conquistou novamente a pole e venceu, mesmo sem o melhor carro. E essa foi a história do neerlandês na temporada: tentar extrair tudo do traiçoeiro RB21 para sequer estar na briga com a McLaren.

A ideia, ainda que mantivesse algum nível de competitividade a Verstappen, claramente não seria suficiente para brigar pelo título. As pistas mais travadas favoreciam a habilidade de Max e a capacidade de extrair na classificação, mas certos traçados simplesmente não permitem que carros mais lentos se sobressaiam. Com isso, o neerlandês precisou encarar uma péssima sequência entre Mônaco e Hungria, com apenas um pódio em sete corridas.

Antes mesmo da prova no Hungaroring, porém, o divisor de águas da Red Bull em 2025 veio à tona. A demissão de Horner, anunciada no dia 9 de julho, pegou muita gente de surpresa. A questão é que a imagem do inglês já estava arranhada internamente, principalmente com o lado austríaco dos energéticos — que têm seus principais acionistas na Tailândia. O que o segurava, claro, eram os resultados; quando estes pararam de vir, deixou de fazer sentido ter um chefe que já não conseguia superar o lado ruim com o que mais importava: vitórias.

A chegada de Laurent Mekies, com um perfil totalmente diferente e histórico de engenharia, mudou a forma de trabalhar da Red Bull. Segundo Verstappen, a equipe passou a ouvir mais os feedbacks e cresceu, entendendo melhor como acertar o RB21 a depender do traçado. Algumas atualizações também foram necessárias, e os taurinos inclusive se mantiveram na corrida de 2025 por mais tempo que o esperado — considerando o novo regulamento de 2026 e a mudança de foco geral do grid.

Pois a mudança começou a render frutos a partir da terceira corrida, nos Países Baixos. A quebra de Norris foi determinante, claro, mas o segundo lugar em casa devolveu Verstappen ao pódio e trouxe a sensação de que a temporada poderia terminar de forma digna. Nada, absolutamente nada, havia preparado o público para o que viria a seguir.

Max Verstappen venceu oito corridas em 2025, mais do que qualquer outro (Foto: Red Bull Content Pool)

Aproveitando o fato de ter o melhor piloto do planeta, a Red Bull se encontrou de novo e passou a acumular resultados fortes. A Itália trouxe mais uma vitória, emendada com outro triunfo no Azerbaijão e um pódio em Singapura — pista historicamente difícil para os taurinos. Verstappen voltou a vencer nos Estados Unidos, manteve-se em terceiro no México e no Brasil e finalizou a campanha com três vitórias, em Las Vegas, Catar e Abu Dhabi.

Ou seja: após ir ao top-3 em apenas cinco das 14 primeiras etapas da Fórmula 1 em 2025, Verstappen simplesmente fechou o campeonato com dez pódios seguidos e a sensação de que, houvesse mais uma corrida, o título do Mundial de Pilotos mudaria de dono.

O título não veio, mas Verstappen viveu algo como Ayrton Senna em 1993: sem o melhor carro, mostrou do que realmente é feito e conseguiu até ofuscar, de certa forma, a conquista de Norris. Afinal, mesmo que a taça vá para o inglês, não há uma análise racional possível que o coloque à frente do tetracampeão em termos de habilidade e, principalmente, capacidade emocional.

Ainda que o sonho do penta não tenha sido alcançado, Verstappen e Red Bull viveram uma história bem diferente em 2025, com altos e baixos e um voto de confiança importante do tetracampeão mundial. Ao invés de abandonar o barco no ponto mais baixo, Max seguiu trabalhando, abraçou a chegada de Mekies e viu a equipe responder. No fim, voltou a ter um carro capaz de alcançar o título, mas faltou tempo para conseguir chegar lá. O fato é que a relação entre as partes só parece ter se fortalecido no processo — e quase rendeu um dos títulos mais inacreditáveis da história da Fórmula 1. Mesmo vice, Max deixa 2025 bem maior do que entrou.

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