Sem entregar o máximo para a Ferrari, dúvida fica: por que Räikkönen continua na F1 com contrato renovado?
O piloto finlandês, campeão do mundo em 2007, não atua há tempos no nível necessário e tampouco mostra a vontade cobrada pela escuderia italiana. E mesmo assim, com resultados abaixo do esperado e longe dos rivais da Mercedes, seguirá na F1 na próxima temporada
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Kimi Räikkönen e Daniel Ricciardo vinham em quarto e quinto, respectivamente, e aceleravam na reta principal do circuito de Monza. A transmissão oficial abriu o rádio do piloto da Red Bull, que vinha com boa distância para o ferrarista. "Ele está sozinho. Ele está vulnerável". Antes que a última palavra fosse completada, Räikkönen já havia desacelerado (muito antes da curva) e Ricciardo aproveitou a brecha, se aproximou e passou o rival por dentro, tomando a posição. Na transmissão em inglês, o narrador expressou a surpresa de todos com a rapidez da ultrapassagem – e com a beleza da manobra, claro: "Ele já conseguiu! Por dentro. Ele veio do nada! Räikkönen nem preocupado estava. Brilhante!"
Revendo a passagem incrível de Ricciardo a Raikkonen para P4. #GPItalia @F1?"Raikkonen is alone. He's vulnerable" ??pic.twitter.com/fx1WsxGCWF
— RTP Mundial de F1 (@f1rtp) September 3, 2017
A perplexidade do narrador condiz com o sentimento que todos que torcem para a Ferrari ou simplesmente acompanham a F1 tiveram com o momento do GP da Itália. Claro, a prova de Ricciardo foi brilhante e o firmou como um dos grandes da categoria, mas a falta de ação de Räikkönen foi notória. Por que o finlandês desacelerou tão cedo no fim da reta? Por que ele abriu tanto e deu espaço para o australiano colocar sua Red Bull por dentro?
E, por fim: por que a Ferrari renovou seu contrato para mais uma temporada?

A renovação de contrato do piloto de 38 anos, o mais velho do grid da F1, foi feita no final de agosto e um dos motivos apontados pela Ferrari foi sua experiência e qualidade para ser escudeiro de Vettel. Porém, na pista, não tem se visto isso. Seus melhores resultados em 2017 são dois segundos lugares, em dobradinhas da equipe. E só. Em Monza, por exemplo, chegou a passar Bottas na largada, mas foi ultrapassado pelo compatriota ainda na volta inicial. Como "escudeiro", ajudaria Vettel se segurasse o piloto da Mercedes. Mas não. Bottas ficou em segundo e ajudou Lewis Hamilton a ultrapassar o alemão no Mundial de Pilotos e assumir a liderança pela primeira vez no ano de forma isolada.
Räikkönen tem apenas 138 pontos no Mundial, ficando atrás da Red Bull de Ricciardo. Está quase 60 pontos distante de Bottas, com quem, em teoria, deveria competir de igual para igual. Por sua culpa, a Ferrari aparece com 373 pontos entre os construtores, contra 435 da Mercedes, que deve ficar com o título. A Ferrari, lembrando, que não ganha o Mundial de Pilotos desde 2007, com o próprio finlandês. Se Vettel passar mais um ano sem voltar a ser campeão pela escuderia de seus sonhos, e ver que seu companheiro não ajuda, não pode resolver sair?
"Por toda a corrida tive problemas com o equilíbrio do carro. Nunca me senti bem. Em algumas voltas ficava melhor, mas a maior parte do tempo faltou sentir o grip e ritmo. Não foi um final de semana fácil, estávamos lutando contra as condições, no seco e ainda mais no molhado. Temos que resolver estes problemas para estes tipos de circuito. Estou desapontado com o resultado", disse o finlandês após a corrida em Monza. Reclamou do carro e pediu atitude da equipe. Algo constante na temporada. Parece que ele está cansado do meio da F1. E mesmo assim segue.
No GP da China, por exemplo, foi Sergio Marchionne, presidente da Ferrari, que expôs este sentimento de indiferença de Räikkönen, depois de prova na qual "segurou" Vettel por 11 voltas e fez com que a diferença do alemão para Hamilton subisse 5 segundos. Hamilton venceu e, na ocasião, empatou com Vettel na liderança. Além disso, ficou atrás das duas Red Bull. "Talvez tenhamos que sentar e conversar com Kimi, porque hoje ele pareceu estar com outras coisas na cabeça. Ele estava cansado?", disse Marchionne. Talvez ele esteja cansado, desde então, da F1 no geral.
O próprio Marchionne usou palavra forte para descrever a atuação da Ferrari em Monza: "A diferença entre Mercedes e Ferrari é embaraçosa". Talvez a solução estivesse não só em solucionar possíveis problemas no carro ou motor, mas também em que pilota. Ricciardo, por exemplo, não tem carro para brigar pelo título e faz manobras para cima de Räikkönen com essa facilidade "embaraçosa".

A temporada do finlandês é recheada de reclamações. Na Austrália, na abertura do ano, ficou atrás de Vettel e das duas Mercedes. Culpou os pneus: "Quando entendemos o que fazer era tarde demais. Lutei com meu primeiro jogo de pneus, mas fui melhor com os macios. Mas, aí, já estava longe demais."
Na China, ficou atrás dos dois candidatos ao título e das duas Red Bull. No Bahrein, novamente o pior entre o quarteto com os melhores carros: "Decepcionante, tive uma largada ruim". Foi terceiro na Rússia, mas em prova na qual Bottas venceu – o "segundo" piloto da Mercedes segurou Vettel. Abandonou na largada em Barcelona e jogou a culpa em Bottas: "Tudo começou quando fui acertado por ele". Em Mônaco fez a primeira pole desde 2008 e terminou em segundo – primeiro ponto positivo apenas na sexta corrida do ano, portanto.
Foi para o Canadá e terminou na distante sétima colocação, em corrida apagada na qual culpou os freios. Não pontuou no Azerbaijão e ficou atrás de Vettel, das Mercedes e de Ricciardo, novamente, na Áustria. Foi terceiro em Silverstone, mas reclamou da "falta de ritmo" da equipe. Fez dobradinha na Hungria, mas voltou a ficar atrás de Ricciardo na Bélgica e ainda brigou com Max Verstappen. Por fim, na Itália, nova decepção.
A temporada de Räikkönen é, portanto, constante. Mas da forma negativa. É difícil pinçar situações nas quais estava feliz, sem relcmações e pilotando bem. Conhecido por ser frio, mas carismático por esta razão, parece ter levado o personagem a outro nível. Nível no qual, se quiser ter papel importante na F1, não pode se manter. A frieza está virando preguiça.
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