Punições controversas na GP2 põem em dúvida aprendizado dos pilotos nas categorias de base

Johnny Cecotto Jr. foi excluído da segunda corrida da GP2 em Mônaco, abrindo espaço para uma discussão: o problema foi o erro que ele cometeu ou a consequência de ter tirado outros oito carros da prova?

O GP de Mônaco da F1 tem um cronograma todo especial. Ao contrário das demais etapas do ano, em que os treinos começam na sexta-feira, as atividades no Principado tiveram início na última quinta, já que pilotos e equipes ganharam folga no dia seguinte para poder aproveitar os diversos eventos que acontecem na região. E quem faz a festa acaba sendo a GP2, que se vale do dia sem outra atividade de pista para ganhar atenção extra.

E quem acordou mais cedo na sexta-feira para acompanhar a categoria de acesso não se decepcionou. Ainda que a corrida não tenha sido muito movimentada, um acidente envolvendo 17 carros na primeira curva fez a alegria de quem gosta de ver boas batidas em uma corrida.

Eis a batida em Mônaco (Foto: GP2)

icon_foto As imagens das confusões da GP2

O acidente começou quando Johnny Cecotto Jr., o pole-position, largou mal e foi superado pelo companheiro de equipe, Mitch Evans. Para tentar reverter o prejuízo, o venezuelano decidiu retardar a freada da primeira curva ao máximo, só que ele acabou não conseguindo fazer a tangência e foi parar direto na barreira de pneus. Fabio Leimer, que vinha atrás, acabou batendo, assim como Marcus Ericsson, Tom Dillmann e Kevin Giovesi.

Para tentar evitar o carro de Cecotto, Sam Bird e Kevin Ceccon se enroscaram, mas conseguiram continuar na corrida, enquanto Julián Leal, também na tentativa de desviar do venezuelano, acabou tocando em Jolyon Palmer. O inglês, por sua vez, bloqueou a pista, fazendo com que Alexander Rossi, Robin Frijns, Stefano Coletti, entre outros acabassem coletados no engavetamento.

Como resultado, nove pilotos ficaram fora da corrida, enquanto outros conseguiram retornar ao grid de largada e se preparar para a segunda partida. Além disso, Cecotto foi considerado culpado pelo acidente e acabou excluído da segunda corrida realizada no último fim de semana.

A punição ao piloto da Arden, no entanto, não caiu bem entre os demais competidores da GP2. Fazendo uso das mídias sociais, a maioria considerou que o venezuelano cometeu um erro bobo ao perder o ponto de frenagem e ir parar na barreira de pneus. O resto do acidente acabou sendo apenas consequência.

Se esse tivesse sido o único incidente envolvendo Cecotto nas últimas etapas, talvez os pilotos não reclamassem da punição. O problema é que a própria presença do venezuelano antes da primeira corrida do fim de semana já era questionada. É que na última etapa, em Barcelona, ele já havia jogado o carro para cima de Sergio Canamasas em uma disputa por posições, e os dois se tocaram.

Johnny Cecotto Jr. foi excluído da corrida 2 de Mônaco pelo acidente (Foto: GP2)

Os atletas, os mesmos que defenderam Cecotto em Mônaco, já haviam considerado o venezuelano um piloto “perigoso”, até mesmo pelo histórico de incidentes em que ele se envolveu nos últimos anos, e disseram que ele teve uma atitude antidesportiva e merecia alguma punição. Entretanto, como ele escapou ileso pelo crivo dos comissários, pôde disputar a corrida de Mônaco normalmente. Deu no que deu.

Os dois lances envolvendo o piloto da Arden no intervalo de duas semanas indicam que os comissários da GP2 podem estar usando um critério materialista na hora de aplicar uma punição. Assim, caso um piloto tenha a sua corrida interrompida por outro, então ele toma uma penalização maior. Do contrário, o gancho – se é que há algum – é mais brando.

Até agora, em 2013, a direção da GP2 já aplicou 12 punições nos competidores. A grande maioria segue essa regra. Se um piloto foi vítima de um acidente, então o responsável pelo contato acabou sendo penalizado com maior rigor. Confira os incidentes abaixo:

Malásia:
Sam Bird – Perdeu três posições no grid por bloquear Cecotto na classificação
Johnny Ceccoto Jr. – Foi excluído do treino classificatório por jogar Bird para fora da pista de propósito após ter sido bloqueado
Adrian Quaife-Hobbs – Foi punido em cinco posições no grid da corrida curta por tirar Daniel de  Jong na bateria 1. Ele também abandonou
James Calado – Perdeu 10 posições no grid do Bahrein por causar o acidente que também tirou Bird e Julian Leal na corrida curta

Bahrein:
Sergio Canamasas – Foi excluído da classificação por jogar Kevin Ceccon fora da pista após ter sido bloqueado. Antes, já havia o ameaçado
Kevin Giovesi – Perdeu três posições no grid por bloquear Cecotto

Espanha:
Jolyon Palmer – teve 20s acrescidos no tempo por jogar Bird fora da pista em uma disputa por posição. O piloto da Russian Time acabaria abandonando algumas curvas depois
Sam Bird – perdeu cinco posições no grid da corrida curta por causar o acidente que tirou Marcus Ericsson, então líder, da prova
Nathanaël Berton – Perdeu 10 posições no grid da corrida 2 por atingir a traseira dos carros de Tom Dillmann e Canamasas
Johnny Cecotto Jr. – Não aconteceu nada por jogar o carro para cima de Canamasas deliberadamente, ainda que eles tenham se tocado, mas seguido na pista
Rio Haryanto – Perdeu 10 posições no grid de Mônaco por acertar a traseira de Canamasas na curva seguinte ao lance com Cecotto

Mônaco:
René Binder – perdeu três posições no grid por bloquear Canamasas
Johnny Cecotto Jr. – banido da corrida 2 pelo engavetamento da largada

Os pilotos da GP2 acabam criticados quando chegam à F1 (Foto: Getty Images)

O que o histórico de punições da GP2 neste ano deixa bem claro é que os comissários sempre agem quando um piloto abandona em decorrência de um acidente. A única exceção foi o incidente entre Rio Haryanto e Sergio Canamasas, na corrida curta de Barcelona, mas, naquela prova, o espanhol perdeu a asa traseira do carro e desabou da sexta para a 14ª colocação em uma volta. Caso não estivesse na última volta, o piloto da Caterham teria que deixar a prova.

Ou seja, as decisões dos comissários indicam que não há espaço para considerar um lance como um acidente de corrida. Torna-se até mesmo algo robótico precisar punir um piloto sempre que outro abandona. É claro que uma categoria de acesso precisa ser mais rígida na hora das penalizações até mesmo para educar os pilotos. Só que esse trabalho quase automático não educa. Pelo contrário. Como é feito pela metade, os fiscais rapidamente se livram de sua tarefa, enquanto os competidores ficam com a impressão errada de que o problema é a consequência, não um ato irresponsável.

Não é por acaso, portanto, que existam tantas reclamações atualmente na F1 sobre o comportamento de alguns pilotos. Entre eles, Romain Grosjean, Pastor Maldonado e Sergio Pérez, todos vindos da GP2. Embora muito arrojados, os três vivem sendo alvo de punições e incidentes nas corridas. E isso pode ser uma consequência direta do que aprenderam na categoria de acesso.

Se no campeonato menor jamais seriam punidos por apenas serem afobados, eles podem ter chegado à categoria principal achando que podem fazer de tudo, desde que não acabem com a corrida de um adversário. É por isso, por exemplo, que Jenson Button vive chiando sobre o novo companheiro de equipe e Kimi Räikkönen sugeriu que o mexicano “levasse um soco” para ver se aprende. Se a GP2 estivesse mais preocupada em educar e não em punir automaticamente, talvez Pérez não tivesse recebido a sugestão de uma lição tão drástica.

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