Conta-giro: sem se sentir pressionado, Pedro Piquet parte rumo à Europa em busca de limite e amadurecimento

O bicampeonato da F3 Brasil colocou os holofotes sobre Pedro Piquet, que carrega um sobrenome de muito peso no automobilismo. Passada essa etapa da carreira, o caçula de Nelson Piquet agora parte rumo ao Velho Continente sabendo que será sempre observado, mas garante que não se sente pressionado por isso

Um nome e um carro chamavam a atenção em meio ao grid da primeira corrida da F3 Brasil — categoria de formação de pilotos que substituiu a versão sul-americana — naquele começo de abril de 2014 em Tarumã, no Rio Grande do Sul. Afinal, Pedro Piquet, filho caçula do lendário tricampeão mundial de F1, era a principal estrela de um campeonato recriado para fazer brilhar novos talentos por aqui. À época, aos 15 anos, Pedro tinha à sua disposição um carro inspirador: o Dallara-Berta F309 tinha a mesma pintura e o mesmo #5 usados por Nelson Piquet nos anos em que foi campeão com a Brabham na F1.

 
Bastou a Pedro ir à pista no confronto direto com seus adversários para seu talento vir à tona de modo a imprimir uma performance arrasadora e praticamente irrepreensível. Principal piloto da equipe Cesário F3, chefiada pelo experiente Augusto Cesário, o ‘Formigão’, o mais jovem do clã Piquet não tomou conhecimento dos adversários na temporada. Em 16 corridas disputadas, o novato venceu nada menos que 11 corridas, varreu a concorrência e conquistou o seu primeiro título correndo de carro com duas etapas de antecedência.
 
Com a carreira bem traçada e em nome dos estudos, Piquet optou por fazer mais um ano na F3 Brasil em 2015. E assim como aconteceu no ano anterior, ninguém sequer chegou perto do seu alto nível de pilotagem. Os resultados falam por si só: em 14 corridas disputadas, Pedro só não venceu duas delas. Está invicto desde abril e enfileirou nada menos que 11 triunfos seguidos desde então. O título, naturalmente, veio por antecipação, e o bicampeonato foi comemorado em Campo Grande.
No Brasil, Pedro Piquet viveu a doce rotina das vitórias. Agora, parte para o desafio de correr na F3 Euro (Foto: Luca Bassani)
Dono de um enorme potencial, Piquet agora se prepara para o maior desafio da sua ainda curta carreira nas pistas. Em 2016, o jovem piloto, hoje com 17 anos, vai encarar o sempre forte grid da F3 Europeia. Nesta semana, depois de completar mais uma etapa perfeita na F3 Brasil ao vencer as duas corridas em Curitiba, Pedro embarcou para a Europa para uma bateria de testes com a equipe holandesa Van Amersfoort — time pelo qual correu Max Verstappen em 2014 — nos circuitos de Spielberg, Nürburgring e Spa-Francorchamps.
 
Mas antes de cruzar o Atlântico rumo ao Velho Mundo, Pedro Piquet falou com exclusividade ao GRANDE PRÊMIO e falou muito sobre os anos em que teve seu talento lapidado por aqui. Com serenidade, o mais jovem do laureado clã da velocidade, quase 100% recuperado do fortíssimo acidente sofrido na etapa da Porsche Cup em setembro, parte rumo à Europa ciente de que terá uma atenção maior pelo fato de estar numa categoria de altíssimo nível, mas descartou sentir pressão. 
 
O fundamental para Piquet é aprender e se divertir, mas também evoluir e amadurecer numa categoria que “exige que se ande no limite o tempo todo”. E é em busca deste limite que Pedro segue para a Europa, para “dar o máximo e poder dar alegrias”.
 
Mas antes de começar a acelerar pra valer na F3 Europeia, Piquet destaca a importância que a F3 Brasil teve para ser o alicerce de sua carreira. O brasiliense encontrou um mundo completamente diferente quando passou a correr de carro na categoria.
 
“É um meio muito diferente do kart. Mais profissional, um pouco mais rápido, também um pouco mais perigoso em si”, descreve o piloto, que em pistas como Cascavel, por exemplo, completou voltas com velocidade média acima dos 200 km/h. De fato, era um universo bastante distinto para Piquet.
Bicampeão da F3 Brasil, Pedro tem ao seu lado a maior referência para construir sua carreira nas pistas (Foto: Duda Bairros/Vicar)
“Aprendi de tudo: como abordar a equipe, tirar o máximo possível dentro do carro… no kart, por exemplo, você faz dez treinos no Brasileiro. Aqui, você tem dois treinos livres de 40 minutos. E tem a confiança em carros grandes, também”, salienta Pedro, que lembrou da época em que ainda se preparava para correr na F3 por aqui e no quanto foi ganhando confiança pouco a pouco.
 
“Lembro que em Cascavel, no meu terceiro ou quarto treino com a Cesário, levei dois dias para fazer o Bacião com mínima de 200 km/h. Fazia 190 km/h… na última saída daquele dia eu finalmente fiz a 200. E na última corrida, nesse ano, cheguei a 215. Sabe, é tudo questão da confiança que você tem, e isso vai crescendo ao passo em que você tem mais tempo no carro”, diz.
 
Foi justamente essa confiança o ponto-chave para Piquet voltar às pistas depois do grande susto da sua vida, quando capotou nove vezes depois da largada da etapa de Goiânia da Porsche Cup. Em Curitiba, Pedro, rápido no seco e na chuva, viveu um fim de semana praticamente perfeito. “No começo, foi meio difícil, ainda estava testando o carro. Quando você fica sem treinar muito, você perde um pouco da referência, do domínio do carro. Mas na classificação já estava andando bem e consegui fazer minha melhor volta aqui”, lembra.
 
“Acho que só o tempo em que fiquei parado no carro que prejudicou um pouco. Quando você fica um tempo sem andar, é complicado. A mão ainda está um pouquinho inchada, e isso atrapalhou na corrida, isso exige muita força. E também estava um mês sem fazer exercício físico, então perdi um pouco do preparo. Cansei um pouquinho no fim da corrida, o que não acontece muito. Mas isso só vai melhorar”, acredita.
Piquet brilhou e varreu seus adversários nos dois anos em que correu na F3 Brasil (Foto: Duda Bairros/Vicar)
Na corrida 1 em Curitiba, no sábado, Piquet largou na pole-position, liderou todas as voltas, venceu e ainda marcou a melhor volta da prova, naquilo que é chamado de ‘Grand Chelem’. No domingo, depois de ter largado em sexto em virtude da regra do grid invertido, o piloto da Cesário foi escalando o pelotão até passar o então líder, Artur Fortunato, por fora na Curva Zero e, a partir daí, não ser mais superado para fechar um fim de semana dourado.
 
Pedro ainda não sabe se poderá disputar a última etapa da temporada da F3 Brasil, marcada para 13 de dezembro, em Interlagos, uma vez que aguarda o cronograma de testes na Europa na preparação para 2016. A única coisa que Piquet sabe é que no Velho Mundo o cenário será dramaticamente muito mais desafiador e vai exigir muita maturidade do jovem piloto em busca do seu limite. Mas Pedro trata disso com naturalidade.
 
A F3 Euro, de fato, é um certame dos mais exigentes do automobilismo mundial. As corridas costumam ter grids com mais de 30 carros, de modo que é preciso ser mais que um bom piloto para estar entre os ponteiros. Em 2015, a categoria realizou 11 rodadas triplas e teve como campeão um veterano, Felix Rosenqvist, que estava na F3 Euro desde 2011. Entre os brasileiros, o mineiro Sergio Sette Câmara foi o melhor posicionado. Com uma temporada marcada pela evolução a partir de Spa-Francorchamps, o piloto conquistou dois pódios e terminou em 14º. Pietro Fittipaldi, por sua vez, teve como melhores resultados dois sextos lugares no Algarve, em Portugal, e terminou o campeonato em 17º.
 
Piquet vai para a F3 Euro sabendo que não terá vida fácil. Ao ver o filho conquistar o bicampeonato na F3 Brasil, Nelson Piquet disse que vai ser na Europa que Pedro “vai mostrar se é mesmo diferente”. Para comprovar que é mesmo diferenciado, o jovem tem em mente o caminho das pedras para obter êxito por lá: trabalhar duro e buscar incessantemente o limite.
Nelsão entende que o trabalho do filho na F3 Euro é que vai mostrar se ele é diferenciado (Foto: Duda Bairros/Vicar)
“Lá, diferente da GP3 e da GP2, é uma categoria em que você anda mais no limite o tempo todo. O pneu é mais duro, diferente do Pirelli da F1, que você só consegue andar três voltas fortes e depois acaba. Lá você consegue fazer toda a classificação no limite, tem de andar a corrida inteira, a classificação inteira sempre no limite. Então, vou trabalhar muito nisso”, fala.
 
“E outra coisa: lá, como são mais de 30 carros na pista, às vezes você só tem uma chance de pegar uma volta limpa na classificação, e é nessa volta que você tem de acertar… é isso o que diferencia um piloto bom de um excelente. Um piloto bom vai conseguir acertar essa volta em quatro tentativas. Mas o piloto muito bom consegue fazer isso com apenas uma tentativa. Muitas vezes, um piloto tem o mesmo nível de velocidade do outro, mas este consegue fazer o trabalho bem feito na hora certa”, comenta.
 
Em tese, os anos de domínio de Piquet na F3 Brasil o apontam como a grande promessa do país para o futuro do automobilismo. Claro que o sobrenome famoso o coloca ainda mais em evidência, e isso ficou evidente durante a repercussão do terrível acidente sofrido em Goiânia. Mas o menino Pedro, já com os primeiros sinais de barba no rosto, encara tudo isso com grande tranquilidade e sem sentir qualquer tipo de pressão enquanto caminha para um novo ciclo na carreira.
 
“Fico feliz porque isso traz muita energia boa. Se isso não me ajudar, mal também não vai fazer [risos]. Mas não sinto pressão, não. Vou fazer meu melhor, vou me divertir”, diz Piquet. “Sabe, é uma carreira muito dura, onde você vai ter de ser o melhor sempre. Mas vou fazer o meu máximo para poder dar certo e dar alegrias”, conclui Pedro, sonhando em igualar o pai e o irmão Nelsinho em busca de êxito na F3 no continente europeu. Talento para isso não lhe falta. Como jamais faltou ao clã Piquet.

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