De maneira surpreendente, a temporada 2024 da Fórmula 1 entregou muito mais do que qualquer um estava esperando ver no início do ano. Além de vitórias inesquecíveis, teve também clima de despedida e muitos duelos nas pistas
O GP de Abu Dhabi do último domingo (8) marcou a despedida da temporada 2024 da Fórmula 1. Depois de um início de ano avassalador de Max Verstappen e da Red Bull, a impressão era a de que teríamos uma repetição daquilo que foi visto no ano passado, com um amplo domínio por parte dos taurinos. Mas os crescimentos de McLaren e Ferrari — e alguns lampejos da Mercedes — colocaram lenha na fogueira e presentearam o fã de automobilismo com personagens e histórias inesperadas.
Embora o campeão entre os pilotos tenha sido novamente o dono do RB20 #1, Lando Norris e Oscar Piastri aos trancos e barrancos colocaram o time de Woking no topo da tabela dos construtores pela primeira vez depois de 26 anos. Ao mesmo tempo, Charles Leclerc atingiu um dos maiores objetivos da carreira, enquanto Lewis Hamilton decidiu arrumar as malas e colocar um ponto final no casamento de 12 anos com as Flechas de Prata. De fato, o campeonato que chegou ao fim contou histórias interessantes tanto dentro como fora das pistas.
No 10+ desta semana, o GRANDE PREMIUM relembra os momentos mais marcantes da categoria principal do automobilismo em 2024.
Crise interna na Red Bull

Nem mesmo os melhores roteiristas imaginariam que a Red Bull viveria uma crise tão grande em 2024. Depois de vencer 21 das 22 corridas disputadas no certame anterior, a escuderia dos energéticos navegava por mares calmos até o momento em que a tormenta chegou. E tudo começou por causa de Christian Horner, chefe da equipe, que logo no início de fevereiro, antes mesmo de os carros irem à pista para os testes de pré-temporada, virou alvo de investigação interna após ter sido acusado de “comportamento inapropriado” por uma das funcionárias do grupo.
A questão é que o ‘Caso Horner’ ficou pairando sobre o paddock ao longo de muitos meses, o que acabou prejudicando o próprio desempenho dos taurinos, já que alguns nomes importantes do corpo técnico acabaram abandonando o barco, incluindo Adrian Newey, anunciado na Aston Martin no início de setembro, e Jonathan Wheatley, que arrumou as malas para se tornar chefe do projeto da Audi já a partir do próximo ano. E foi o próprio Helmut Marko, consultor da equipe, quem admitiu que o clima tenso na fábrica teve influência em tais saídas.
Vale lembrar que até mesmo Jos Verstappen, pai de Max, falou publicamente contra Horner e a guerra de poder que foi revelada a partir de toda confusão. Foi apenas no início de agosto que a Red Bull decidiu varrer toda a situação para debaixo do tapete e manteve o dirigente no cargo.
Vitória de Lando Norris no GP de Miami

Após uma longa espera de seis anos, Norris finalmente conseguiu subir no degrau mais alto do pódio na Fórmula 1. Depois de largar apenas na quinta posição, o britânico soube tirar proveito do único safety-car da corrida — acionado por causa do incidente entre Kevin Magnussen e Logan Sargeant na volta 29 — para ir aos boxes e efetuar a troca de pneus, já que era o único que ainda não havia realizado o pit-stop.
É claro que o erro da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) em autorizar a entrada do carro de segurança somente depois da passagem do #4 pela linha de chegada e, desta forma, posicioná-lo erroneamente à frente de Verstappen ajudou muito Lando. De qualquer maneira, o piloto de 25 anos apresentou um ótimo ritmo no restante da prova e cruzou a linha de chegada com mais de 7s6 de vantagem sobre o rival da Red Bull.
Mas além da vitória de Norris, o triunfo no circuito localizado nos arredores do Hard Rock Stadium marcou o início da reviravolta da McLaren no campeonato. Com muitas atualizações no MCL38, os papaias estavam 115 pontos atrás dos taurinos naquele momento, mas continuaram acertando no desenvolvimento do bólido até finalmente quebrar o jejum de títulos no último domingo, em Abu Dhabi.
Vitória de Charles Leclerc no GP de Mônaco

O fim de uma maldição. Um dos maiores talentos do grid atual, Leclerc finalmente desencantou e realizou um sonho que já havia sido adiado em algumas oportunidades: vencer o GP de Mônaco. Como era esperado, a corrida nas ruas apertadas de Monte Carlo foi uma das mais sonolentas da temporada 2024, e nem mesmo os incidentes envolvendo Magnussen e Sergio Pérez, logo na largada, e Esteban Ocon e Pierre Gasly, pouco antes da entrada do túnel, conseguiram mudar isso.
Para se ter uma ideia, os pilotos do top-10 cruzaram a linha de chegada exatamente nas mesmas posições em que haviam largado. Foi uma prova tática, sem grandes surpresas e nenhuma emoção, de fato. Mas se valeu de algo, com certeza foi o fato de o monegasco de 27 anos ter ficado realmente emocionado.
Tretas entre Max Verstappen e Lando Norris
Com o crescimento da McLaren no campeonato, Norris se deparou com a oportunidade de duelar de igual para igual — e até com um carro melhor na maior parte das vezes — contra Verstappen na briga pelo título do Mundial de Pilotos. E o primeiro encontro mais polêmico entre eles foi no GP da Áustria, realizado no fim de junho, quando ambos brigavam pela vitória no Red Bull Ring.
Na ocasião, depois de estudar os movimentos do #1 durante muitas voltas, o britânico finalmente tentou uma manobra mais agressiva no giro 64. Mas sem sucesso. No fim, ambos foram prejudicados: Max foi aos boxes e conseguiu retornar para terminar a etapa na quinta posição — mesmo recebendo 10s de punição —, enquanto Lando teve de abandonar. Não tendo nada a ver com a história, George Russell tirou proveito da situação e colocou a Mercedes no degrau mais alto do pódio pela primeira vez na temporada.
Meses depois, já no fim de outubro, ambos voltaram a se encontrar no GP dos Estados Unidos. Desta vez, ninguém levou a pior, embora Norris tenha sido punido com 5s por ultrapassar o rival por fora dos limites de pista e, por isso, perdido a terceira posição no fim. Na semana seguinte, na Cidade do México, foi Verstappen quem levou 20s de sanção por ter se defendido de maneira agressiva contra o inglês.
Vitória de Lewis Hamilton no GP da Inglaterra

Exatos 945 dias após a vitória no GP da Arábia Saudita de 2021, Hamilton voltou a cruzar a linha de chegada na primeira posição no GP da Inglaterra, em julho. Depois de largar da segunda posição e ter de encarar uma corrida completamente imprevisível, com a chuva se tornando um fator determinante, o heptacampeão fez o bastante para superar o eterno rival Verstappen e Norris e, assim, angariou o 104º triunfo de uma das carreiras mais bem-sucedidas do esporte.
Com direito a muito choro e um abraço do pai, Anthony Hamilton, a comemoração em Silverstone se tornou um dos momentos mais marcantes da temporada e da história, também.
Vitória de Oscar Piastri no GP da Hungria

Piastri demorou apenas 35 corridas para conquistar a primeira vitória na Fórmula 1, no GP da Hungria, realizado em julho. Em um momento do campeonato marcado pelo crescimento exponencial da McLaren, o australiano largou em segundo, atacou Norris logo nos primeiros metros e assumiu a ponta. O #81 fez o dever de casa e controlou muito bem a situação, mas foi a equipe laranja quem se atrapalhou toda e quase acabou com o sonho do rapaz.
Na volta 46, a escuderia comandada por Andrea Stella chamou Norris, então segundo colocado, aos boxes para efetuar a troca de pneus. Piastri, que era o líder, só foi ordenado a parar duas voltas mais tarde, o que o fez tomar um undercut do próprio companheiro. A partir deste momento, a McLaren teve de negociar com Lando para que deixasse Oscar ultrapassá-lo, em uma tentativa de corrigir o próprio erro. Depois de muito pensar, o britânico cedeu.
Vitória de Charles Leclerc no GP da Itália

Existe alguma atmosfera mais fervorosa na Fórmula 1 do que quando um piloto da Ferrari vence o GP da Itália? Bem, Leclerc sabe muito bem como é se sentir nos braços do povo italiano. Contra qualquer prognóstico frente a uma McLaren mais uma vez soberana ao longo de todo o fim de semana, o dono da SF-24 #16 mostrou todo o talento ao driblar Norris e Piastri e efetuar apenas uma parada nos boxes em Monza, enquanto a dupla rival efetuou duas trocas de pneus. Vitória gigantesca!
Além da alegria vermelha que tomou conta do circuito, algo chamou muita atenção na corrida: a “regra papaia” imposta pela McLaren aos seus pilotos. Naquela altura do certame, Lando ainda sonhava em se aproximar de Verstappen e tinha uma baita oportunidade de fazê-lo em terras italianas, já que o neerlandês da Red Bull estava sofrendo para lidar com o RB20 e terminou apenas em sexto.
Saindo da pole-position, Norris foi ultrapassado por Piastri e Leclerc ainda na primeira volta, e assim seguiu até o fim, com o monegasco puxando a fila e o australiano e o britânico completando o pódio, respectivamente. Sem qualquer ordem para que houvesse a inversão das posições, o time papaia liberou a disputa entre os companheiros, mas de maneira limpa — uma permissão que ficou publicamente conhecida como “papaya rules”.
Pódio no GP de São Paulo

E o GP de São Paulo mais uma vez presenteou o fã de automobilismo com uma corrida para lá de maluca. Na verdade, teve de tudo no fim de semana. Por causa das fortes chuvas que atingiram o autódromo de Interlagos no sábado, a classificação acabou sendo adiada para a manhã de domingo, no mesmo dia da corrida principal, algo que não acontecia desde o GP do Japão de 2019.
Após a definição do grid de largada, ficou conhecido que Norris largaria da pole-position, enquanto Verstappen teria de começar do 17º lugar — fruto de um azar na classificação e de uma punição por troca da unidade de potência. Era a chance do britânico descontar um caminhão de pontos e esquentar de vez a batalha pelo Mundial de Pilotos. Mas não foi o que aconteceu.
Debaixo de chuva, o agora tetracampeão mundial foi escalando o grid volta após volta e, claro, esperou pela óbvia bandeira vermelha que daria as caras em algum momento para conseguir chegar às primeiras posições. Depois, precisou apenas ultrapassar Ocon para receber a bandeira quadriculada em primeiro lugar e praticamente colocar um ponto final no campeonato. Além dele, a dupla francesa da Alpine, formada pelo próprio Esteban e por Gasly, completou o pódio em São Paulo. Histórico!
Tetracampeonato de Max Verstappen

Bem, após a gigantesca vitória no Brasil, o tetracampeonato de Verstappen virou, de fato, uma mera questão de tempo. E a conquista veio na corrida seguinte, em Las Vegas. A matemática era simples: o #1 basicamente teria de terminar à frente de Norris para liquidar de vez as chances do rival. Dito e feito.
Em um fim de semana em que a McLaren teve muitas dificuldades e a Mercedes, por outro lado, tirou proveito das baixas temperaturas nas ruas da Cidade do Pecado para subir no degrau mais alto do pódio com Russell, Max soube usar muito bem a cabeça e foi inteligente: ficou longe de problemas e apenas marcou Lando o tempo inteiro. Tanto é verdade que ele praticamente abriu passagem para Hamilton, Sainz e Leclerc e terminou em quinto, uma posição acima do britânico do time papaia.
Com o objetivo alcançado, Verstappen levantou o quarto troféu da carreira e igualou o número de títulos de Alain Prost e Sebastian Vettel. Apenas Juan Manuel Fangio (5), Michael Schumacher (7) e Hamilton (7) conquistaram mais na Fórmula 1.
Despedidas no GP de Abu Dhabi
Além da disputa final entre McLaren e Ferrari pelo título do Mundial de Construtores, o GP de Abu Dhabi do último fim de semana ficou marcado por uma série de despedidas. Enquanto alguns disseram adeus à Fórmula 1, como Magnussen, Bottas e Guanyu Zhou, outros se preparavam para mudar de equipe em 2025, como foi o caso de Nico Hülkenberg, Sainz e, claro, Hamilton.
Como não poderia ser diferente, os holofotes estavam principalmente em cima do heptacampeão, que decidiu arrumar as malas e terminar um relacionamento de 12 anos com as Flechas de Prata — o mais longevo e bem-sucedido da história da categoria. E teve de tudo: choro, mensagens de carinho e uma baita performance na pista. Sim, Lewis chegou a pensar que a corrida em Yas Marina estaria arruinada depois de ser eliminado no Q1 da classificação e ter de largar da 16ª posição. Ledo engano. Com uma performance primorosa, escalou o pelotão e cruzou a linha de chegada em quarto.
O futuro time de Hamilton, no entanto, até tentou, mas teve de se contentar com o vice-campeonato entre as equipes. A segunda e terceira posições de Sainz e Leclerc, respectivamente, foi o máximo que os italianos puderam fazer, mas não o suficiente para superar a McLaren, que quebrou um jejum de 26 anos sem o título de Construtores.
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