Na Garagem: Zanardi perde as duas pernas após acidente em prova da Indy na Alemanha

São exatos 20 anos desde que Alessandro Zanardi sofreu o acidente que poderia tê-lo matado. A amputação das duas pernas nem foi uma decisão médica, após a batida em 'T' com Alex Tagliani no Lausitzring: foi instantânea. Ao sobreviver e construir uma segunda vida vencedora sem jamais reclamar da sorte, Zanardi virou uma lenda

OS 20 ANOS DO ACIDENTE DE ZANARDI NA INDY: QUANDO O PILOTO VIRA MAIS QUE UM ÍDOLO
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O dia 15 de setembro de 2001 foi um dos mais tristes do automobilismo mundial no século 21. Um acidente de enormes proporções mudou completamente os rumos da reta final da carreira de Alessandro Zanardi, uma das grandes lendas que a Indy já teve.

Veterano, prestes a completar 35 anos, Zanardi fazia a temporada de retorno aos EUA, na época ainda de Champ Car, após uma passagem frustrada pela Fórmula 1, com a Williams. A volta se dava com a modesta Mo Nunn, formando dupla com o jovem Tony Kanaan.

E a temporada de Alex não era das mais fortes. Bicampeão da Indy em 1997 e 1998 pela Ganassi, o italiano sentia a readaptação à categoria e, principalmente, a diferença que encontrava em performance na Mo Nunn. Depois de 14 corridas, não tinha nenhum pódio e só três top-10: Motegi, Toronto e Chicago.

Alex Zanardi não vinha bem na temporada antes do acidente na Alemanha (Foto: Honda)

O campeonato, então, chegava à Alemanha, para a primeira corrida da história da série americana na Europa. Originalmente, a prova se chamaria German 500, mantendo o padrão de falar do lugar em que acontecia e a distância percorrida. No entanto, os planos mudaram drasticamente dois dias antes do início do evento.

11 de setembro de 2001. A data já fala por si, qualquer um imediatamente associa aos ataques terroristas às Torres Gêmeas e que, como consequência, tiveram uma sequência de eventos cancelados. NFL, MLB e Nascar foram algumas das ligas que adiaram suas atrações daquele fim de semana. A Indy, não.

A categoria prestou uma série de homenagens, fez doações de US$ 500 mil ao World Trade Center e, de quebra, alterou o nome da prova: a German 500 virou American Memorial, algo que nem precisa muito de tradução. Na corrida em si, mudança alguma planejada, mas uma forçada: a chuva no sábado fez a organização cancelar a classificação e largar com um grid baseado na tabela de pontos da temporada.

Alex Zanardi sofreu acidente na Alemanha (Foto: Honda)

O acidente que mudaria a vida de todo mundo

Gil de Ferran, assim, saiu da pole, com Kenny Bräck e Helio Castroneves na sequência. Zanardi, com a temporada apagada que fazia, partiu do 22º posto. Mas o jogo parecia que iria virar na Alemanha. Em uma corrida marcada por muitos abandonos por falhas técnicas, Alex surgiu no grupo da frente.

Zanardi liderava a corrida, seguido de perto por Kanaan e Bräck. Com 13 voltas para o final, o italiano parou nos boxes para o último pit-stop. Quando voltou, algo errado no carro. A traseira parecia solta e acabou descontrolada. Quando tentou reacelerar, Alex foi no gramado e invadiu a pista, ainda rodando. Sem ter como evitar, Alex Tagliani acertou a Mo Nunn em cheio na posição de ‘T’, a mais perigosa do automobilismo.

Minutos depois, o então chefe da equipe médica na Indy, Steve Olvey, falou ao vivo na transmissão de TV que Zanardi havia “sofrido lesões graves em suas extremidades inferiores e imensa perda de sangue”. Não dava para esperar, porém, que as “lesões graves” significavam que as duas pernas do italiano haviam explodido no momento da pancada: a esquerda inteira, a direita, do joelho para baixo.

Ao chegar no hospital em Berlim após uma viagem de helicóptero, foram constatadas também uma concussão e fratura da pélvis. Certamente as outras lesões não preocupavam tanto no momento. Afinal, Alex sofreu sete paradas cardíacas e ficou com menos de 25% de sangue no corpo. Foi necessária uma cirurgia de três horas apenas para fechar as feridas abertas num lugar onde antes havia um par de pernas.

Oito dias em coma, dezenas de cirurgias e uma vida recuperada depois, Zanardi acordou garantindo que não pensou em morrer, se matar, sem nem se desesperar sobre o que faria da vida. E foi assim que viveu como uma lenda dali em diante, deixando o hospital Berlim-Marzahn em 30 de outubro.

O GRANDE PRÊMIO, então, conversou com alguns dos envolvidos na corrida que mudou completamente carreira e vida de Zanardi. Christian Fittipaldi, que abandonou com sua Newman-Haas, e Castroneves, 12º de Penske, contaram as lembranças daquele 15 de setembro.

Helio Castroneves lembrou do clima que havia pelo 11 de setembro (Foto: Honda)

Helio Castroneves e a semana em que tudo deu errado

“O clima todo estava muito pesado já antes. Foi logo depois do 11 de setembro, ninguém tinha informação direito dos EUA, estávamos na Alemanha, foi duro, se falava em guerra, ainda mais porque estávamos em um local que foi destruído na Segunda Guerra Mundial. Aí veio a corrida e era bem complicada a pista, um oval meio plano, enfim, lembro que deu o acidente e vi muito pedaço de carro espalhado, e isso é o primeiro sinal de que foi sério”, disse Helio.

“Quando vi o cockpit pela metade, tirei o olho logo para não ver nada ruim. Mas logo tinha chegado a equipe médica e eu olhei para aquilo. Achava aquilo tudo impossível, metade do corpo do Zanardi teria sumido? A sensação foi horrível. Deram a bandeira vermelha e era o que tinha de ser feito mesmo, foi horrível aquilo. Graças a Deus, os médicos foram excelentes e salvaram a vida do Zanardi”, seguiu.

“Aquilo fez a Indy repensar algumas coisas, para evitar aquilo. Uma delas foi colocar uma placa de ferro na lateral, reforçando ali, mesmo que ficasse mais pesado. Foi uma sequência de evoluções depois daquilo. Mas foram dia e semana muito complicados, foi tudo muito complicado”, completou Castroneves.

Christian Fittipaldi lembrou a sensação ao ver o estrago com Alex Zanardi (Foto: Peter Burke)

Christian Fittipaldi e a ‘gelada’ com o estrago no carro de Zanardi

“Lembro de entrar na reta dos boxes e não estar longe de tudo quando aconteceu. Foi na janela de paradas, todo mundo fazendo seus pit-stops, o grid realinhando. Quando eu saí da curva 4, meu spotter, que era o Brian Lyles, gritou desesperado no rádio, ele viu tudo. E era um cara super calmo, raramente se exaltava, mas ali ele estava gritando muito: ‘freia, freia, freia, pelo amor de Deus’. Eu me assustei, na hora imaginei que tinha dado alguma coisa grande no fim da reta. Quando passei pela batida na primeira vez, nem olhei direito. Aquela tensão, já se sabia que o acidente tinha sido sério, a única coisa que eu vi foi aquele monte de gente em volta e eu lembro de procurar o carro do Tagliani ali. Quando achei, reparei que não tinha ninguém em volta do carro dele. Foi aí que percebi o tamanho da gravidade com o Zanardi, todo mundo estava lá”, disse Christian.

“Na volta seguinte, todo mundo já estava passando pelos boxes, mas lembro que a segunda vez que eu passei pelo Zanardi, não dá para imaginar a quantidade de sangue que tinha em volta, ali na parte da frente do carro. Lembro de olhar com canto de olho direito e gelei muito na hora, tanto que eu nem lembro se aquela corrida voltou mais. Acho que sim”, seguiu.

“O ambiente nos boxes estava bem parecido com Fontana, o da batida do Greg Moore. Apesar dele ter sobrevivido, todo mundo tinha certeza que ele não estaria conosco hoje em dia. Era aquele clima, tensão, todo mundo meio que se preparando para receber a notícia, como se fosse uma questão de tempo. Por um milagre, acabou sendo completamente diferente, para a alegria de todo mundo. E ele conseguiu depois ter uma vida de vencedor triplo: venceu na vida em uma situação completamente diferente da que tinha. Sem dúvida nenhuma, um grande campeão na luta pela vida”, completou Fittipaldi.

Zanardi segue em recuperação após o grave acidente sofrido em uma competição em junho de 2020 (Foto: AFP)

O pós-acidente e a vitória na luta pela vida

Após um ano de hiato, em que a pista alemã não teve como receber a categoria por problemas financeiros, a Indy deu a Alex um carro adaptado para acelerar as 13 voltas que deixara pelo caminho em 2001. Zanardi acelerou – e para valer. Acelerou tanto que, tivesse feito seu melhor tempo daquela demonstração no treino de classificação de dois anos antes, teria largado em quinto.

Entre projetar suas próprias próteses, voltar a ser piloto e buscar uma carreira incrivelmente laureada no ciclismo paralímpico – que o deu quatro medalhas de ouro -, Zanardi deixou de ser apenas uma figura esportiva. Virou uma personalidade da vida, uma definição precisa do que é ser um ídolo.

Em junho de 2020, Zanardi viu de novo a morte de perto. E escapou. Alessandro competia com uma bicicleta adaptada quando se envolveu em forte acidente com um caminhão em Pienza, na Itália. De lá para cá, viveu momentos delicados, passou por procedimentos cirúrgicos, mas seguiu firme na recuperação até hoje, acordado e se comunicando com a família em uma clínica italiana.

O 15 de setembro de 2001, exatos 20 anos atrás, tinha tudo para tirar a vida de Zanardi. Não tirou. Deu a Alex uma vida nova, uma segunda vida. Deu ao mundo um exemplo. Tirou Zanardi do mundo dos atletas e colocou no Olimpo dos heróis.

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