S&G – Tony 300: “Eu sempre me cuidei para ter uma carreira longa”

Indianápolis será o palco da corrida de número 300 da carreira de Tony Kanaan. E o lugar não poderia ser melhor: foi lá que o brasileiro, hoje na Ganassi, conquistou a maior vitória de sua história no automobilismo. Kanaan tem também no currículo o título de 2004, mas a prova no oval mais famoso do mundo ainda provoca emoções diferentes. “Sempre será a maior da minha carreira”

Não fosse o cancelamento da etapa do Brasil em 2015, Tony Kanaan não teria a honra de chegar à corrida de número 300 da vitoriosa carreira justamente no palco em que se consagrou na Indy. Portanto, neste fim de semana, o brasileiro da Ganassi terá a chance de fazer história em uma das provas mais importantes do mundo: as 500 Milhas de Indianápolis. Não poderia ser mais emblemático para uma trajetória que começou ainda no fim da década de 1990.

A Indy 500 tem um papel especial na vida de Kanaan. Foi lá que o piloto de 40 anos obteve a vitória mais importante da carreira, em 2013, e que marcou uma virada em sua vida profissional nos EUA, já que, no fim daquele ano, Tony ainda fecharia contrato com uma das mais icônicas equipes da história do esporte a motor norte-americano.

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Ao todo, Kanaan soma 16 triunfos na Indy, 66 lugares no pódio e 12 pole-positions, além, é claro, do valioso título de 2004, quando completou todas as voltas de todas as provas daquela temporada. O brasileiro ainda defendeu a Tasman, Mo Nunn e Forsythe na época da Champ Car, entre1998 e 2002. Na Indy propriamente, Tony andou pela Andretti, KV e agora a Ganassi.

Às vésperas da simbólica marca, o GRANDE PRÊMIO conversou com o baiano. Tony fez uma avaliação da carreira, falou também da atual fase e do futuro. Kanaan se disse feliz e orgulho do que construiu em anos de esporte, mas ressaltou que nada veio por sorte, tudo foi resultado de trabalho duro, estresse e dedicação.

Tony Kanaan posa com a Ganassi antes da classificação em Indy. O brasileiro vai celebrar 300 corridas na Indy 500 (Foto: Ganassi)

Confira a entrevista:

GRANDE PRÊMIO: O que significa alcançar a marca de 300 corridas na Indy?

TONY KANAAN:

Na verdade, é engraçado porque a gente não fica contando quantas corridas tem… Mas aí começamos a falar disso no ano passado e é muito legal, além de ser uma coincidência muito grande ser aqui, em Indianápolis, porque se tivesse tido a corrida do Brasil, não teria sido nas 500 Milhas agora. Mas, para mim, é uma marca importantíssima. O que posso dizer é que o tempo passa muito rápido… E aí você pensa: 'Nossa, já são 300 corridas'. Quer dizer, é algo muito especial e que mostra que eu não estou aqui por sorte, que tenho o meu valor, o trabalho e a dedicação. E é por isso que estou aqui até hoje.

Lá no início, imaginava uma carreira tão longa?

Eu sempre me cuidei para isso. Agora dizer que imaginava é mais complicado, porque é algo muito difícil de prever, porque é uma carreira em que você nunca sabe o que pode acontecer. Mas eu sempre me cuidei para ter uma carreira muito longa. Então, digamos que sim, eu imaginei.

E das 300 corridas que você comemora neste fim de semana, eu imagino que a Indy 500 seja a corrida mais importante de todas elas?

Ah sim, sem dúvida. Na verdade, essa vitória foi muito maior que o título. O título é uma coisa grande, mas acho que o que realmente conta são as 500 Milhas de Indianápolis, especialmente aqui nos EUA. Acho que ter conquistado os dois é algo incrível, dizer que tem os dois triunfos é legal para caramba. Mas, com certeza, a Indy 500 foi a maior vitória da minha carreira. E vai ser sempre a maior vitória da minha carreira.

Tony Kanaan celebra conquista em Indianápolis em 2013, quando defendia a KV (Foto: Carsten Horst)

E as 500 Milhas deste ano? A Ganassi parece muito mais forte do que em 2015…

A classificação para nós foi muitíssimo forte. Vamos largar na pole e na segunda fila. A equipe melhorou demais em relação ao ano passado, porque nós largamos em 11º e 16º. O carro está muito bom agora e muito mais rápido. E eu estou bem confiante, acho que neste ano eu estou em uma posição tão boa quanto eu estava em 2013, se não um pouco melhor. Ou mesmo em outros anos quando eu estive aqui lutando pela vitória com a Andretti.

Os treinos foram bem mais tumultuados neste ano com relação ao ano passado, com os acidentes fortes do Helio Castroneves, do Josef Newgarden e do James Hinchcliffe nesta última semana. Como você viu essa sequência e o que deu para tirar dessas batidas todas?

Na verdade, foram acidentes completamente diferentes. E de causas diferentes. O do Hinchcliffe, que foi o mais impressionante, foi provocado por uma peça que quebrou, e isso foi culpa da equipe. Era uma peça velha que eles estavam usando. Quer dizer, não é uma questão de segurança como um todo. Foi um problema de falta de atenção da equipe. Com relação aos outros acidentes, um foi por causa de um pneu furado e os outros dois estavam tentando apenas acertar o carro para ter um bom desempenho em classificação.

Mas, assim, acidentes acontecem. A Indy sempre foi pioneira em termos de segurança, foram eles que inventaram o soft-wall… A gente sabe que tem alguma coisa acontecendo, porque nas pancadas mais fortes os carros estão mesmo virando de cabeça para baixo. Mas não é uma coisa que a gente consiga detectar nos próximos três dias, mas temos a confiança olhando os dados da telemetria dos três acidentes.

 
De qualquer forma, é difícil você prever ou tentar prever um acidente. Então, a gente só vai saber mesmo depois que acontece um acidente. E é assim não só com os carros de corrida, mas também com os carros de rua. A gente está investigando tudo, inclusive, eu sou o presidente da Associação dos Pilotos, e estamos muito em cima da Indy em relação a isso. E eu me sinto completamente confortável em te dizer que, com todas as informações que a gente tem, a gente tem um carro seguro o suficiente para a corrida. E isso com toda a certeza.

Nesta semana, você deu uma declaração falando que o automobilismo é um esporte de risco. 'Mesmo sendo de risco’, dizer isso não acaba colocando para baixo do tapete a provável existência de algum problema? Você tá totalmente confortável com seu carro diante do que aconteceu?

Acho que não. Eu acho que Indianápolis vai ser sempre Indianápolis e, quando você fala em andar a 400 km/h, sempre será perigoso. Por isso, eu tenho total tranquilidade em te dizer que não estamos escondendo nada e que não estamos achando que algo pior pode acontecer. Mas foi o que falei nessa semana. Corrida sempre foi algo perigoso. Agora se eu achasse que corro qualquer risco de vida devido à negligência ou à irresponsabilidade algumas das pessoas que constroem o carro ou são da categoria, eu seria o primeiro a pensar na minha vida pessoal e parar de fazer o que estou fazendo. Então, eu não acho que tenha risco nenhum. Pelo contrário, acho que estamos cada vez mais aprimorando a segurança dos carros. E, infelizmente, às vezes, para as coisas melhorarem, algo assim precisa acontecer. É assim que é a tecnologia. Já tiveram vários acidentes de F1… Aí tiveram os acidentes fatais do Roland Ratzenberger e do Ayrton Senna para eles mudarem mesmo as coisas. Isso é o automobilismo.

O acidente de Hinchcliffe em Indianápolis – o canadense machucou a perna na batida (Foto: AP)

Você ficou, então, satisfeito com as decisões tomadas pela Indy, principalmente com relação à configuração dos carros e o próprio formato da classificação?

Foi um dia muito tenso, na verdade (classificação). Mas, no fim, a gente apoiou a categoria, que decidiu tirar um pouco de potência e colocar um pouco mais asa. Isso porque a gente realmente não sabia o que estava acontecendo. Então, como precaução, nós reduzimos a velocidade, que foi o que aconteceu. Eu acho que não foi o ideal, mas foi uma decisão sensata.

A VIDA QUE COMEÇA AOS 40

Além da boa fase que atravessa profissionalmente, Tony Kanaan acabou de se tornar pai pela segunda vez. No início de janeiro, o piloto anunciou o nascimento de Deco, fruto de seu casamento com a repórter norte-americana Lauren Bohlander. O menino, que veio “super programado”, já mudou a rotina de Tony e ajudou, junto com o mais velho, Leonardo, a imprimir um ritmo de vida menos estressante.

Ao falar da vida que começa aos 40 — Kanaan completou quatro décadas de vida em dezembro último —, Tony cai na risada. Mas logo fala sério e acha que a idade traz a maturidade suficiente para curtir a vida, enxergar aquilo que realmente importa e parar com a mania de querer controlar aquilo que não pode ser controlado.

O piloto da Ganassi disse viver um grande momento em que finalmente entendeu que pode conciliar o trabalho, a família e a curtição sem pressão ou estresse. E que “sobra tempo para tudo”.

Eu estou curtindo muito meu filho Léo, que tem sete anos e está crescendo muito.  Eu pude dar ao Léo uma das coisas mais preciosas, tirando, claro, o amor de pai, é que eu sempre quis ser pai, até por ter perdido o meu muito cedo. Mas essa vitória em Indianápolis, eu pude curtir com ele. Ele tem o troféu de Indianápolis na casa dele. E agora eu tenho Deco, que acabou de chegar. Veio super programado. Mesmo. Porque a ideia era nascer mesmo fora da temporada e deu tudo certo.

Ele veio também em um momento muito legal, porque além de aproveitar os meus primeiros meses de 40 anos, também estávamos fora da temporada, então tive mais tempo de ficar em casa, porque os testes coletivos ainda não tinham começado. Aí você acha que lembra de tudo, né? Apesar de o Léo ter apenas sete anos… Mas você fala: 'Ah, mas eu já cuidei de bebê…' De repente, aparecem aquelas coisas que você não lembra mais, porque está sem prática total… Não lembra que não dorme, aquelas coisas todas que fazem parte do crescimento do bebê. Mas estou curtindo demais.

Tony Kanaan e o filho Deco após a classificação em Indianápolis (Foto: AP)

Nesse tempo todo de carreira e vida pessoal, o que mudou?

Eu acho que, depois de tudo que passei nesses anos, agora estou me estressando menos. E acho que isso está me ajudando quanto à minha performance, porque são menos coisas que tenho na minha cabeça, os fantasmas que todos nós temos. E estou aprendendo a curtir mais também. Indianápolis vai ser minha corrida de número 300. Imagine isso.

Não sei se estou sendo claro, mas antes eu curtia tudo também, mas era uma coisa que se misturava com o estresse, com tensão, com cobrança. Hoje, eu estou conseguindo meio que administrar tudo isso bem melhor. Eu já vou para a pista bem antes, vou com a minha família, tudo com mais tempo. Não tem aquela correria de antes, de ir na quinta e voltar no domingo. Hoje, eu continuo fazendo tudo e tenho tempo para tudo. Até mais coisas, porque antes eu perdia tempo com coisas que não valem mais.

E vamos ser realistas… Eu não estou no começo da carreira, eu já estou do meio para o fim, mas eu ainda tenho muitos anos ainda pela frente para correr de carro. Então, cada ano que passa é um ano a menos para correr aqui, por isso eu tento viver um dia de cada vez, uma temporada de cada vez, porque a gente não sabe como vai ser no futuro. E curtindo ao máximo, curtindo coisas que antes eu me privava porque eu achava que aquilo ali iria me atrapalhar. Então, eu não me privo mais dessas cosias que antes eu achava que iria influir na minha performance. E que não tinha nada a ver.

O ambiente na Ganassi ajuda neste sentido, por ser uma equipe grande e proporcionar estabilidade?

O ambiente na Ganassi ajuda também. A Ganassi é uma equipe muito grande, mas também é uma família. Eles sempre gostaram de mim e tive uma amizade muito grande com todos os mecânicos por causa do Dan Wheldon, por causa do Dario Franchitti. Ainda tem a história de que o Chip já tentou me contratar antes. Então, aqui eu tenho apoio total da equipe. Todo mundo aqui já tem família. O Dixon tem duas filhas. Nós chegamos às corridas e já paramos os ônibus todos juntos. É um ambiente muito bom. É lógico que é uma equipe que assim: 'Olha, nós estamos aqui para ganhar'. Quer dizer, na hora de colocar a cabeça no trabalho, é só trabalho. Não tem essa de amigo, de não vou fazer isso ou aquilo. É aquela história: você tem de te performance.

Kanaan e Dixon são amigos e companheiros de equipe na Ganassi (Foto: AP)

E o que dizer do piloto Tony Kanaan em (quase) 300 corridas na Indy?

É difícil falar de mim como piloto. Acho que nessa vida, ao menos no automobilismo, os meus resultados falam por si — neste esporte é assim, infelizmente. Teve pilotos que tiveram mais sucesso que eu certamente, mas teve pilotos que tiveram menos. Mas eu acho que nunca imaginei que chegaria aonde cheguei.

O automobilismo me deu tudo o que tenho na vida e me ensinou tudo também. A única coisa que quero deixar é isso para os meus filhos. Se puder deixar tudo para eles e a próxima geração de pilotos como um incentivo, já ganhei a minha carreira.

Ganhar e perder faz parte do jogo. Você vai ser criticado ou não. Tem gente que vai gostar de você, tem gente que não. Outros vão achar que você guia para caramba, e outros vão achar que se estivessem no seu lugar teriam feito muito mais. Isso tudo faz parte. Mas, na minha cabeça, falar de si mesmo é difícil, os resultados estão aí, por isso deixo isso com os críticos.

Você se vê correndo no Brasil daqui mais alguns anos? Como projeta o fim da carreira?

Olha, pela minha proximidade com o Rubens (Barrichello), seria a lei natural das coisas. Agora, se eu me vejo correndo no Brasil, eu realmente não sei. Isso tudo vai depender das oportunidades que vão aparecer para mim, depois que eu resolver virar essa página da Indy e ver o que vou fazer. Com certeza, a Stock Car é uma categoria que me interessa, mas, ao mesmo tempo, eu tenho um nome muito grande aqui nos EUA e acho que ainda teriam coisas para fazer aqui que me interessam também. Então, é aquela coisa, eu não vou dizer que não. Acho que está nos meus planos, mas não é algo que possa dizer: 'Quando parar com a Indy, vou direto para o Brasil'. Vamos ver o que acontece. Não posso dizer ainda.

No futuro, você seus filhos seguindo seus passos?

Quanto aos meus filhos, não sei… É muito pessoal. Não sou do tipo de pai que vai induzir o filho a fazer o que eu quero só porque é o que eu gosto. O Léo já andou de kart, mas ele não é assim fanático. Não é uma coisa que ele me pede toda a hora para fazer. Eu acho o seguinte: eu vou dar oportunidades para os dois para tudo que eles quiserem. Darei todo o meu apoio. Acredito que o esporte na vida de uma criança é muito importante, porque tira de um monte de tentações na vida. Eu tive uma vida regrada por causa do esporte. Agora dizer se eles vão se tornar pilotos, aí eu não sei… Como pai, não sei se tenho coração para isso. Como piloto, acho que é uma pressão muito grande pelo sobrenome. A gente vê aí o quanto é difícil a geração do Nelsinho, do Bruno, do Nicolas Prost. A gente viu aí o quanto pesa. Você protege seus filhos de tudo. Você não quer que eles peguem um resfriado, que se machuquem, isso é proteção de pai, mas se eles realmente quiserem, eles vão ter todo o meu apoio.

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