Conta-giro: Nascar repudia bandeira de batalha confederada e se coloca do lado certo da história

Ao tomar uma posição clara de repúdio, a Nascar se posiciona do lado certo da história: o que se rejeita a aceitar um símbolo do período de horror da escravidão como representação de uma cultura sulista rica em música, bebidas, arte e estilo, todas coisas que podem representar muito bem a região sem tocar as chagas e glorificar o sofrimento alheio

Não é de hoje, a polêmica. Há muitos anos a discussão sobre o uso das bandeiras de batalha confederadas figuram entre temas espinhosos e até como um tanto de tabu. Não é de hoje, também, que a Nascar deixa claro seu repúdio pela bandeira. Basta lembrar a negativa para que o jogador de golfe e favorito dos fãs Bubba Watson guiasse o 'General Lee', uma réplica exata do Dodge Charger RT 69 tornado famoso pelos personagens Bo e Luke Duke, da série 'Os Gatões – The Dukes of Hazzard'. O carro tem a bandeira confederada pintada no teto. Nas últimas semanas, não é surpresa, o assunto ganhou um papel central, e a Nascar publicamente manifestou o desejo de banir o símbolo dos circuitos.

De tabu, a bandeira ganhou imprensa e multiplicou críticos após Dylann Roof, de 21 anos, abrir fogo numa igreja da comunidade negra de Charleston na Carolina do Sul em 17 de junho. Roof, um terrorista e supremacista branco, começou a assistir um culto e em dado momento sacou uma pistola calibre .45 e começou a atirar, matando nove pessoas. Todas negras. Uma delas, o senador Clementa C. Pinckney (as outras foram Cynthia Marie Graham Hurd, Susie Jackson, Ethel Lee Lance 
Depayne Middleton-Doctor, Tywanza Sanders, Daniel Simmons, Sharonda Coleman-Singleton e Myra Thompson. É bom que jamais se esqueça).
 
Em seguida, vazaram fotos de Roof mostrando o orgulho com a bandeira confederada. Além de outras em que se utilizava de alguns outros patches na roupa, todos de organizações pró-supremacia branca da era do Apartheid. Três símbolos de ódio racial.
Dylann Roof, o terrorista e supremacista branco que exterminou nove pessoas numa igreja em Charleston (Foto: Reuters)

Contexto histórico

 
A igreja escolhida não apenas uma igreja qualquer. A Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel (A.M.E.) foi levada à cidade em 1818, dois anos após a fundação, e se tornou um local de resistência negra no sul dos Estados Unidos. É a mais velha igreja metodista episcopal da comunidade negra no sul, uma das congregações mais antigas do país. Certa vez, em uma das muitas história de opressão pelo qual passou o local e seu comunidade, um de seus fundadores, um herói chamado Denmark Vassey, foi executado com mais quatro 'conspiradores' em 1822, após ser ligado a um plano de revolta de escravos. A igreja foi queimada e reconstruída, sobreviveu dois séculos como um local sagrado de resistência e luta.
 
A própria cidade de Charleston não é um lugar aleatório. Foi lá que começou, de fato, a Guerra Civil. Em 12 de abril de 1861, as tropas confederadas atacaram e conquistaram o Forte Sumter, na baía da Charleston, expulsando o exército da União. Mais sete estados, total ou parcialmente, se juntaram aos seis outros da Confederação após na sequência, eclodindo na guerra.
Os ânimos norte-americanos esquentaram em 1860, quando um assumido abolicionista – Abraham Lincoln – foi eleito presidente. Foi por este motivo que os estados de Alabama, Carolina do Sul, Lousiana, Mississipi, Flórida e Geórgia proclamaram independência. Texas, Virgínia, Carolina do Norte, Arkansas, Tennessee e partes de Missouri e Kentucky, bem como territórios que hoje são Arizona e Oklahoma, se juntaram depois. Os símbolos confederados vem desta época, numa situação separatista e escravista. 
 
A bandeira de batalha dos confederados celebra um auto-proclamado Estado que se rebelou para manter a escravidão.

E falhou. A 9 de abril de 1865, em Appomattox, na Virgínia, no meio do caminho entre as capitais da União e dos Confederados, Washington e Richmond, o General Robert Edward Lee – a quem o carro de 'Os Gatões' homenageia – se rendeu ao General Ulysses S. Grant. Uma rendição incondicional, já após a abolição da escravidão assinada por Lincoln dois anos antes.

A bandeira de batalha confederada, um símbolo histórico do ódio racial (Foto: AP)

Do que se fez

A guerra acabou, mas os resquícios dela ficaram para a história. Em boa parte dos territórios que se rebelaram 150 anos atrás, há um orgulho confederado de pessoas cujos antepassados foram combatentes. Ou mesmo por pessoas que lembram a rebeldia como um heroísmo de um povo que enfrentou a morte e o ônus carregado junto por todo um futuro renegado pelo que acreditava.
 
Romântico, mas surreal. Um orgulho do passado escravista, rebelde e derrotado.
 
E aqui estamos, um século e meio depois, após batalhas de um Século XX marcado pela luta pelos direitos civis e os avanços no campo social. Os direitos mais básicos de fim do separatismo oficial, direito ao voto, casamento inter-racial, mas sem conseguir nos ver livres de lembranças, a cada esquina, dos tempos de horrores desmedidos de trabalhos forçados, assassinatos, estupros e qualquer tipo de atividade desumana imposta ao próximo. Do tempo do próprio massacre de sua alma.
 
Um exemplo? A rua em que fica a Igreja Emanuel A.M.E. é a Calhoun Street, nomeada em homenagem a John C. Calhoun, vice-presidente dos Estados Unidos nos mandatos de John Adams e Andrew Jackson – dois abolicionistas, especialmente Adams. Calhoun, no entanto, foi um dos mais fervorosos defensores da escravidão, a qual classificava como um "bem positivo". Depois, defendeu os rebeldes.
 
Essa é a rua onde fica uma das mais importantes congregações da população negra do sul dos Estados Unidos. Leva o nome de um dos grandes racistas a já terem passado por este planeta. No fim da rua, há um museu confederado, ainda, romantizando a causa. Charleston é um reduto confederado, onde a população negra tem de conviver com a glamourização escravista por todos os dias, a vida inteira. 

Após os eventos – terroristas, é bom frisar – de 17 de junho, as bandeiras posicionadas na sede do Governo e do legislativo da Carolina do Sul foram imediatamente colocadas a meio mastro. Menos uma: a bandeira de batalha confederada. O motivo? Ela ficava grudada ao mastro e apenas com aprovação de 2/3 do Senado ela poderia se abaixada. E caso os 2/3 necessários chamem toda a atenção desta informação, que não se perca o fato da bandeira racista flamular na sede do Governo do estado da Carolina do Sul. Verdade seja dita, uma pequena vitória aconteceu nesta quinta-feira, quando a Governadora Nikki Haley assinou uma lei que obriga a bandeira a ser retirada, o que acontece na manhã desta sexta (10). 68 emendas foram tentadas sobre a lei e 68 emendas foram reprovadas.

Bandeira confederada flamula em frente ao governo da Carolina do Sul (Foto: NPR)

A Nascar

A categoria mais popular do automobilismo americano se comportou de forma exemplar a mais este levante contra a bandeira- talvez a maior nos últimos 50 anos. No 4 de julho da Independência americana, em Daytona, ofereceu uma troca: qualquer bandeira levada à pista poderia ser trocada pela dos Estados Unidos. Os presidentes de Daytona e da Nascar, Joie Chitwood e Brian France, ressaltaram como o "símbolo insensível" não tem espaço no esporte. France disse, inclusive, uma frase que reflete bem o panorama.

"Obviamente, temos nossas raízes no sul, temos eventos no sul, é parte da nossa história como é para este país, mas precisa ser só isso: parte da nossa história", defendeu. "Não é parte do nosso futuro", falou.

 
Por fim, a Nascar reafirmou seu objetivo de banir a bandeira de seu círculo. Atualmente, a Primeira Emenda da Constitução do país ainda impede o banimento.
Nascar, Daytona, confederados (Foto: AP)

O futuro

Fato consumado nas últimas semanas é que a cruzada contra a bandeira deixou de ser papel de ativismo para virar um case na sociedade americana. Se uma pesquisa do renomado 'Pew Researches' concluiu em 2011 que 58% dos americanos não tinham sentimentos positivos ou negativos quanto ao símbolo, hoje o legislativo recebe com força uma pressão popular que incentivou pré-candidatos conservadores à presidência americana, como Lindsay Graham e Jeb Bush, além do candidato derrotado nas eleições de 2012, Mitt Romney, a pedirem pelo sumiço da bandeira inaceitável.
 
Ao tomar uma posição clara, a Nascar se posiciona do lado certo da história: a que se rejeita a aceitar um símbolo dos 'tempos de glória da escravidão' como uma representação de uma cultura sulista rica em música, bebidas, arte e estilo, todas coisas que podem representar muito bem a região sem que precise cutucar todos os dias as chagas de uma história dolorida, sangrenta e que não deixa morrer o sentimento de glorificação do sofrimento de uma parcela tão grande e significativa da população norte-americana.
 
Numa região que já havia ganhado as manchetes tragicamente em abril, quando em North Charleston um policial branco atirou pelas costas e matou um homem negro desarmado, Walter Scott, e mentiu nos relatórios oficiais, fica evidente que o racismo está muito mais que hasteado em bandeiras ou em museus históricos.
 
Não há espaço para consagrar símbolos de ódio racial em uma sociedade que deseja se ver livre do racismo, ainda tão ardente tanto lá quanto cá, como vimos no caso dos ataques à jornalista Maju Coutinho. E que se faça com o símbolo bandeira confederada o que se fez com outro pedaço dos rebeldes, a dança Jim Crow e as leis segregacionistas que nela ganhara um alicerce gentílico. Que sejam amaldiçoadas, relegadas a museus e aos livros de história sempre com a ressalva de que são peças melancólicas de uma memória que não pode ser esquecida, mas jamais pode ser reprisada.
 
Se 50 anos atrás Martin Luther King e uma legião marcharam pelo Alabama, entre Selma e Montgomery, dias após assegurarem direito total e irrestrito ao voto para todas as pessoas negras de qualquer parte dos Estados Unidos, que 50 anos depois se aniquile essa história triste que já não flamula mais de forma oficial na Carolina do Sul, mas está representada em bandeiras oficiais de outros estados, notoriamente a do Mississipi. Que se aterre o passado de horrores para pavimentar a construção de um futuro de mais igualdade, liberdade e fraternidade, ideais iluministas sob os quais a independência dos Estados Unidos também se baseou.
 
E viva uma Nascar que sabe como pegar o bonde da história e que não se esconde dos exemplos que diz pregar, como a F1. Viva o posicionamento!
Bandeiras de estados americanos ainda com referências aos Confederados (Foto: civilwarroundtablepalmbeach.org)

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