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'As pioneiras': Bruna Tomaselli - do kart em Santa Catarina à seleção na W Series e no Road to Indy

Bruna Tomaselli tem um sonho: viver do automobilismo. Decidida, a pilota já deu seus primeiros passos dentro do cenário do esporte a motor e agora encara o desafio de subir os degraus da Indy - em 2019, vai disputar a terceira temporada do USF 2000, categoria do programa Road to Indy

Grande Prêmio / NATHALIA DE VIVO, de São Paulo
Bruna Tomaselli é uma jovem catarinense que tem um sonho: viver de velocidade. Apaixonada por automobilismo, tem traçado seu caminho no esporte a motor e buscado cada vez mais seu espaço no esporte. Hoje, encontrou nos Estados Unidos o cenário ideal para se estabelecer.

A jornada no mundo do esporte a motor começou ainda muito cedo. Com sete anos, passou a disputar campeonatos de kart no país, e desde então, o gosto só vem aumentando. “Sempre gostei de carros, corridas, velocidade, desenhava carros, brincava com carrinhos. Então, quando eu tinha sete anos, meu pai me deu meu primeiro kart e foi aí que comecei a correr”, contou.
 
“No começo, eram corridas menores perto da minha região no oeste de Santa Catarina, mas depois o nível foi aumentando, com competições maiores e mais treinos. Com 15 anos, comecei a competir de fórmula, corri dois anos e meio no Rio Grande do Sul, na Fórmula Júnior, depois competi mais dois anos na F4 Sul-americana, e nos últimos dois anos, competi na USF2000, nos Estados Unidos”, seguiu.
 
Mas é claro que o simples fato de ser apaixonada pela velocidade não foi suficiente para fazer dar certo. Tomaselli contou que encontrou dificuldades no início da carreira, esbarrando em barreiras que até hoje encontra no meio do caminho
Bruna Tomaselli (Foto: Reprodução)
“A principal dificuldade que sempre tive até hoje é o apoio com patrocínios. Como o automobilismo é um esporte bem caro, é muito difícil encontrar empresas que queiram apoiar, e isso todo piloto sabe que é essencial para continuar a carreira”, falou.

Aos 15 anos, a catarinense passou a trilhar no caminho dos fórmulas. Com passagens pela Fórmula Júnior, Fórmula RS e F4 Sul-Americana, onde ficou com o quarto lugar na temporada 2015, esse era apenas o começo de um processo que a levaria para algo muito maior.
 
Em 2017, Bruna decidiu alçar voos mais altos e assumiu um novo desafio para sua vida ao se mudar para os Estados Unidos para correr na USF 2000, categoria que faz parte do programa Road to Indy, caminho para chegar à Indy.
 
A pilota acabou ficando também em 2018 na categoria, e ao GP, contou um pouco como foi sua experiência. “Competi dois anos nos EUA. É um campeonato muito grande e bem competitivo. A USF2000 faz parte do Road to Indy, então todas as corridas são junto com a Indy, o que faz com que nosso fim de semana de corrida seja sempre um grande evento, com muitas pessoas assistindo”, afirmou.
 
“Além das corridas, também temos bastantes atividades fora de pista que são muito parecidas com o que os pilotos da Indy fazem como, por exemplo, sessão de autógrafos e entrevistas. E o campeonato também é muito competitivo, sempre tem mais de 20 pilotos no grid, então a corrida é sempre uma ‘loucura’, mas que faz aprender muito dentro da pista”, seguiu.
Tomaselli durante o processo da W Series (Foto: Reprodução)
Em sua estreia na categoria, Bruna terminou a classificação na 21ª colocação – foram 36 pilotos no total, mesmo ficando fora de cinco corridas. No ano seguinte, então, fechou em 16ª, conseguindo uma sétima colocação como melhor resultado do campeonato.

Inclusive, foi em duas pilotas que Bruna achou a inspiração para ir para o cenário do esporte a motor norte-americano: Bia Figueiredo e Danica Patrick. “O fato de elas já terem chegado onde eu quero chegar um dia é uma grande inspiração. Tenho contato com a Bia, então sempre que preciso de alguma ajuda ou alguma dica, sempre converso com ela e isso ajuda bastante”, falou.
 
Em 2018, surgiu a notícia da criação da W Series, uma categoria totalmente voltada para pilotas mulheres. Entre as inscritas apareceu Bruna, que contou como tomou a iniciativa de fazer parte do processo seletivo. 
 
“[Fui] Por indicação da Bia Figueiredo. Após ela me indicar para o pessoal da W Series eu preenchi uma lista de inscrição, com meu currículo.  Tiveram mais de 100 inscritas, eles selecionaram 60 para participarem dos testes na Áustria, e eu estava entre as 60”, seguiu.
 
Bruna foi uma das selecionadas para participar da primeira parte do processo seletivo, na Áustria, que aconteceu em janeiro deste ano. “Foi muito bacana, um dos maiores e melhores que já participei. Foram vários testes desde o sábado até segunda a tarde, com muita neve e frio”, disse.
 
“Tivemos testes físicos, entrevistas, trabalho em grupo e o mais legal os testes na pista, com diferentes carros e traçados, e para todo teste que fazíamos tinha uma equipe e os jurados avaliando a gente. Foi muito bacana estar lá dividindo tudo com pilotos que tem o mesmo sonho que eu”, continuou. Entretanto, a pilota não avançou para a fase final.
Bruna Tomaselli (Foto: Reprodução)
No final de 2018, Bruna também participou da seletiva da Porsche Cup, o Junior Program. “Foi muito bacana. Foi minha primeira vez andando em um carro, antes só tinha andado em fórmula, então foi um grande aprendizado. Foram também quatro dias de teste, desde testes físicos e testes na pista e uma simulação de corrida com grandes pilotos aqui do Brasil”, explicou. Inclusive, foi a primeira mulher a ter participado do processo.

Mas e o preconceito? O automobilismo, esporte em sua grande maioria formado por homens, pode ser cruel a quem foge do ‘padrão’. Mas Bruna contou que nunca sofreu por ser mulher. “Nunca senti preconceito. Sei que, principalmente no kart, os meninos não gostavam muito de perder pra mim. Era mais fácil ‘jogar pra fora da pista’ ou fazer alguma coisa assim”, falou.
 
“Mas no fórmula, mesmo sabendo que eles ainda não gostam de perder pra mim, fazer alguma coisa assim é mais difícil. Mas do mesmo jeito que eles não gostam de perder pra mim, eu não gosto de perder pra eles, e quando estamos na pista todo mundo está lá pra ganhar. Eu estou lá pra fazer isso também (risos)”, concluiu.
 
E para 2019, Tomaselli já tem a agenda cheia de compromissos. O motivo é que a pilota assinou com a atual campeã da USF 2000, Pabst, para seguir na categoria e disputar sua terceira temporada – e, assim, mostrar cada vez mais que mulheres merecem o seu espaço.