Rali

Na Garagem: André Azevedo e Leilane Neubarth colocam Brasil pela 1ª vez no pódio geral do Dakar

Na primeira vez que uma tripulação formada por competidores do Brasil disputou o maior rali do mundo nos caminhões, André Azevedo e Leilane Neubarth fizeram história e, ao lado do copiloto tcheco Tomas Tomeček, levaram o caminhão Tatra ao terceiro lugar há exatos 20 anos. Foi a primeira e única vez que uma mulher brasileira disputou o Dakar
Warm Up / FERNANDO SILVA, de Sumaré / JULIANA TESSER, de São Paulo
Leilane Neubarth relembra odisseia no Dakar: "É a lei da selva em pleno deserto"


O dia 17 de janeiro de 1999 pode ser considerado uma data histórica para o automobilismo brasileiro. Há exatos 20 anos, André Azevedo e Leilane Neubarth — sim, ela mesma — conquistaram a façanha de levar o país pela primeira vez ao pódio geral do Rali Dakar. O feito foi logrado na disputa dos caminhões, com André e Leilane tendo ao seu lado na tripulação do caminhão Tatra o copiloto tcheco Tomas Tomeček. Foi um marco repleto de simbolismos: pela primeira vez uma tripulação com integrantes do Brasil participava do Dakar — naquele ano iniciado em Granada, na Espanha — nos caminhões. E pela primeira, e até hoje única vez, uma mulher brasileira competiu no maior rali do mundo.
 
Quando se fala de brasileiros no Dakar, é obrigação mencionar o pioneirismo de André Azevedo e do gaúcho Klever Kolberg, os primeiros competidores do país que assumiram o desafio de encarar os perigos do deserto do Saara nas motos ainda no fim da década de 1980. André, por exemplo, conquistou o título da categoria Maratona em 1991, e Klever repetiu o feito dois anos depois. As conquistas despertaram o interesse não apenas de pilotos e navegadores, mas também da imprensa brasileira à época. Assim como Emerson Fittipaldi na F1, André e Klever abriram o caminho para o Brasil no Dakar.
 
Anos depois de ver o irmão Jean Azevedo estrear no Dakar, seguindo a tradição de bons pilotos da família baseada em São José dos Campos, André migrou das duas para as quatro rodas. Primeiro, foi navegador de Klever na conquista de dois títulos consecutivos do Rali dos Sertões, a principal prova do off-road brasileiro, em 1997 e 1998. Mas o maior desafio estava por vir.
Tomas Tomeček, Leilane Neubarth e André Azevedo no top-3 geral do Dakar 1999 (Foto: Reprodução)
Tendo a Petrobras como patrocinadora-máster, a equipe de André Azevedo, a Brasil Dakar, se inscreveu pela primeira vez na disputa dos caminhões do maior rali do mundo, na edição de 1999 do Granada-Dakar. A opção da equipe foi ter um caminhão da montadora tcheca Tatra, conhecida pela sua robustez. Para compor a tripulação, Azevedo contou com um campeão ao seu lado. Engenheiro da fábrica e exímio conhecedor da mecânica dos caminhões Tatra, o tcheco Tomas Tomeček foi elemento fundamental para a conquista do título do Granada-Dakar de 1995, tendo como piloto o compatriota Karel Loprais.
 
Mas a tripulação ainda não estava completa. Em reportagem especial publicada no GRANDE PREMIUM, André lembra como conheceu Leilane Neubarth, já naquela época uma jornalista consagrada. “Foi numa palestra do ‘Empreendedores do Ano’, da revista ‘Exame’. Ela era mestre de cerimônias. E aí começou nosso flerte para conquistar uma grande jornalista para ir ao Dakar. Até então, a gente tinha muita mídia espontânea, mas jamais uma pessoa como ela nos acompanhando. E ela foi surpreendente. Uma guerreira”, contou.
 
Leilane, que além da carreira de jornalista, tinha como um dos hobbies fazer trilhas de moto. Espírito aventureiro jamais lhe faltou. Sua preparação para a disputa do maior rali do mundo foi feita em conjunto com André em Cabo Frio, na Região dos Lagos, Rio de Janeiro, para tentar simular um pouco das dificuldades que teria ao encarar o Saara. E Neubarth se mostrou mais do que apta a vencer os desafios do deserto.
 
A jornalista, em depoimento exclusivo, relembra como recebeu o inesperado convite para fazer parte de uma tripulação na maior aventura da vida.
Leilane Neubarth produziu boletins à Rede Globo durante sua jornada no Dakar (Foto: Reprodução)
“Foi uma situação absolutamente casual”, contou Leilane em entrevista ao GRANDE PREMIUM. “Eles estavam fazendo a palestra, era um evento para, sei lá, umas 400, 450 pessoas, uma coisa assim, e aí eles brincaram comigo e disseram: ‘Ah, a gente sabe que a Leilane tem moto, que a Leilane gosta de aventura, mas eu quero ver se a Leilane tem coragem de tirar essa roupa arrumadinha e ir com a gente para o Paris-Dakar participar de uma competição’. Aí eu não ia deixar essa bola quicando, né?”, brincou a atual apresentadora da Globo News.
 
Foi assim que teve início uma união que levou o Brasil a um pódio histórico.
 
Diferente dos dias de hoje, quando o maior rali do mundo, disputado em solo sul-americano, começa pouco depois do réveillon, o Granada-Dakar de 1999 iniciou na cidade andaluz, cravada no sul da Espanha, com o prólogo sendo realizado em 31 de dezembro. E a prova iniciando de fato no primeiro dia de 1999 com a transição da Europa para a África, passando pelo Marrocos.
 
Ao todo, foram 16 etapas de uma longa prova, com percurso total de 9.393 km, sendo 5.638 km de trecho cronometrado. O rali passou por Espanha, Marrocos, Mauritânia, Mali, Burkina Faso e chegou ao destino final, Dacar, capital do Senegal, em 17 de janeiro. Ao todo, 161 motos, 88 carros e 29 caminhões estavam inscritos para o Granada-Dakar de 1999, sendo o Tatra #425 de Azevedo, Tomeček e Leilane Neubarth o único 'bruto' com integrantes brasileiros.
 
André era o responsável pela pilotagem do caminhão Tatra na maior parte do tempo, mas revezou no volante com o copiloto Tomeček, que cuidou também da navegação, e Leilane atuando “muito no controle dos equipamentos do caminhão, analisando dados como motor, temperatura, pressão dos pneus, ia monitorando tudo isso durante o percurso”, lembra Azevedo. Além dos trabalhos com a tripulação, a jornalista produzia, a cada fim de especial, boletins diários para a Rede Globo, enviados via satélite.
 
Ao longo da competição em si, o trio enfrentou seus perrengues, como é característico de todo Rali Dakar, e escapou de um grande perigo: um arrastão, montado por um grupo de tuaregues no Saara, que pararam mais de 50 veículos e roubaram documentos, dinheiro e muito combustível. Na reportagem do GP*, André e Leilane contam como escaparam do assalto no meio do deserto.
Leilane Neubarth disputou o Granada-Dakar 1999 ao lado de André Azevedo e Tomas Tomeček (Foto: André Azevedo/Arquivo Pessoal)
O trio teve performance de destaque e venceu duas das 16 etapas da prova: no segundo dia, entre Rabat e Agadir, no Marrocos; e a nona especial, entre Bobo Dioulasso, capital de Burkina Faso, e Mopti, no Mali. A concorrência era fortíssima e contava com a presença de nomes como Karel Loprais — que faturou o título naquele ano —, do russo Viktor Moskovskikh, que teve como navegador Vladimir Chagin — que viria a se tornar heptacampeão do Dakar —, Miki Biasion, bicampeão do Mundial de Rali e do russo Firdaus Kabirov.
 
Ao fim do Dakar, André Azevedo, Tomas Tomeček e Leilane Neubarth terminaram a prova em terceiro lugar, a 2h27min05s de outro Tatra, guiado pelo campeão, Loprais, e atrás da tripulação do Kamaz liderado por Moskovskikh. Pela primeira vez na história, o Brasil colocava sua bandeira no pódio do maior rali do mundo, com um dos pioneiros do país no Dakar lado a lado com Leilane, até hoje a única mulher brasileira a disputar a competição.
 
A epopeia de Leilane Neubarth pelo deserto do Saara virou livro. A jornalista eternizou sua participação no Granada-Dakar ao escrever ‘Faróis de Milha’, um diário de bordo no qual conta as alegrias, os perrengues, os desafios, os perigos do deserto e o doce sabor de chegar ao fim de uma das mais desafiadoras provas do esporte a motor desde sempre e cravar seu nome na história. 

Os depoimentos exclusivos de Leilane Neubarth e André Azevedo você lê aqui.