Coluna Parabólica, por Rodrigo Mattar: Os acertos e os erros da Stock

Se a Stock buscou inspiração na V8 Supercars com essa corrida de duplas, equivocou-se no formato. Primeiro porque as provas em que as duplas são permitidas no campeonato australiano são bem mais longas. E tem mais: os convidados pontuam

A temporada 2014 da Stock Car começou no último domingo (23) com uma corrida especial em Interlagos. Pela primeira vez em 35 anos, foram formadas duplas para a disputa, com pilotos convidados. Lembro que quando os planos para o campeonato deste ano foram apresentados, falou-se até em Michael Schumacher como um dos possíveis nomes e o alemão nem pôde ser consultado ou convidado, porque continua hospitalizado desde 30 de dezembro. Passaram-se exatos quatro meses desde o acidente e as incertezas sobre seu estado de saúde são muitas. Isso é assunto para outra coluna, mais à frente.

Já que o assunto é Stock, então vamos a ele. A Vicar, agora sob o comando de Maurício Slaviero, começou bem com a ideia de trazer pilotos de fora para a primeira corrida do ano e enfrentou pequenas dificuldades – e por incrível que pareça, a maior delas diz respeito ao automobilismo doméstico. Nenhum piloto da Fórmula Truck, exceção feita a David Muffato (campeão da Stock em 2003) foi autorizado a participar do evento especial. Alguns outros nomes foram descartados por compromissos profissionais no mesmo dia da corrida de Interlagos, então as opções, embora boas, ficaram um pouco abaixo do esperado.

Entre os estrangeiros, as equipes conseguiram trazer alguns nomes das corridas internacionais de Turismo e Grã-Turismo, como o holandês Jeroen Bleekemolen, o português Álvaro Parente, o italiano Alessandro Pier Guidi, o espanhol Miguel Molina, os argentinos Juan Manuel 'Pato' Silva, Mauro Giallombardo e Gabriel Ponce de León, o britânico Craig Dolby e os australianos Dean Canto e Mark Winterbottom.

O grosso da lista foi de pilotos brasileiros, muitos com carreira internacional ativa, caso de Augusto Farfus, Lucas Di Grassi, Bruno Junqueira, Oswaldo Negri e Nelsinho Piquet, além de alguns antigos campeões da Stock feito Chico Serra e Giuliano Losacco. Apesar das circunstâncias um tanto quanto desfavoráveis, 23 convidados ‘brazucas’ e 10 gringos se juntaram aos 33 titulares para um total de 66 pilotos – um dos maiores da história da categoria.

E quando muitos esperavam que um dos gringos fizesse frente aos pilotos da Stock, deu a prata da casa. Rodrigo Sperafico, outro que já esteve por lá e teve boa carreira internacional, inclusive com passagem pela extinta Fórmula 3000 Intercontinental, fez um ótimo papel ao volante do carro #88 da equipe de Mauro Vogel e ajudou Felipe Fraga a fazer história na categoria.

O menino do Tocantins, 18 anos de idade, tornou-se o mais jovem vitorioso de todos os tempos, batendo um recorde que pertencia a Thiago Camilo. E sobre Fraga, só há uma coisa a comentar: é um desperdício vê-lo correndo aqui no Brasil.

Felipe Fraga (Foto: Rodrigo Berton | Grande Prêmio)

O lugar de Felipe é o exterior, não as competições nacionais. Seu talento já foi provado e comprovado no kart, o que o levou à Fórmula Renault europeia. Como sempre faltou dinheiro e, principalmente, apoio. A Confederação Brasileira de Automobilismo, cujo presidente se jacta do “apoio à base” do esporte a motor, não move uma palha no sentido de incentivar seus filiados e Fraga, sem verba para dar sequência a uma carreira internacional, voltou. Fazer o quê? O jeito é mostrar o que ele sabe fazer melhor: acelerar. Ganhou o Brasileiro de Turismo aos 17 anos e já barbariza na estreia com os carros da Stock aos 18. Tudo isso sem carteira de habilitação.

 Além do que penso a respeito de Felipe Fraga, é preciso fazer outra ressalva: não vejo sentido em uma etapa com formação de duplas que tenha duração de apenas 50 minutos. Essa etapa tinha que ser mais longa, com, no mínimo, 70 minutos e talvez 90 minutos de duração, com pelo menos dois pit stops – sendo um obrigatório para a troca de pilotos. Haveria variações de estratégia, mais dinamismo e, principalmente, um melhor aproveitamento dos pilotos convidados. Trazer um Bleekemolen, um Winterbottom, um Parente, para correr 15, 20 minutos (ou não correr, como foi o caso do português), é no mínimo falta de respeito com quem veio dos seus países para o Brasil.

Se a Stock buscou inspiração na V8 Supercars com essa corrida de duplas, equivocou-se no formato. Primeiro porque as provas em que as duplas são permitidas no campeonato australiano são bem mais longas: a Sandown 500, os 1000 km de Bathurst e a Armor All 600, esta dividida em duas baterias no circuito urbano de Surfers Paradise, onde titulares e convidados se revezam ao volante em ambas as provas. E tem mais: os convidados pontuam para a Pirtek Endurance Cup da V8 Supercars e também para o campeonato normal. Pelas regras da Stock, os convidados não pontuam. Se em 2015 a Vicar mantiver essa fórmula de disputa, que exista a possibilidade de uma etapa mais longa do que a do último domingo e que, como prêmio de consolação, os convidados também figurem na tabela de classificação ao fim do campeonato.

No bojo, o fim de semana serviu para provar que a Stock precisa ser menos refém de certos fatores que engessam suas corridas e que há espaço para novos talentos do automobilismo brilharem nela. Pena que seja cada vez mais frequente a perda de bons nomes rumo a um futuro minimamente promissor nas pistas internacionais para uma categoria que, 35 anos depois de sua criação, ainda busca uma identidade que ela acredita possuir – mas que, no meu entendimento, é carente de um “algo mais” para, de fato, ser realmente uma das melhores categorias de turismo do mundo.
 

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