Conta-giro: longe do som dos motores, bicampeão Toseland supera aposentadoria precoce com banda de rock
Bicampeão do Mundial de Superbike, James Toseland teve sua vitoriosa carreira no motociclismo interrompida por conta de uma lesão no punho direito, mas voltou ao seu primeiro amor para recomeçar a vida como líder de uma banda de rock
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James Toseland teve o mundo das motos de produção aos seus pés por duas vezes, mas teve de buscar um novo caminho após sofrer uma lesão. Em 2011, aos 31 anos, o então bicampeão do Mundial de Superbike se despediu do esporte profissional de forma precoce.
Meses antes de anunciar sua retirada das pistas, o britânico foi ejetado da moto em um acidente em Aragão, na Espanha, durante um teste do Mundial de Superbike e deslocou todos os ossos do punho. No processo de consolidação, os ossos se fundiram, o que limitou a mobilidade. Assim, o piloto da BMW Motorrad Italia entendeu que era hora de pendurar o capacete.

James Toseland encontrou na música um caminho para superar a aposentadoria precoce (Foto: Divulgação)
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“Tenho que colocar a segurança dos outros pilotos na pista em primeiro lugar, assim como a minha segurança. Sabendo que eu nunca mais estarei completamente em forma para correr no nível máximo, também é injusto que eu ocupe uma ótima vaga no Mundial de Superbike que um piloto jovem, talentoso e completamente em forma poderia tirar mais proveito”, disse Toseland na época.
Com uma vitoriosa carreira encerrada de forma precoce, Toseland precisou refazer sua história e encontrou um novo caminho nos braços de seu primeiro amor: a música.
Impactado com o fim da carreira, James, que também passou pelo Mundial de MotoGP, se escondeu em um quarto de hotel em Scarborough, no condado de North Yorkshire, e decidiu colocar em prática um plano B que sempre o acompanhou.
O ex-piloto começou a compor e se aliou ao produtor Toby Jepson, também cantor e guitarrista da banda britânica Little Angels, para lançar seu primeiro álbum com uma banda que leva seu sobrenome: ‘Toseland’. Batizado de Renegade, o disco foi bem recebido pela crítica e vendeu mais de 10 mil cópias no Reino Unido.
Constantemente em turnê, Toseland, que é casado com a cantora Katie Melua, abriu uma brecha na agenda para conversar com o GRANDE PRÊMIO sobre nova carreira e apontou as diferenças e semelhanças das duas indústrias que conquistou.
Questionado sobre qual amor veio primeiro, James não titubeou: “A música”.
“Eu aprendi a tocar piano aos sete anos e ganhei minha primeira moto aos nove”, explicou, justificando a opção pelas duas rodas. “Como fui bem sucedido nas corridas de moto ainda muito jovem, foi um caminho natural a seguir naquele ponto da minha vida para ter uma carreira bem sucedida”.
A opção pelas corridas, no entanto, não o afastou do universo da música. Enquanto corria nos autódromos ao redor do mundo, Toseland manteve um piano por perto e também voltava à sua antiga prática sempre que estava em casa.
“Toquei em bandas cover por dez anos e sempre tinha um piano no meu motorhome enquanto viajava com as corridas, assim como o piano de cauda que eu tenho em casa”, contou.
Companheira de longa data, a música sempre foi uma opção para Toseland quando o momento de deixar as pistas chegasse, mas, após a lesão, também se tornou um caminho para superar a perda.
Indagado se, antes de se machucar, pensava em seguir carreira na música, James explicou: “Sim, considerava”.
“Sempre fiquei intrigado para saber como seria a minha carreira na música uma vez que eu tivesse tempo para me comprometer da mesma forma como fazia nas corridas”, revelou. “Nos momentos difíceis, eu sempre me vi ao piano e quando tive de me aposentar, foi aí que comecei a escrever as ideias para o meu primeiro álbum. A música é uma ótima cura!”, avaliou.
Embora o piano não seja o instrumento mais comum nos grandes hits do rock, a opção pelo gênero musical também veio cedo na vida do britânico.

Toseland faturou 1º título no Mundial de Superbike com a Ducati em 2004 — a segunda conquista veio em 2007, ja com a Honda (Foto: Ducati)
“Fui apresentado ao rock pelo namorado da minha mãe, que foi quem me iniciou no motociclismo”, recordou. “A primeira banda foi o Queen e foi aí que soube que tinha encontrado meu gênero musical. O piano sempre teve uma relação estranha com o rock, mas eu amo a luz e a sombra que ele traz”, justificou.
Mesmo tendo optado por gênero e instrumento familiares, Toseland reconhece que foi difícil iniciar sua nova carreira, mas a paixão pela música acabou ajudando nessa transição.
“Foi difícil começar do zero outra vez, mas eu sabia que tinha muita paixão por música e por cantar”, contou. “A determinação para fazer funcionar veio com a curtição que sempre senti com isso”, comentou.
Conhecedor de dois mundos bastante distintos, Toseland consegue enxergar semelhanças entre as indústrias do motociclismo e do entretenimento, mas avalia que é mais difícil entender os anseios do público em sua nova profissão.
“As viagens são bastante similares ao meu antigo trabalho, mas as indústrias são bem diferentes”, apontou. “Acho que todos estão tentando vender um produto, mas na música é muito mais difícil de entender do que as pessoas vão gostar, já que o gosto de todos é bastante diferente”, ponderou.
Outra diferença está na intensidade das emoções. “Pilotar é mais intenso por conta dos riscos envolvidos e da velocidade, mas a pressão de todos olhando para você com expectativa pode ser realmente assustadora também”, declarou Toseland.
Questionado pelo GP sobre onde a pressão é mais alta, o bicampeão do Mundial de Superbike avaliou que, conforme sua popularidade como músico for aumentando, as coisas serão equivalentes.

James Toseland defendeu a Tech3 na MotoGP em 2008 e 2009, mas nunca subiu ao pódio (Foto: Yamaha)
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“No momento, nas corridas, mas só porque eu corria no nível máximo. Conforme a popularidade da banda aumenta, então a pressão vai naturalmente crescer com a música também”, opinou, acrescentando que a sensação que tem antes de entrar no palco é “bastante similar” àquela que tinha antes da largada.
“O nervosismo da antecipação é exatamente o mesmo”, afirmou. “Tenho muita sorte de ter essa sensação outra vez com a música agora, assim como tinha nas corridas”, considerou, ressaltando que a adrenalina do palco é ligeiramente menor.
“É um pouco menos intenso por conta dos riscos, mas tem muito mais paixão envolvida no palco em comparação com as corridas, porque isso é principalmente focado em determinação”, comparou.
Apesar de a música também exigir treinamento, Toseland explica que o ritmo de treinos é hoje bem diferente, embora ele continue se mantendo em forma.
“Nada parecido. Eu treinava duas vezes por dia para as corridas e era realmente duro, mas recompensador”, recordou. “Eu ainda me mantenho em forma, uma vez que gosto de me exercitar, e corro da maratona de Londres em uma ação de caridade anualmente”, seguiu.
Ex-baixista do Guns N’ Roses, Duff McKagan se aproximou do esporte com o passar dos anos, se tornando colunista do site da emissora norte-americana ESPN. Como tal, o músico defende que existem muitas semelhanças entre músicos e atletas, uma visão de que Toseland compartilha.
“Provavelmente a determinação e a dedicação de mergulhar completamente em algo pelo que você é completamente apaixonado para ser bem sucedido a qualquer custo”, disse.
Perguntado pelo GRANDE PRÊMIO sobre quais são suas influências musicais, o ex-piloto citou artistas de peso da música mundial. “Queen, AC/DC, Aerosmith, Bryan Adams e muitos outros que eu poderia mencionar, mas eu amo rock clássico."

Zurab Melua, Ed Bramford, James Toseland, Roger Davis e Joe Yoshida são os integrantes da Toseland (Foto: Divulgação)
Mesmo entregue à paixão da música, James ainda sente falta das motos e, por isso, decidiu se aventurar em busca do recorde de velocidade em duas rodas. Em setembro próximo, o britânico vai ao deserto de sal de Bonneville, em Utah, nos Estados Unidos, para, em um projeto da Universidade de Derby, na Inglaterra, tentar superar a marca de 606 km/h registrada pelo norte-americano Rocky Robinson na FIM (Federação Internacional de Motociclismo).
“É uma oportunidade para eu ser o melhor em duas rodas outra vez”, frisou James em entrevista ao GP. “Meu punho não dobra completamente agora, então o acelerador está no meu pé e isso me dá a chance de conseguir isso”, detalhou, ressaltando que a moto que vai guiar em Utah não tem “nada a ver” com as que estava acostumado.
“Tem mais de oito metros de comprimento e é empurrada por um motor de helicóptero da Rolls Royce com mais de 1000 cv!”, concluiu.
Enquanto não chega a hora de desembarcar no deserto de sal, Toseland segue empenhado em sua carreira musical e lançou no mês passado o EP ‘Heart and Bones’, novamente produzido por Toby Jepson e tendo Steve Harris, que já trabalhou com Foo Fighters e U2, como engenheiro.
Além disso, a banda, que tem os guitarristas Zurab Melua e Ed Bramford, o baixista Roger Davies e o baterista Joe Yoshida, começou no mês passado uma nova turnê pelo Reino Unido.
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