Sem ter planejado ida para Superbike, Hayden tenta recuperar o que faltou nos últimos anos de MotoGP: a diversão

Depois de 13 anos na MotoGP, Nicky Hayden fez as malas e partiu para uma nova aventura. Estreante no Mundial de Superbike, o norte-americano elogiou a série das motos de produção, se disse um apaixonado pelo motociclismo e falou em ser competitivo já em 2016

Depois de 13 temporadas, três vitórias, 28 pódios, cinco poles e o título mundial de 2006, Nicky Hayden encerrou sua passagem pela MotoGP no GP da Comunidade Valenciana de novembro passado para encarar uma nova aventura: o Mundial de Superbike.
 
Escolhido pela Honda para ocupar o posto de companheiro de Michael van der Mark, o ‘menino do Kentucky’ vai guiar a CBR1000RR SP em 2016 e tentar ajudar a montadora nipônica a correr atrás de um título que conquistou pela última vez em 2007, com James Toseland.
 
No total, a Honda soma quatro títulos no Mundial de Construtores — 1988, 1989, 1990 e 1997 — e seis na disputa entre os pilotos — com Fred Merkel em 1988 e 1989, com John Kocinscki em 1997, com Colin Edwards em 2000 e 2002, e com Toseland em 2007.
Nicky Hayden vai estrear no Mundial de Superbike na temporada 2016 (Foto: Honda)
22º piloto a ser introduzido no Hall da Fama da MotoGP, Hayden vive um período de transição, mas, em entrevista ao GRANDE PRÊMIO, reconheceu que a mudança para o Mundial de Superbike não foi sempre um objetivo. 
 
“Não posso dizer que sempre foi um plano”, disse Nicky. “É uma coisa em que eu pensava. A questão é que eu ainda gosto de correr, ainda gosto de guiar essas motos”, declarou. 
 
Embora a mudança não seja uma rota trilhada anos atrás, o retorno ao mundo da superbike tem um objetivo claro: recuperar a diversão.
 
“Os últimos anos na MotoGP com a Honda Aberta não foram divertidos. Os resultados não foram bons e eu não consegui ter a oportunidade de fazer uma coisa que realmente parecia divertida, então eu pensei em ir para o Mundial de Superbike, tentar me divertir outra vez e aproveitar um novo desafio, tentar curtir as corridas”, justificou. 
 
A diversão, aliás, é a única meta definida do norte-americano, que não quer pensar em números às vésperas da estreia no Mundial, neste fim de semana, em Phillip Island.
 
“Eu não tenho um número e não quero abrir a boca e dizer uma coisa… Vamos ver como vai ser a primeira corrida”, falou. “Vou tentar fazer absolutamente o máximo e tentar aprender tudo que puder”, assegurou.
 
Questionado pelo GP se acredita que é possível ser competitivo logo de cara, Nicky respondeu: “Eu sei que tenho muito para aprender e esses caras são especialistas nestas motos e nesses pneus, então tenho, definitivamente, algumas coisas para aprender, mas, sim, eu acredito que posso ser competitivo”.
 
E se o objetivo é brigar na ponta, Hayden sabe o que precisa fazer para enfrentar rivais como Jonathan Rea, Tom Sykes e Chaz Davies, por exemplo.
 
“Eu preciso me classificar bem. Isso vai ser muito importante para mim”, apontou. “E ser consistente. Quando você assiste uma corrida do Mundial de Superbike, nas corridas que eu assisti — eu sempre fui um fã, sempre acompanhei. Este inverno eu assisti mais corridas para entender algumas coisas e está claro que os caras que conseguem ser rápidos no fim da corrida são os que conseguem os melhores resultados”, avaliou.
Nicky Hayden vai ser companheiro de Michael van der Mark (Foto: Honda)
Apesar da larga experiência em duas rodas, o piloto de Owensboro vai guiar uma moto um tanto diferente daquela que pilotava até o ano passado, mas o encontro com a CBR não se mostrou um problema. 
 
“Eu me entendi OK com a moto”, falou. “Quando eu subi pela primeira vez, claro, tiveram algumas voltas em que as coisas eram bem estranhas, mas eu me senti bem confortável na moto logo de cara, na posição certa”, seguiu. 
 
“Nós realmente não tivemos de mudar muita coisa no que diz respeito ao guidão, pedaleira, para ficar confortável. Nós tivemos que mudar um pouco o freio traseiro — eu uso muito o freio traseiro e exijo muito dele —, então nós tivemos de mudar muitas coisas para fazê-lo durar mais tempo, e também com a eletrônica — eu gosto de uma conexão bem direta com o acelerador —, e nós tivemos que mudar um pouco. Eu me sinto confortável com a moto”, explicou.
 
Com a transferência de uma para outra série promovida pela Dorna, Nicky teve de mudar seu estilo de pilotagem, mas o piloto de 34 anos considera que este é um assunto que não deve marcar presença em sua mente.
 
“Todas as motos exigem estilos de pilotagem diferentes”, defendeu. “Mas também acho que você não pode enlouquecer pensando em estilo de pilotagem. Você precisa tornar isso um hábito, porque quando você roda a 200mph [320 km/h], isso tem de ser natural. Se você pensar nisso, é tarde demais”, alertou.
 
Além de maquinário, a chegada ao Mundial de Superbike também representa contar com uma nova equipe técnica, mas embora a estrutura da Ten Kate, estrutura que opera o time da Honda, seja muito diferente daquela que Nicky encontrou na Honda e na Ducati na MotoGP, o piloto diz que tudo está correndo bem neste início de relacionamento.
 
“Me sinto bem com time”, começou. “Todo mundo fala inglês e, claro, é um time diferente, talvez uma equipe menor, um pouco diferente de onde eu vim, dos dias da Repsol e da Marlboro, mas esses caras todos parecem muito comprometidos”, opinou. 
 
“Nós não temos o orçamento da Marlboro ou da Repsol para gastar mais e mais dinheiro, mas eu sabia disso quando vim para cá”, ressaltou. “Tem algumas coisas que, claro, eu adoraria ter, mas o piloto não consegue tudo que quer. Eles fizeram um bom trabalho para tentar me dar pelo menos as coisas que eles acham que eu preciso, então tenho de aprender com eles. Claro, espero que nós possamos conseguir alguns resultados para eles, como eles estão acostumados”, continuou.
 
Questionado sobre as diferenças entre as motos da MotoGP e do Mundial de Superbike, Hayden explicou: “A moto é mais macia. A frenagem é menos intensa. No geral, é uma moto mais macia”. 
 
“A MotoGP é muito rígida e, nas retas, você luta muito mais para manter a roda dianteira no chão e para tentar alcançar as marchas”, contou.
 
Tchau, Bridgestone. Oi, Pirelli
 
Além de moto e equipe, a mudança para o Mundial de Superbike também traz outra novidade: os pneus Pirelli. A fábrica italiana fornece os compostos da série das motos de produção desde 2004, quando a categoria passou a contar com uma fornecedora única.
Os pneus Pirelli também são novidade para Hayden (Foto: Honda)
A grande diferença, porém, não está na composição dos pneus da linha Diablo, mas na existência da borracha de classificação. No Mundial de Superbike, todos os pilotos recebem o Superpole, um composto traseiro supermacio que, ao contrário dos demais produtos do leque, não está disponível no mercado.
 
Ao fim das três sessões de treinos livres, todos recebem os pneus supermacios, mas só os que participam da Superpole 2, a fase final do treino classificatório, é que podem usar a borracha.
 
Indagado pelo GRANDE PRÊMIO sobre sua opinião em relação aos pneus Pirelli, Hayden respondeu: “Eu gosto dos pneus. A aderência é boa”. 
 
“Claro, é diferente, com mais movimento, mais flexível, mas a aderência de fato é boa. Em Phillip Island eu tive a primeira chance de guiar a moto em condições realmente quentes, mas, no geral, os pneus são diferentes. Você tem de entender e se acostumar com eles”, observou.
 
Além disso, Nicky se mostrou satisfeito com sua curta experiência com o pneu de classificação, mas ressaltou que o novo cronograma do Mundial de Superbike, que agora tem sua rodada dupla dividida entre sábado e domingo, vai ser um desafio a mais para os pilotos.
 
“Eu testei o pneu de classificação um pouco em Jerez para me acostumar com ele e devo dizer que eu realmente gostei de guiar com os pneus de classificação. É realmente intenso e muito divertido”, contou. “Este ano nós só temos um pneu de classificação, então a primeira coisa que eu tenho que fazer é garantir que eu esteja naquele grupo da ponta, o que não será fácil para mim, porque, neste ano, com o cronograma, você só tem a sexta-feira para chegar lá”, ponderou. 
 
“Todos os pneus são melhores em condições mais frias, então muito daquele top-10 vai vir na manhã de sexta. Em pistas que eu não conheço ou que não tenho frequentado, não vai ser fácil pular para o top-10”, reconheceu. “E aí você só tem um pneu para a classificação e ele é bom para uma única volta, então isso vai pressionar bastante o piloto. Mas estou ansioso para guiar com o pneu de classificação. Se a moto estiver funcionando bem e você se sentir bem, então eles podem ser realmente divertidos”, sublinhou.
 
Perguntado se gosta do novo formado do fim de semana do Mundial de Superbike, Hayden disse que é difícil dizer, mas avaliou que os pilotos estarão mais pressionados.
 
“Para mim é difícil dizer. Eu realmente não sei”, respondeu. “De um lado, isso me dá um dia a menos para aprender algumas das pistas novas, aprender alguns novos acertos. Agora nós temos de estar prontos para correr no sábado. E teremos muito, muito pouco tempo de pista no sábado. Quer diz, vai para a pista para duas sessões de 15 minutos e aí corre”, continuou. 
 
“Por outro lado, acho que será útil ter uma corrida e poder realmente sentar, estudar os dados e dormir debruçado nisso. Mas, como eu disse, vou alinhar [no grid] quando me disserem para fazer isso e realmente não acho que muda muito”, ajuizou. 
 
Primeiro rival: Michael van der Mark
 
Em sua estreia no Mundial, Nicky terá como companheiro Michael van der Mark, um piloto menos experiente em linhas gerais, mas que já vai para sua segunda temporada na divisão principal do certame, de novo defendendo a Honda.
 
Ao GP, Hayden contou que já conhecia a boa fama do holandês, especialmente por conta das duas vitórias — 2013 e 2014 — nas 8 Horas de Suzuka, mais importante prova do calendário do Mundial de Endurance.
 
“Michael é um cara legal. Eu me dou bem com ele”, falou. “Definitivamente, é um cara rápido. Eu já tinha visto o nome dele, ouvido falar do quão rápido ele foi em Suzuka por algum dos meus engenheiros japoneses. Ele venceu lá duas vezes”, frisou.
 
“Eu sempre ouvi o quão rápido ele era lá, então eu sabia ele era rápido. Está claro que ele tem um grande talento, então eu espero muitas coisas boas do Michael. Acho que ele tem um grande futuro”, opinou.
 
Embora ambos tenham pouca experiência no divisão principal do Mundial de Superbike, Hayden acredita que os dois têm coisas diferentes para aprender em 2016.
Nicky Hayden se mostrou ansioso para voltar a Laguna Seca (Foto: Honda)
“Eu diria que nós somos bem diferentes. Eu estou de um lado e ele está do outro”, considerou. “Eu preciso me preocupar com o que eu preciso aprender e não muito com ele, mas eu acho que são coisas diferentes. Eu diria que o que precisamos aprender são coisas completamente opostas”, avaliou.
 
O dono do #1
 
Pelo que se viu na pré-temporada, a Kawasaki mais uma vez será a grande força do Mundial em 2016 e, como dono do #1, Hayden acredita que Jonathan Rea abre o ano como homem a ser batido.
 
“Eu diria que, no momento, ele tem a placa de número um. Então até que alguém apareça e mostre que está pronto para tirar isso dele, ele é o cara a ser batido”, disse Hayden ao GRANDE PRÊMIO. “Mas tem muitos caras rápidos. Eu realmente ainda não fui para a pista com muitos caras para realmente saber, mas… Acho que não vão dar para ele de mão beijada, mas, com certeza, ele é muito, muito forte. Do pouco que eu vi dele na pista, ele pilota de uma maneira muito boa e é, definitivamente, um piloto muito bom”, elogiou.
 
Como a temporada ainda não começou, Hayden acha difícil avaliar as forças de cada uma das máquinas rivais, mas reconhece que, além da aceleração, a Honda tem algumas coisas que precisa melhorar. 
 
“A saída de curva precisa melhorar e também ter um pouco mais de consistência”, listou o #69.
 
Estreia em território conhecido
 
Em um cenário de tantas novidades, Hayden tem pelo menos um velho conhecido em seu debute: Phillip Island. O circuito australiano, que também recebe o Mundial de Motovelocidade, é palco da prova de abertura da temporada 2016.
 
Perguntado sobre a diferença de pilotar uma máquina da MotoGP e uma da Superbike no traçado de Victoria, Hayden respondeu: “É diferente, porque, definitivamente, nas curvas mais rápidas, todas as mudanças de direção nas curvas seis, sete, oito e nove, a moto se move muito mais, então é difícil serão tão preciso quanto”. 
 
“Essa é uma diferença, mas o clima também é muito diferente para nós”, comentou. “No fim de semana da MotoGP, a gente vem pra cá no inverno e temos realmente de ser cuidados nas curvas para a direita para manter os pneus aquecidos e aqui, no momento, não parece ser um grande problema”, aferiu.
 
Além disso, o piloto da Honda também se mostrou confiante em obter um bom resultado logo em sua prova de estreia.
 
“Conversando com o time, eles sempre tiveram bons resultados aqui. É verdade que a nossa moto gosta de uma coisa mais fluida e não travada — a aceleração é onde precisamos melhorar —, mas temos uma boa chance de conseguir um bom resultado em Phillip Island”, afirmou.
 
Garoto eu vou pra Califórnia…
 
Embora esteja animado com a estreia na categoria, Hayden tem um motivo em especial para celebrar a chegada ao Mundial de Superbike: Laguna Seca. O traçado da Califórnia não é mais parte do calendário da MotoGP, mas segue presente na classe caçula.
 
Questionado pelo GP se tinha um interesse especial em algum dos circuitos, Nicky não titubeou: “Bom, tem um: Laguna Seca”.
 
“Não é exatamente um circuito novo para mim, mas faz alguns anos que não vou para lá, então claro que estou ansioso para ir”, comentou. “No próximo fim de semana tem a Tailândia, é primeira vez que vou correr no país”, lembrou. 
Antes de deixar a MotoGP, Hayden foi introduzino no hall de lendas da categoria (Foto: Divulgação/MotoGP)
“Ir para novas pistas não é fácil, mas eu gosto de ir para pistas novas e vamos ver como elas são. Eu realmente não vi algumas delas ainda”, mencionou. “Donington não é uma pista nova, mas eu não vou para lá desde 2009, então… Aquela pista tem algumas curvas divertidas, então estou ansioso para voltar lá”, seguiu.
 
A história com Laguna Seca, aliás, não passa apenas por sua própria história, mas é também um caso de família.
 
“Eu amo Laguna Seca!. Meu irmão vai estar lá correndo, toda a minha família estará lá, terei um grande apoio em Laguna Seca. Os fãs lá são sensacionais. Foi o primeiro lugar onde eu ganhei uma corrida no AMA, venci minha primeira corrida de superbike lá, todos os meus irmãos tiveram sucesso lá”, recordou. “É uma pista difícil, mas estou ansioso para voltar lá, com certeza”, concluiu.
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