Triunfo certo, mas sem ser triunfal: McLaren renova vício de tropeçar em si própria na F1

Lambança na Itália reforça dificuldades da McLaren em sair de situações que obriguem a jogar fora roteiro pré-organizado de uma corrida. O que devia ser desfile vira chaga

O absoluto controle da situação que a McLaren mostra ter nas pistas do mundo pela Fórmula 1 desde o GP da Austrália deveria tornar a temporada 2025 num longo e coreografado desfile rumo à glória maior. E, é bem verdade, não há ninguém capaz de ameaçar o triunfo que se montou muito cedo e apenas espera a matemática coroá-lo, mas está longe de ser uma valsa triunfal. Trocando em miúdos, triunfo, sim, mas triunfal jamais. Como é possível?

A sequência de lambanças no GP da Itália transformou em chaga inconfundível o que seria apenas uma derrota normal num mar de tantas corridas. Trata-se de uma tendência: a McLaren não consegue desbloquear o próprio caminho, sempre disposta a transformar pequenos beliscões em fraturas expostas.

Não chega a assustar ou incomodar a derrota por si só em Monza. Num calendário com 24 corridas há toda a sorte de pistas e climas a serem enfrentados. Levar a pior que alguma rival dependendo dum certo conjunto de condições é até esperado. Os anos de domínio da Mercedes mostraram isso muitas vezes: durante algum tempo, o carro sofria em pistas de altíssimo downforce, depois passou a ter dificuldades com o calor. Assim, a Mercedes, tão imbatível na gigantesca maioria do campeonato, passava pistas específicas atrás.

A McLaren sofreu algo semelhante no Canadá e, agora, na Itália. Foi batida sem poréns. Nada demais, dessas coisas que acontece. Max Verstappen pôde colocar os talentos deles em prol de sumir durante a prova e deixar os carros laranjas tende de se contentar com posições de pódio. Melhor, inclusive, do que o ritmo que apresentaram em Montreal. Apenas um beliscão.

Aí, porém, vem a inabilidade de lidar com a realidade que foge do roteiro criado na noite anterior à corrida, como aconteceu de maneira clamorosa na Hungria 2024 e várias outras vezes desde então. Um erro grotesco no pit-stop de Lando Norris fez com que o vice-líder do campeonato perdesse posição para o líder, Oscar Piastri, que andou atrás durante todo o fim de semana. Anuviada pelo peso da consciência da semana anterior, quando Norris vinha para a segunda colocação e teve de abandonar com problemas no carro, resolveu vestir a batuta de bastião da justiça.

Pediu a Piastri, que nada tinha com o assunto, que cedesse o segundo lugar de volta a Norris, também inocente na situação. Piastri questionou por um instante, mas logo atendeu ao pedido e deixou o companheiro de equipe passar. Não é apenas um ataque de fair play, mas a cessão de seis pontos no campeonato para o único rival na briga pelo título. E algo que, por Piastri ser totalmente inocente nos problemas do rival, fere a construção esportiva do que é a F1.

Mais que isso, cria um precedente impossível de ser devolvido, como tanto já foi falado e por diversos personagens desde então. Por fim, humilha o líder do campeonato e possível campeão. Ora, se a questão for total e puramente a justiça, Piastri deveria abandonar uma corrida dessas para reparar o que aconteceu com Norris em Zandvoort. E se, na última corrida do campeonato, a diferença costurada pelo GP da Itália estiver decidindo o título a favor de Norris? Como lidar com esse conceito de justiça, então?

O deboche de Verstappen ao saber da situação deu o tom, mas foi o de Damon Hill que terminou de transformar o lance da McLaren em chacota. Não se trata de justiça ou mesmo favorecimento de Norris, piloto que há mais tempo ocupa os quadros papaias, mas o desejo único de limpar a consciência do erro que ela própria cometeu.

Ao fazer isso, a McLaren transforma uma derrota absolutamente normal numa exposição do ridículo ao que está disposta a ir para controlar os dois pilotos e evitar que haja uma guerra civil nas suas garagens. Pudera, se a maneira de lidar com Piastri e Norris é tolher e individualidade competitiva de ambos, imagina como é que Andreas Stella, Zak Brown e companhia não fariam se tivessem de gerencial um entrevero público? Seria algo de desastroso.

Mais de uma coisa pode ser verdade ao mesmo tempo. Ninguém discute que a história da McLaren para conseguir voltar ao topo da F1, algo que parecia conto de fadas há alguns anos, é uma daquelas trajetórias esportivas de acalentar corações de torcedores desavisados. Nem tampouco que Stella foi a peça final para a virada e merece ser reconhecido como o chefe de equipe bem preparado que é. Mas, ao mesmo tempo, é preciso aceitar que existe a incapacidade de lidar com possíveis problemas e, aí, a equipe recorre para cercear ambos. Tudo por medo de tratar das consequências, mesmo que a passividade para aceitar mostra que nenhum dos dois tem personalidade explosiva o suficiente para fazer contínuas declarações de guerra.

Tudo isso vai acabar na hora que um dos dois disser ‘não’. A primeira negativa colocará tudo a perder. Mas, por enquanto, é nessa batida que o sino vai tocar.

Um campeonato tão dominante para coroar o renascimento de uma gigante não deveria terminar com a heroína da história virando gancho cômico. Não era para ser assim, e é até difícil entender como isso foi possível. Mas é aqui que estamos. O campeonato que tinha ares de salão de valsa se tornou comédia stand-up de autodepreciação.

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