Drugovich abraça nova rota na Fórmula E em Andretti que nunca encontrou páreo a Dennis
A sonhada porta na F1 não se abriu, Felipe Drugovich precisou definir uma nova rota e escolheu a Fórmula E. Em uma Andretti que promete oferecer competitividade desde o início, a primeira métrica de comparação será o campeão mundial Jake Dennis, que aniquilou todos os companheiros que teve até hoje — a ponto de nenhum voltar para um segundo ano. Grandes desafios, porém, prometem grandes recompensas
Por muito tempo, o futuro na Fórmula E orbitou a carreira de Felipe Drugovich. Nunca foi a prioridade, clara e justamente dada à Fórmula 1, sonho de dez entre dez pilotos que iniciam na escada da FIA. Mas sempre esteve ali, com um contato inicial extremamente positivo e a certeza de que seria uma adição muito bem-vinda ao grid e ao paddock. Enfim, aconteceu. Não com a Maserati, com quem deu os primeiros passos, mas com a Andretti — uma das primeiras a elogiar publicamente o brasileiro. E o pacote vem com desafios importantes e uma pedreira ainda invicta, que tem nome, sobrenome e título mundial: Jake Dennis.
Desde que se tornou campeão da Fórmula 2, em 2022, Drugovich buscava com unhas e dentes o sonho de entrar na Fórmula 1. Contratado para ser reserva da Aston Martin, fez testes em carros antigos, participou de experiências com a Pirelli e passou perto de estrear “muito mais vezes do que as pessoas pensam”, como revelou em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO, em Berlim. No entanto, as portas sempre pareceram mais fechadas do que abertas, muito mais pelo timing do que por falta de talento.
Timing esse que, enquanto não chegou, também não estagnou completamente a carreira de Drugovich. O brasileiro lutou para se manter ativo o máximo possível, considerando obviamente os compromissos de um reserva da Fórmula 1. Testou na própria Fórmula E, disputou as 24 Horas de Le Mans duas vezes, andou no IMSA SportsCar e fez uma temporada quase completa no European Le Mans Series (ELMS). Mas seguia a sensação de que faltava algo.
Até porque, para um piloto do talento e da velocidade de Drugovich, disputar dez corridas em três anos é obviamente complicado. Desde 2023, foi exatamente isso: cinco no ELMS, duas em Le Mans, duas na Fórmula E e uma no IMSA SportsCar. O tempo passa, e os 25 anos completados em maio também significam a necessidade de um direcionamento, fosse rumo ao endurance ou à categoria elétrica. No fim, o destino será a segunda — e que sorte para os dois lados.

Afinal, se a Fórmula E ganha um piloto extremamente veloz e de muito potencial para o futuro, Drugovich também chega a uma categoria em crescimento constante, com montadoras sólidas e comprometidas com o futuro. De quebra, entra no último ano do regulamento Gen3 Evo, o que dá uma temporada inteira de adaptação antes da chegada do Gen4 — que oferece a oportunidade de zerar tudo e inverter as casas do tabuleiro. Lembra do timing? Não ajudou na Fórmula 1, mas é perfeito nessa chegada à Fórmula E.
Um vislumbre disso já foi dado em julho deste ano, quando Drugovich foi convocado pela Mahindra para substituir Nyck de Vries — que estava a serviço da Toyota no WEC. Na rodada dupla do eP de Berlim, o brasileiro sustentou um sábado chuvoso e caótico para se sobressair no domingo, com pontos já na segunda corrida pela categoria e a demonstração clara de que tem muito a oferecer. Ou seja, já abre a primeira temporada como titular tendo pontos somados — algo que Zane Maloney, com 16 corridas na última edição, não conseguiu. Teve carro pior, claro, mas muito mais oportunidades e adaptação.
Primeira pedreira está posta: Jake Dennis
Com o anúncio consumado, começam as análises sobre o que Drugovich pode fazer e o quão longe pode chegar na Fórmula E. O fim de semana do eP de Berlim é um grande presságio, naturalmente, mas só o tempo e o passar das etapas vai mostrar realmente o nível de competitividade do brasileiro. O certo, porém, é que Felipe vai precisar buscar algo que ninguém conseguiu até hoje: superar Jake Dennis na Andretti.
Para efeitos de apresentação, Dennis é ‘o cara’ da Andretti, única equipe que defendeu na Fórmula E, e campeão mundial na temporada 2022/23. Além da Fórmula E, é piloto de desenvolvimento da Red Bull na Fórmula 1, ganhando inclusive a chance de andar no TL1 do GP de Abu Dhabi após selar o título da categoria elétrica. E ainda disputa provas do GT World Challenge com certa regularidade.

Ou seja, aos 30 anos, Dennis é o famoso rato de corrida. Rápido, com forte leitura de jogo e completamente capaz de ignorar as consequências de seus atos na pista, é um competidor implacável, que costuma gerar faíscas com aqueles que aceitam entrar na dança. O principal deles é Pascal Wehrlein, com quem Jake tem péssima relação, mas atritos já surgiram com António Félix da Costa e outros pilotos. Dentro da garagem, nunca houve necessidade, pois o domínio interno sempre foi esmagador.
Em cinco temporadas na Andretti, Dennis teve cinco companheiros diferentes de equipe: Maximilian Günther, Oliver Askew, André Lotterer, Norman Nato e Nico Müller. Ou seja, a coisa parte do seguinte ponto: caso siga para uma segunda temporada, Drugovich já estaria registrando um feito inédito ao lado do britânico.
E essa instabilidade no segundo assento vem pela dificuldade de somar pontos igualmente com os dois carros, algo que nenhum deles conseguiu. O que chegou mais perto foi Günther, o primeiro de todos, que marcou 25 pontos a menos que Dennis em 2020/21. De resto, os placares falam sozinhos: 126 a 24 contra Askew; inacreditáveis 229 a 23 contra Lotterer, no ano em que Jake foi campeão; 122 a 47 contra Nato; e 93 a 48 sobre Müller. Ninguém resistiu para uma segunda edição, algo que o brasileiro é o que tem mais chances de conseguir.
E, como sempre, a recompensa equivale ao nível do desafio. Só de andar perto de Dennis e ajudar a igualar os pontos somados no campeonato, Drugovich já estaria sendo muito mais útil que os últimos companheiros do britânico. Caso consiga superá-lo em algum momento, as apostas passarão a subir imediatamente, e o brasileiro será cotado em um patamar bem diferente. Afinal, vai encarar um campeão com muito mais experiência na categoria e especificamente um piloto que entende muito sobre gerenciar energia e ganhar posições nas horas certas. Por outro lado, tem escopo maior a evoluir em classificações.

Na Andretti, Drugovich vai encontrar uma equipe de potencial alto, mas que passou longe de extrair todo o possível do equipamento nas duas últimas temporadas. As posições no Mundial de Equipes seriam melhores se o segundo piloto acompanhasse o ritmo de Dennis, claro, mas o ritmo para ser campeão ou brigar regularmente por vitórias não esteve lá. Desde que Jake foi campeão, inclusive, isso quase não apareceu mais.
E muito se deve à relação complicada com a Porsche, fornecedora dos trens de força da Andretti. As duas já se bicaram em vários momentos, inclusive em decisão de título, enquanto a relação rachada de Dennis e Wehrlein não é segredo para ninguém. O fato é que o equipamento fornecido pela montadora alemã é competitivo, já rendeu títulos mundiais às duas equipes e pode ser uma força e tanto para Drugovich. Em suma, o brasileiro definitivamente não chega a um time de fundo de pelotão. E o futuro é ainda mais promissor, com um acordo encaminhado com a Nissan — atual campeã de Pilotos com Oliver Rowland — pelo fornecimento na Gen4.
A partir de agora, inicia-se uma nova era na carreira de Drugovich — em que a Fórmula 1 sai de cena pela primeira vez, e o título mundial da Fórmula E passa a ser o objetivo principal. Há muita água para rolar, claro, mas foi um passo necessário para destravar de vez a carreira de um piloto extremamente talentoso, que chega a uma plataforma em que de fato pode brilhar. A Andretti oferece competitividade suficiente para sonhar com bons resultados, e os primeiros sinais de Felipe nos carros da categoria foram promissores. Em uma coincidência daquelas, essa história começa no Brasil, em dezembro — e com um futuro extremamente promissor no horizonte.
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