Da equipe do amor à quase morte: a McLaren beirou uma tragédia shakespeariana na F1

É até contraditório imaginar que a equipe que conquistou o Mundial de Construtores com seis etapas de antecedência é uma das mais atrapalhadas e confusas do grid. Mas é, e é por isso que a Fórmula 1 chegou a Abu Dhabi com uma briga tripla em mãos pelo título dos Pilotos

Depois de encerrar a temporada 2024 em alta e com o título do Mundial de Construtores, que não vinha desde 1998, a McLaren chegou com o sarrafo alto para 2025. E, de fato, a equipe cumpriu com a maior parte dessas expectativas, mas deixou a desejar em muitos aspectos, em especial no gerenciamento do time. Tentando interferir o mínimo possível na batalha interna, a equipe papaia se atrapalhou em muitas ocasiões e se complicando mais do que deveria no Mundial de PilotosO título veio neste domingo (7), mas não apaga as lambanças que quase colocaram tudo a perder para o campeão Lando Norris. E quem sabe o que poderia ter sido de Oscar Piastri.

Tudo começou logo na primeira etapa, o GP da Austrália, que acabou sendo um resumo do ano que estava por vir: ordens pelo rádio, carro dominante e erros marcantes. No começo, com Norris e Piastri formando uma dobradinha tranquila, o australiano foi desautorizado pela equipe a atacar o companheiro. A ordem foi cumprida, mas Piastri errou e se afastou do líder. A partir daí, a McLaren acionou seu modus operandi e liberou as ‘regras papaia’. 

Porém, o erro maior de Piastri foi na volta 44, quando rodou com a chegada da chuva e caiu para fora do top-10. No final, ainda conseguiu escalar de volta para o nono posto e beliscou 2 pontos, enquanto Norris venceu o GP da Austrália. 

A partir desta prova, a maior questão ao redor da McLaren passou a ser a inconsistência de ambos os pilotos. Norris perdeu a ponta e a vantagem que tinha construído na Austrália na Arábia Saudita, enquanto Piastri se recuperou e esboçou um domínio no meio da temporada. Porém, as patacoadas da equipe laranja voltaram a aparecer no GP da Itália, e, desta vez, para mudar completamente o cenário do campeonato. 

A inversão de posições na Itália abriu a pior fase de Piastri na temporada 2025 (Foto: McLaren)

A etapa em Monza marcou a 16ª rodada, e Piastri liderava àquela altura por 34 pontos, a maior margem que conseguiu construir no ano. Na rodada anterior, Norris havia abandonado por conta de uma quebra no motor, e a moral do inglês era a pior ao longo de toda a temporada. Mas a McLaren fez um esforço para que o momento invertesse na garagem.

Já na reta final do GP da Itália, Max Verstappen liderava confortavelmente, o que era raridade àquela altura do campeonato, e a McLaren vinha logo atrás. Porém, por conta de uma parada ruim, Norris perdeu a segunda posição para Piastri, que teve um pit-stop mais rápido. Foi neste momento que a equipe papaia decidiu interferir na prova. 

Partindo novamente do princípio da justiça e de não querer que fatores externos ditem a disputa em pista, o que é totalmente inviável no cenário do automobilismo, a McLaren pediu para Piastri devolver o segundo posto. Pior do que isso foi a explicação pelo rádio, lembrando Oscar do GP da Hungria de 2024, quando Norris entregou a vitória depois de um undercut acidental da equipe. 

Apesar da situação ser totalmente diferente desta vez, já que ambos disputavam o título, Piastri cedeu e entregou a Norris a segunda posição e todo o bom momento que havia construído até o GP dos Países Baixos. A partir daí, o australiano nunca mais foi o mesmo e virou um mero coadjuvante, entrando em uma seca de seis etapas sem pódio e perdendo uma vantagem de 34 pontos em apenas cinco etapas. 

Oscar Piastri despencou na F1 depois do GP da Itália (Foto: AFP)

É bem verdade que Piastri tem a maior parcela da culpa pela má fase que viveu na reta final, mas o ambiente da McLaren que tanto prometeu justiça, igualdade e amor acabou quebrando as pernas do australiano e afetando sua confiança no momento mais importante da carreira. Uma verdadeira tragédia shakespeariana.

Vale ressaltar que a McLaren não pendeu essas decisões apenas para um lado pensando em favorecer um nome em detrimento do outro. Em Singapura, Piastri deixou a porta escancarada para Norris, que mergulhou e tomou a segunda posição. O lance foi agressivo e até provou um toque, mas foi interpretado como lance de corrida pela FIA e pela McLaren — pelo menos de imediato. 

No GP dos Estados Unidos, Norris confirmou à imprensa que sofreu uma punição interna por conta da manobra — uma medida totalmente desproporcional, mas que indicou que as regras papaia são muito mais rígidas do que imaginava-se. Não basta não bater no companheiro de equipe, é preciso não encostar no outro carro laranja, o que também vai na contramão completa da natureza do automobilismo. 

A punição a Norris, que foi entendida como a perda de prioridade de volta rápida no Q3 da classificação, não durou muito, uma vez que Piastri provocou um acidente que abandonou ambas as McLaren na sprint dos Estados Unidos. Com isso, a sanção ao inglês foi anulada. 

Lando Norris e Oscar Piastri se chocaram nos Estados Unidos (Foto: AFP)

Enquanto a McLaren vivia tropeçando em si mesma, Verstappen viveu o melhor momento do ano e começou a descontar a vantagem de Piastri e Norris rapidamente. No final do GP dos Países Baixos, a margem do líder para o neerlandês era de 104 pontos. 

Os erros não pararam por aí, já que a McLaren sofreu uma desclassificação dupla no GP de Las Vegas, vencido por Verstappen, e cometeu um dos piores erros de estratégia possíveis com a decisão de não parar sob safety-car no GP do Catar. Mais uma vez, o vencedor em Lusail foi Verstappen.

Tudo isso acabou levando a disputa pelo título para Abu Dhabi. Por mais que Norris e Piastri pudessem chegar brigando entre si, a presença de Verstappen — e na segunda posição, à frente do australiano — escancara o preço pago pelos sucessivos erros cometidos ao longo do ano em diferentes esferas.

O final foi feliz, mas é bom que a McLaren leve as lições de agora para tempos com menos bonanças do ponto de vista técnico.

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